Gestor de US$ 200 bilhões diz o que pode fazer o gringo fugir da bolsa brasileira: balanços do 1T26 e eleições — mas não da forma que você pensa
Para o capital estrangeiro, o Brasil não é um debate político ou fiscal, mas um balcão de oportunidades de valor; entenda por que, para o gringo, o micro das companhias vence o macro do governo — mas não para sempre

Se o investidor brasileiro acha que a enxurrada de dinheiro gringo na bolsa — que só em janeiro chegou a R$ 26,3 bilhões, superando todo o ano de 2025 — veio para ficar, é bom abrir os olhos: o capital estrangeiro tem data para carimbar o passaporte e ir embora do Brasil.
Quem faz o alerta é Luis Ferreira, CIO do EFG Private Wealth Management, líder na América Latina do private bank suíço EFG, que tem mais de US$ 200 bilhões sob gestão e presença em mais de 40 países.
Segundo ele, a temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 pode ser a janela para o dinheiro gringo voltar para mercados mais desenvolvidos.
“O primeiro sinal de saída do dinheiro gringo do Brasil deve vir a partir de abril, quando conheceremos os resultados financeiros das empresas no primeiro trimestre de 2026. Esses números serão observados com lupa pelo investidor de fora”, disse.
“Se o fundo tiver atingido a meta de resultado, a bolsa brasileira vai viver a primeira etapa da saída de recursos estrangeiros”, acrescenta.
O segundo momento de saída dessa enxurrada de capital gringo pode ser na eleição de outubro. Ferreira, no entanto, faz questão de ressaltar que o resultado do pleito pouco tem a ver com a saída dos recursos estrangeiros do mercado brasileiro.
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“Para gestores que administram dezenas de carteiras em várias partes do mundo, não há tempo de olhar se um determinado país tem um governo de esquerda ou de direita. A missão do fundo é trazer retorno para o cliente. Portanto, o que acontece em períodos eleitorais é uma realocação da carteira”, disse.
“O gestor de um fundo gringo precisa de um gatilho para sair depois que bate as metas de resultado, e esse gatilho, no Brasil, pode ser a eleição”, acrescentou.
Ferreira dá um exemplo da realocação dos fundos em razão da eleição.
“Nenhum fundo sai tirando dinheiro de um país porque um candidato A venceu o B. O que acontece é que os gestores sabem que, se a esquerda vence, a tendência é de ter um governo mais ‘gastão’, que oferece mais assistência à população, então olhamos mais de perto os setores na bolsa ligados ao consumo. No caso de vitória da direita, o setor financeiro tende a ir melhor. Então fazemos esse balanço”.
A tempestade perfeita vem dos EUA
A “tempestade perfeita” para o capital estrangeiro sair do Brasil vem dos EUA, segundo Ferreira.
“A desregulamentação tão defendida por Donald Trump pode favorecer fusões e aquisições e promover a reversão do ingresso de recursos estrangeiros nos mercados emergentes. Juros mais baixos ajudam também”, disse ele, acrescentando que o governo norte-americano deve acelerar o “pacote de bondades” antes das eleições de meio de mandato, marcadas para novembro deste ano.
“Se o gestor está preocupado com o valuation nos EUA, fusões e aquisições podem amenizar esse desconforto e fazer o gringo sair dos emergentes caso a operação seja bem-sucedida. O contrário também é verdadeiro: se vier pior do que o mercado espera, o dinheiro estrangeiro fica em países como o Brasil”, disse.
Questionado sobre o que faria um gestor de um grande fundo gringo ficar mais tempo no Brasil, ele responde: o país precisa fazer a lição de casa.
Segundo Ferreira, a enxurrada de recursos estrangeiros entrou no Brasil não por mérito do país, mas porque esse dinheiro precisava ir para algum lugar.
“Se o crescimento vier acompanhado de uma questão fiscal equacionada, eu ficaria mais tempo alocado em Brasil”, disse. “Nossa cabeça é: no longo prazo, a questão fiscal é fundamental; no curto prazo, não é determinante”, acrescentou.
“A verdade é que está ruim na Europa, nos EUA e no mundo inteiro. Então o estrangeiro passou a se perguntar: se isso é um problema geral, onde posso encontrar as melhores alternativas? Hoje, a resposta passa pelos países emergentes que, embora não tenham tanto em crescimento, têm yield e valuation super descontado”, acrescentou.
Vale lembrar que alguns fatores trouxeram o estrangeiro de volta à bolsa brasileira: a incerteza ligada às políticas de Trump, a necessidade de diversificação do dólar em meio a riscos geopolíticos e os juros altos por aqui são os principais deles.
Investindo com a cabeça de um gringo
Se o Brasil não está atraindo dinheiro de fora por ter feito a lição de casa, e a questão fiscal e a eleição deste ano não são fundamentais para o aumento do fluxo estrangeiro no curto prazo, para onde o investidor brasileiro deve olhar?
Segundo Ferreira, a primeira coisa é observar o horizonte do investimento.
“Para o investidor pessoa física, o importante é estar atento, em primeiro lugar, ao horizonte de investimento: se o investimento for de longo prazo, suportar a volatilidade e não se desesperar; se for um investimento de prazo mais curto, vale ficar atento aos solavancos do mercado”.
Outra dica de ouro do gestor é expandir o horizonte de diversificação. Para isso, ele avisa: é preciso que o investidor pessoa física se eduque financeiramente.
“Não aconselho ninguém a ter 100% da carteira em nada — nem em dólar, nem em real, nem em ações, nem em renda fixa e nem em Brasil”, disse.
“No caso do investidor brasileiro, eu recomendo que saia um pouco de Brasil. É tentador ver tanto dinheiro gringo entrando, mas para quem já ganha em real e é muito exposto ao próprio país, vale a pena buscar outros mercados e ativos para diversificação”, acrescentou.
Ferreira lembra que atualmente é muito mais fácil diversificar investimentos através de corretoras que, muitas vezes, estão na palma da mão, a um toque da tela do celular.
Para o investidor que, ainda assim, está preocupado com o efeito das eleições na bolsa brasileira, Ferreira deixa um recado:
“Vai haver ruído político, mas mantenha a calma. Não saia liquidando posição por causa de declaração de um partido A ou B. Saiba separar barulho de sinal. Tire um pouco o pé se for necessário, mas siga investindo”.
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