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Esta é a segunda vez que me pergunto isso, mas agora é a Inteligência Artificial que me faz questionar de novo
Minha jornada de reflexões sobre os impactos da inteligência artificial (IA) continua intensa. Tenho aproveitado esse momento para escrever — quase como um exercício de organização mental. Uma tentativa de dar forma a ideias que, confesso, têm oscilado entre picos de fascínio e vales de angústia. O tema que tem borbulhado na minha cabeça desta vez é o impacto da IA sobre a agenda de diversidade.
Não faz muito tempo que escrevi por aqui sobre como essa agenda parecia ter perdido espaço e tração nas empresas.
Ainda assim, a conclusão daquele texto, baseada em dados e sinais do mercado, era relativamente otimista: apesar do avanço de governos mais conservadores e da reação cultural contra pautas progressistas, parecia que havíamos alcançado um novo patamar na discussão sobre diversidade.
Mas a escalada da IA recoloca a pergunta na mesa: estamos diante de uma tecnologia que pode ampliar ou estagnar essa agenda?
Antes mesmo da explosão recente da IA generativa, alguns sinais de desaceleração já apareciam. Nos Estados Unidos, por exemplo, dados da Equal Employment Opportunity Commission mostram que a participação de mulheres em funções técnicas no setor de tecnologia continua surpreendentemente baixa, abaixo de 25%, e avançou pouco na última década.
Em paralelo, diversas empresas começaram a reduzir ou reformular programas formais de DE&I (Diversidade, Equidade e Inclusão), muitas vezes em resposta a pressões políticas ou a críticas sobre sua efetividade.
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Ou seja: a agenda já atravessava um momento de revisão. A inteligência artificial talvez esteja acelerando esse movimento — mas talvez não da forma mais óbvia.
Se olharmos para o debate público sobre IA, uma preocupação recorrente é a possibilidade de algoritmos reproduzirem ou amplificarem vieses presentes nos dados em que foram treinados.
Esse risco existe e tem sido amplamente discutido. Mas há outro efeito colateral menos visível — e talvez igualmente relevante: a possível homogeneização do pensamento.
Basta um rápido passeio pelo LinkedIn para perceber algo curioso. Cada vez mais, parece que estamos assistindo a interações entre agentes e outros agentes. Uma sensação difusa de opacidade tem me acompanhado sempre que navego por ali.
A diversidade cognitiva — entendida como a coexistência de diferentes formas de interpretar o mundo, formular perguntas e construir raciocínios — tornou-se, na última década, um ativo desejado pelas organizações.
Equipes diversas tendem a desafiar consensos mais rapidamente e explorar caminhos que um grupo homogêneo dificilmente enxergaria.
Mas o que acontece quando uma parte crescente da produção intelectual passa a ser mediada pelos mesmos modelos de IA?
Pesquisas recentes sobre colaboração entre humanos e IA começam a oferecer algumas pistas interessantes.
Estudos conduzidos por pesquisadores da Harvard Business School e do MIT, por exemplo, mostram que o uso dessas ferramentas pode aumentar significativamente a produtividade e ampliar o repertório médio de ideias geradas por um grupo.
Contudo, esses mesmos estudos apontam um efeito paradoxal: as contribuições individuais passam a se parecer mais entre si.
Em outras palavras, os grupos produzem mais ideias — mas elas convergem para padrões semelhantes, reduzindo a variabilidade entre as respostas humanas. E isso não é totalmente surpreendente.
Os grandes modelos de linguagem que hoje utilizamos foram treinados em enormes bases de dados globais.
Quando milhões de pessoas recorrem a essas ferramentas, é natural que o processo passe a orbitar em torno de padrões estatísticos semelhantes. O resultado é uma espécie de centralização invisível do pensamento.
Paradoxalmente, quanto mais utilizamos a IA para ampliar nossa capacidade de produzir, maior pode ser o risco de comprimirmos o espaço para o pensamento realmente original.
Nesse cenário, a vantagem competitiva deixa de estar apenas no acesso à tecnologia. Ela passa a depender da capacidade de preservar algo cada vez mais raro: o pensamento próprio — autêntico, disruptivo.
Pensamento que nasce de repertório fresco, de fricção intelectual, de experiência real, de visão de mundo diversa e dos variados estados emocionais.
Tenho minhas apostas. O futuro talvez nos reserve caminhos de volta a experiências mais analógicas — espaços em que relações humanas possam florescer e em que as emoções voltem a ser o pano de fundo das trocas.
Na lógica quase inevitável do pêndulo, a superexposição a dados, somada aos longos períodos diante das telas, parece apontar para a necessidade de um novo equilíbrio.
Um respiro em meio à velocidade de trem-bala que tem nos desafiado a viver — cada vez mais — uma vida acelerada demais para ser plenamente vivida.
Até a próxima,
Thiago Veras
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