Novo recorde: dólar à vista sobe mais de 1% após Copom e vai às máximas; Ibovespa recua
O novo corte na Selic, o desânimo com a retomada do grau de investimento pelo Brasil e a pressão sobre as moedas emergentes recolocaram o dólar à vista na faixa de R$ 4,28. O Ibovespa caiu e voltou aos 115 mil pontos

O enredo parecia perfeito: o Copom confirmou as expectativas do mercado e cortou a Selic em 0,25 ponto, mas, ao mesmo tempo, sinalizou o fim do ciclo de reduções nas taxas. Uma indicação que tinha tudo para trazer alívio ao dólar à vista — juros mais baixos, afinal, quase sempre implicam em desvalorização do câmbio.
E, ao menos no início da sessão desta quinta-feira (6), essa lógica prevaleceu: o dólar abriu em queda e chegou a encostar na faixa de R$ 4,20. Só que, ainda durante a manhã, a calmaria no mercado de câmbio começou a se dissipar.
Pouco a pouco, a moeda americana foi se valorizando. No início da tarde, o dólar à vista já subia em relação ao real, numa trajetória de fortalecimento que continuou até o fechamento. E, ao fim do dia, o resultado foi um novo recorde nominal para a divisa: R$ 4,2852, em alta de 1,09%.
Ok, é quase um empate técnico em relação à máxima anterior, de R$ 4,2850, anotada em 31 de janeiro. Mas, mais importante que a cotação em si, é a constatação de que o mercado de moedas continua pressionado, descolando do clima relativamente tranquilo visto no Ibovespa e nas bolsas globais.
O estresse visto no dólar à vista se deve a uma série de fatores. Em primeiro lugar, há a própria decisão do Copom: por mais que o ciclo de cortes da Selic tenha terminado, fato é que o Banco Central reduziu a taxa, o que estreita ainda mais o diferencial em relação aos juros dos EUA.
Nas duas últimas reuniões do Copom, a Selic foi cortada em 0,75 ponto, chegando ao piso histórico de 4,25% ao ano, enquanto as taxas americanas permaneceram inalteradas na faixa de 1,50% a 1,75%. Assim, o 'gap' entre os juros dos dois países diminuiu.
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Com isso, investidores que buscam rendimentos fáceis têm menos estímulo para colocar recursos no Brasil. É uma conta de risco e retorno: quanto os juros brasileiros eram superiores a 10%, valia a pena correr o risco de aplicar dinheiro no país; agora, essa equação já não é mais tão atraente.
Grau de investimento?
Em paralelo, declarações da agência de classificação de risco Fitch também trouxeram alguma cautela aos investidores. Mais cedo, a instituição destacou que um país com o perfil do Brasil pode levar até dez anos para recuperar o grau de investimento — jogando um balde de água fria nas expectativas do mercado.
A obtenção do selo de bom pagador é fundamental para aumentar a confiança dos investidores estrangeiros e resulta numa maior entrada de recursos externos, fator que diminuiria a pressão sobre o câmbio.
Por fim, um movimento global de fortalecimento do dólar em relação às moedas de países emergentes contribuiu para influenciar ainda mais os rumos da moeda por aqui.
Lá fora, a divisa americana se valorizou em relação ao peso mexicano, o rublo russo, o peso colombiano, o rand sul-africano e o peso chileno, entre outras. O real, contudo, teve um dos piores desempenhos do grupo.
[captacao]
Embolsando os lucros
No mercado de ações, o Ibovespa até tentou dar continuidade ao movimento de recuperação visto na semana, chegando a subir mais de 1% no melhor momento do dia. Mas, assim como o dólar, o índice também mudou de trajetória.
Ao fim da sessão, o Ibovespa marcava 115.189,97 pontos, em queda de 0,72% — destoando do Dow Jones (+0,30%), do S&P 500 (+0,32%) e do Nasdaq (+0,67%), que conseguiram permanecer no campo positivo.
Esse comportamento do Ibovespa, no entanto, não foi motivado por fatores estruturais, mas sim por uma realização dos ganhos recentes — nos três últimos pregões, o índice acumulou alta de 2%. E, sem grandes gatilhos positivos, os investidores preferiram embolsar parte desses lucros.
Boa parte desse movimento se deve às ações dos bancos, que perderam impulso e caíram em bloco: Itaú Unibanco PN (ITUB4) fechou em baixa de 0,24%, Bradesco PN (BBDC4) recuou 1,16%, Banco do Brasil ON (BBAS3) teve perda de 1,69% e as units do Santander Brasil (SANB11) desvalorizaram 2,24%.
Essa tendência negativa vista nos bancos foi parcialmente neutralizada pelas ações da Petrobras, tanto as ONs (PETR3) quanto as PNs (PETR4), que fecharam em alta de 2,69% e 2,78%, respectivamente.
Ontem, o BNDES fixou em R$ 30,00 o preço das ações ON da Petrobras que irá vender na oferta subsequente — a instituição irá vender 734,2 milhões de papéis desse tipo, ficando com uma fatia de apenas 0,16%.
Na ponta negativa do índice, destaque para Braskem PNA (BRKM5), em baixa de 7,46%, após a Justiça de São Paulo determinar que os bancos credores da Odebrecht podem vender as ações da companhia, dadas em garantia pela construtora.
Ajuste nos juros
A indicação de que o BC não vai mais cortar juros daqui para frente, mantendo a Selic em 4,25% ao ano, desencadeou um movimento de ajustes positivos nas curvas de juros — quem apostava em mais um corte na Selic em março precisou rever suas posições.
Veja abaixo como ficaram os principais DIs nesta quinta-feira:
- Janeiro/2021: de 4,29% para 4,33%;
- Janeiro/2023: de 5,42% para 5,45%;
- Janeiro/2025: de 6,05% para 6,14%;
- Janeiro/2027: de 6,39% para 6,47%.
Enquanto isso, fora do Ibovespa...
Ontem, as ações ON da Mitre (MTRE3) estrearam na B3 e fecharam em forte alta de 7,77%. Hoje, foi a vez dos papéis ON da Locaweb (LWSA3) começarem a ser negociados — e, assim como a incorporadora, também dispararam em seu primeiro dia.
As ações da estreante fecharam em forte alta de 19,42%, a R$ 20,60— os papéis saíram do IPO a R$ 17,25, no pico da faixa indicativa de preço.
Também fora do Ibovespa, destaque para as ações ON da Centauro (CNTO3), que subiram 14,70%, a R$ 49,71, e chegaram a novas máximas. Mais cedo, a companhia anunciou a compra da Nike do Brasil, por R$ 900 milhões, passando a deter a exclusividade dos itens da marca no país.
Top 5
Veja abaixo os cinco papéis de melhor desempenho do Ibovespa nesta quinta-feira:
- Cielo ON (CIEL3): +4,69%
- Weg ON (WEGE3): +3,55%
- Petrobras PN (PETR4): +2,78%
- Petrobras ON (PETR3): +2,69%
- Embraer ON (EMBR3): +1,30%
Confira também as maiores baixas do índice:
- Braskem PNA (BRKM5): -7,46%
- Eletrobras ON (ELET3): -4,50%
- Fleury ON (FLRY3): -4,18%
- BR Malls ON (BRML3): -3,98%
- Azul PN (AZUL4): -3,59%
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