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Desvalorização do dólar, disparada do ouro, da prata e da platina, venda de títulos do Tesouro norte-americano — tudo isso tem um só gatilho, que pode favorecer os mercados emergentes, entre eles, o Brasil
“Não dá para ignorar a possibilidade de que talvez não exista a mesma disposição para comprar dívida norte-americana”. A declaração de Ray Dalio explica como o uso da força bruta de Donald Trump e o aumento dos riscos geopolíticos estão provocando um afastamento dos ativos dos EUA — e favorecendo emergentes, entre eles o Brasil.
E é só olhar para os mercados para confirmar a tese do fundador da Bridgewater Associates. Enquanto ele concedia uma entrevista para a Bloomberg às margens do Fórum Econômico de Davos nesta quinta-feira (22), o Ibovespa fazia história (de novo) ao de aproximar da marca inédita dos 178 mil.
As ações do setor financeiro, o de maior peso no Ibovespa, puxam os ganhos do dia, em alta na casa de 3% para nomes como Itaú (ITUB4) e Bradesco (BBDC4). Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) também sobem, mas abaixo de 2%.
O dólar à vista, por sua vez, renovou mínima da sessão, abaixo de R$ 5,30.
Estrategistas do JP Morgan dizem que esse é só o começo, e que o ano de 2026 tem tudo para ser marcado por fortes fluxos de capital externo para as ações brasileiras, impulsionados pela busca por diversificação fora dos EUA.
Dados da B3 mostram que investidores estrangeiros movimentaram mais de R$ 2,8 trilhões em ações no mercado brasileiro à vista no ano passado, um aumento de 15% em relação a 2024.
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Desde que os EUA romperam o vínculo do dólar com o ouro, em 1971, os governos têm optado por “imprimir dinheiro” em vez de permitir que crises de dívida sigam seu curso — isso acontece quando o serviço da dívida cresce mais rápido do que a renda, comprimindo o consumo.
Segundo Dalio, após mais de meio século desse comportamento, o mundo assiste agora a um “colapso da ordem monetária”, evidenciado pela mudança na composição das reservas dos bancos centrais e pela compra de ouro.
“Quando você vê o ouro subindo 67%, não é um metal precioso que sobe 60%", disse Dalio à Bloomberg nesta quinta (22).
"Ele foi comprado principalmente por bancos centrais, mas também por outros investidores, com o objetivo de diversificar as moedas fiduciárias, não apenas o dólar”, acrescentou.
As preocupações de Dalio, no entanto, estão na transição de disputas comerciais para o que ele chama de “guerra de capitais”.
O fundador da Bridgewaters lembrou que os títulos do Tesouro norte-americano foram, por décadas, a base das reservas globais, mas afirmou que o volume de dívida emitida pelos EUA agora colide com um apetite global menor para mantê-la.
“Há um problema de oferta e demanda”, disse Dalio, acrescentando que a relutância em adquirir títulos da dívida norte-americana se deve às fricções geopolíticas.
Referindo-se à declaração de Trump, que descartou o uso da força militar na tentativa de adquirir a Groenlândia, Dalio afirmou que “foi um discurso muito importante porque existe uma linha, uma linha vermelha”.
"Se houver uma ação militar, isso terá implicações de guerra de capitais", afirmou.
A tendência de se desfazer de ativos norte-americanos ganhou força em meio às crescentes tensões transatlânticas e às preocupações com um possível enfraquecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
O mais recente episódio, não por acaso, envolve um fundo de pensão dinamarquês. O AkademikerPension anunciou que planeja se desfazer de seus títulos do Tesouro norte-americano até o final do mês, alegando riscos de crédito.
“Os EUA basicamente não são um bom indicador de crédito e, a longo prazo, as finanças do governo norte-americano não são sustentáveis”, disse Anders Schelde, diretor de investimentos da AkademikerPension, à Bloomberg na terça-feira (20).
A AkademikerPension, que administra cerca de US$ 25 bilhões em poupança para acadêmicos, detinha cerca de US$ 100 milhões em títulos do Tesouro norte-americano no final de 2025, de acordo com Schelde.
O CEO do UBS Group, Sergio Ermotti, no entanto, alertou que a tentação de usar títulos da dívida pública norte-americana como arma é uma “aposta perigosa”.
“Diversificar para longe dos EUA é impossível”, disse Ermotti em uma entrevista à Bloomberg em Davos. “Os EUA são a economia mais forte do mundo”.
Os países europeus detêm trilhões de dólares em títulos e ações dos EUA, alguns dos quais estão em fundos do setor público.
Em resposta à guerra tarifária de Trump, o mercado começa a especular se eles poderiam vender esses ativos, o que poderia aumentar os custos dos empréstimos e reduzir as ações, dada a dependência dos EUA de capital estrangeiro.
A China, que já foi o maior detentor estrangeiro da dívida do Tesouro dos EUA, evitou qualquer venda rápida dos ativos durante dois confrontos comerciais com Trump — em grande parte com base no fato de que não há outro lugar para esses grandes fluxos de capital irem, e despejá-los no mercado fomenta o risco de ser um ato de autoflagelação.
*Com informações da Bloomberg
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