Saudi Aramco: petroleira atacada pelo Irã já foi bombardeada antes, fez o maior IPO da história e segue no topo do mercado global de petróleo
Bombardeio contra refinaria da Saudi Aramco coloca em xeque produção da petroleira, mas isso já aconteceu no passado — bem no ano de seu IPO bilionário

Imagine ser a maior petroleira do mundo, avaliada em US$ 2 trilhões, e se ver pega no fogo cruzado de uma guerra entre seu maior aliado e seu grande rival geopolítico. É nesta situação que a estatal Saudi Aramco se encontra neste momento.
A Arábia Saudita amanheceu sob fogo cruzado entre os Estados Unidos e o Irã neste 2 de março, quando drones armados iranianos bombardearam a refinaria de Ras Tanura, uma das joias da coroa da Saudi Aramco.
O ataque provocou um incêndio classificado como “limitado”, além de danos causados por destroços, forçando a petroleira a paralisar imediatamente diversas unidades operacionais como medida de precaução.
Embora o governo saudita tenha afirmado que não houve impacto imediato no suprimento local, a interrupção atinge uma planta com capacidade de processar 550 mil barris de petróleo por dia, um pilar essencial para o equilíbrio energético internacional.
A refinaria de Ras Tanura é uma das maiores do mundo e tem um papel central no fornecimento global de combustíveis. A Aramco é uma fornecedora-chave de diesel para a Europa.
Nas proximidades da planta, localizada na costa do Golfo Pérsico, está o maior terminal de exportação de petróleo bruto e derivados da Aramco, com tanques de armazenamento, píeres portuários e pontos de carregamento para exportação.
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As autoridades sauditas e as forças de defesa do país trabalham para neutralizar novas ameaças enquanto tentam restaurar a normalidade operacional. O incidente é visto como uma expansão deliberada do conflito Irã - EUA - Israel, visando o centro de produção de energia saudita.
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Déjà-vu no deserto: Saudi Aramco sob ataque
Não é a primeira vez que a Saudi Aramco se vê no centro de uma tempestade geopolítica desta magnitude.
Em 2019, quando a empresa se preparava para realizar o maior IPO (Oferta Pública Inicial) da história do mercado global de capitais, ataques aéreos coordenados às refinarias de Abqaiq e Khurais paralisaram metade da produção da estatal da Arábia Saudita, comprometendo 5% do abastecimento mundial de petróleo.
Com a produção parada por semanas, o lucro da petroleira caiu em mais de 18% naquele final de terceiro trimestre. Na ocasião, rebeldes houthis do Iêmen assumiram a responsabilidade pelo ataque, mas autoridades norte-americanas alegaram que o autor seria o Irã.
Mesmo sob a fumaça das explosões, a Aramco seguiu com sua abertura de capital em dezembro de 2019 e fez história. A petroleira conseguiu levantar US$ 25,6 bilhões com sua oferta inicial de ações, ao ser avaliada em US$ 1,7 trilhão.
Até hoje, esse ainda é o maior IPO da história, superando a chinesa Alibaba com seus US$ 21,8 bilhões, em 2014.
O IPO na bolsa de Tadawul, da Arábia Saudita, foi o ápice de um projeto ambicioso para atrair investidores estrangeiros e demonstrar a força financeira inquestionável do reino.
Até hoje, o valor de mercado da Saudi Aramco se mantém na faixa dos US$ 1,7 trilhão, com as ações registrando uma pequena desvalorização de 2,5% em relação a seis anos atrás.
Apesar de sua solidez financeira e margens de lucro que superam os 30%, a Aramco permanece como um alvo estratégico óbvio para qualquer escalada bélica no Oriente Médio. O ataque atual revive o principal fator de risco que já assombrava os investidores desde 2019: a instabilidade regional.
Por que a Aramco é insubstituível
A Saudi Aramco é mais do que uma simples petroleira; ela é o sustentáculo da economia saudita e o principal motor do governo para financiar o país. A petroleira é de propriedade da família real saudita, a Casa de Saud. O príncipe herdeiro Mohamed bin Salman é o responsável pela estratégia internacional da companhia. Isso inclui o IPO em 2019.
Embora tenha capital aberto, mais de 80% das ações continuam nas mãos do governo saudita, dividido entre o controle direto da família real e um fundo soberano. Menos de 5% dos papéis estão disponíveis para negociação no mercado.
Os números mais recentes da Saudi Aramco reforçam sua importância para a economia do país: no terceiro trimestre de 2025, a empresa reportou um lucro líquido ajustado de US$ 28 bilhões, com um volume substancial de pagamento de dividendos bilionários ao Estado.
Essa montanha de capital é o que permite à Arábia Saudita manter seu peso geopolítico e financiar seus serviços públicos.
Tem também um impacto significativo no mercado global de petróleo. O fechamento de Ras Tanura amplia o risco de desequilíbrios relevantes no abastecimento global de combustíveis.
Um ataque a uma infraestrutura energética dessa magnitude é um dos cenários mais temidos pelos participantes do mercado de petróleo, especialmente em um momento em que o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz — pelo qual passa cerca de um quinto da produção mundial de petróleo — está praticamente paralisado à medida que as tensões se intensificam entre Irã e Israel.
Em meio ao conflito, as cotações do petróleo subiam hoje ao redor do mundo, com o barril do Brent, negociado em Londres, em alta de 8%, próximo de US$ 80.
Na semana passada, a cotação do Brent estava em US$ 70, com o mercado apontando para uma tendência de queda diante da intenção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de aumentar a produção.
Nesta segunda-feira, a Opep confirmou o aumentou e indicou uma aceleração na produção diante dos ataques à Aramco e o risco do Estreito de Ormuz. Enquanto os mercados se alinham, a Saudi Aramco deve provar mais uma vez porque é a petroleira mais valiosa do mundo.
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