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“O homem é um animal que adora tanto as novidades que se o rádio fosse inventado depois da televisão haveria uma correria a esse maravilhoso aparelho completamente sem imagem.”
Millôr Fernandes nos ajudaria a explicar esse interesse extraordinário em IPOs. A turma adora uma coisa nova. Não é nada contra as empresas já listadas há algum tempo, mas, sabe como é, depois de décadas casados, já não vemos mais aquela chama, a paixão e o frescor iniciais.
Por muitos anos, estudei o comportamento e as carteiras dos melhores fundos de ações no Brasil. Objetivamente, sem juízo de valor, havia uma coincidência grande entre seus portfólios. Talvez fosse porque aquelas eram mesmo as ações certas para se comprar sob a ótica do value investing e, sendo todos eles alegadamente buffettianos, estavam condenados a se repetir. Talvez decorresse de algum tipo de conluio, tácito ou explícito, entre eles. Talvez os recém-chegados apenas copiassem os mais antigos. Talvez fosse mera falta de opção, com poucas ações de mínima qualidade e preços razoáveis gozando de uma liquidez mínima. Quem sabe uma combinação entre essas coisas…
“No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade.” Guimarães Rosa nos traz esperança de quebrarmos esse samba de uma nota só.
A nova safra de IPOs, além de representar importante desenvolvimento do nosso mercado de capitais e permitir fonte de financiamento a várias companhias, oferece uma oportunidade muito rica de geração de alfa, ou seja, de se bater o mercado de forma consistente a partir da multiplicidade de novas opções. Todo mundo conhece Vale, Petro, Localiza, Lojas Renner, B3, Braskem, Itaú, Raia. Como ter um insight superior sobre uma companhia sobre a qual todos têm insights superiores?
A novidade, o novo e desconhecido por definição, é matéria-prima de alta qualidade para a diferenciação. Quem se apropriar mais rápido dela sai em vantagem. Como naquele discurso do personagem de Jeremy Irons no filme “Margin Call”: “Be faster, smarter or cheat. And I don’t cheat…”. Existem modelos para a Embraer há mais de 20 anos. Mas quem tem planilhado devidamente Méliuz ou 3Tentos?
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Sim. Você tem razão em sua ponderação. Os estudos do Jay Ritter são contundentes e, na média, os IPOs perdem dinheiro no longo prazo. Nós mesmos replicamos o artigo para o caso brasileiro, com semelhante conclusão. Mas isso não os deveria excluir sob hipótese alguma. Dizer que os IPOs, na média, não são boas escolhas no longo prazo é muito diferente de afirmar serem todos os IPOs ruins. Havemos de ser mais seletivos e criteriosos. Apenas isso. Se comprarmos qualquer coisa, perderemos dinheiro lá na frente. E se ignorarmos os IPOs, deixaremos passar oportunidades incríveis de multiplicação.
Não precisamos ir muito longe. Veja o caso de Méliuz, por exemplo, que acaba de vir à Bolsa e se multiplicou algumas vezes, inclusive contribuindo para o bom desempenho de nossas carteiras no primeiro semestre. Com as possibilidades enormes que se abrem com a aquisição do Acesso, a capacidade de fazer crosssell e upsell demonstrada com o business de cartão, a continuidade do crescimento orgânico e a manutenção de uma cultura forte, isso pode dobrar de novo com o iminente aumento de capital. Mais liquidez, novos acionistas de porte, novas possibilidades. Essa história vai ser realmente grande.
Outros casos recentes emblemáticos são Locaweb e Banco Inter, claro. Se eu tivesse de apontar minhas candidatas a repetir uma trajetória de muito sucesso entre as recém-listadas em Bolsa, apontaria Infracommerce e BR Partners. A primeira vai se consolidar como a principal solução para terceirização profissional do e-commerce e de toda estratégia omnichannel no Brasil, disruptando toda a integração B2B e B2C lá na frente. Espero duas aquisições em três meses, já atraindo bastante atenção do mercado. E BR Partners é um caso simples de financial deepening, muito bem tocado e com consistência de resultados. Evidentemente, não tem todo o caráter exponencial de um caso de tecnologia clássico, mas vai entregar consistentemente 30% de crescimento ao ano, enquanto negocia a um Preço/Lucro de 13 vezes. Talvez não vejamos isso se transformando em algo verdadeiramente grande porque pode ser abocanhado por uma outra grande plataforma, como Inter ou XP, ainda sem valor de franchise nos nichos de atuação de BR Partners.
No setor agro, também temos dois IPOs interessantes. A gigantesca Raízen e a menor 3Tentos.
Gosto muito da operação de Raízen e acho que isso se encaixa muito bem em portfólios ESG para pegar crescimento composto anual, principalmente de investidores europeus mais habituados com esse tipo de negócio. Em poucos anos, isso vai fazer R$ 16 bilhões de Ebitda e conversa bem com o valuation de R$ 80 bilhões. Raízen é uma das poucas, talvez a única, empresas brasileiras capazes de oferecer etanol de segunda geração em grandes volumes, já com demanda garantida pelos próximos dez anos de seus próprios sócios Shell e Exxon. O IPO da Raízen só não é mais apetitoso ainda por conta do valuation descontado de Cosan, cujas operações de Compass e Moove estão redondas e podem mais uma vez surpreender o mercado, possivelmente até com operações societárias no segundo semestre (mesmo depois da Atmos na Compass, faria sentido mais um movimento ali).
Já 3Tentos é diferente. Um caso também forte em ESG, com foco especial no “S”, dado o impacto de financiamento e fornecimento de capital de giro para pequenos e médios produtores no Sul. Três operações distintas e complementares de varejo, trading e industrial, o que lhe confere flexibilidade de exploração das melhores possibilidades entre as três e uma margem consolidada interessante, dada a operação integrada. Grosseiramente aqui, financia o produtor provendo capital de giro com as lojinhas de semente, fertilizante, etc., recebe em soja e pode executar na operação de trading ou produzir o farelo e vender com maior valor agregado. Com o dinheiro do IPO vai fortalecer balanço e ser capaz de dar mais capital de giro ainda e também repetir a estratégia no Mato Grosso, um mercado gigantesco e com múltiplas possibilidades de crescimento. Saindo a 7 vezes Ebitda para 2022, o valuation tem sido bem recebido e não deve ser proibitivo. Depois da alta vigorosa na estreia de Boa Safra, a turma está bem animada para o início de negociações. Não há oferta de varejo aqui, mas o investidor pode comprar no pregão de sexta-feira ou investir indiretamente por meio do fundo Vitreo Agro Cash , que vai tentar participar do IPO.
Em meio à nova safra de IPOs, a Vitreo está com uma promoção muito interessante. Todos aqueles que fizerem reservas em IPOs pela plataforma da Vitreo nesta semana num valor igual ou superior a R$ 10 mil ganham R$ 100 para gastar como quiserem na Empiricus. Fica aqui o convite para aproveitar essa barganha.
Felizmente, vez ou outra o tal do mercado nos dá ótimas oportunidades de comprar papéis por preços bem interessantes, exatamente o que aconteceu com Eneva nesta semana
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