Nem o K-pop salva: bolsa da Coreia do Sul cai 12% e vive pior dia da história. Por que o “show” parou em Seul e o que isso significa agora
O Kospi vinha de uma valorização estrondosa de 75% no ano passado, impulsionado pelo hype da inteligência artificial

Os mercados na Ásia viveram um dia de caos nesta quarta-feira (4), mas nenhuma bolsa sofreu um tombo tão coreografado quanto a da Coreia do Sul. Em um movimento que faria qualquer fã de K-pop perder o ritmo, o índice Kospi despencou 12,1% — o pior desempenho diário da história —, enquanto o Kosdaq derreteu 14%.
O impacto foi tão severo que a Korea Exchange precisou acionar o circuit breaker, sistema que interrompe temporariamente as negociações em caso de perdas muito severas.
A bolsa coreana foi a única da região a chegar a esse ponto extremo, enquanto vizinhos como Japão e Hong Kong registraram perdas bem mais moderadas, de 3,61% e 2,28%, respectivamente.
Essa, no entanto, não foi a primeira vez que o circuir breaker foi acionado na Coreia do Sul. No auge do pânico dos mercados provocado pela pandemia de covid-19, em março de 2020, as negociações também foram interrompidas. Antes disso, em 2008, na esteira da quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, a bolsa coreana também parou.
O show (de horror) na Coreia do Sul
O Kospi vinha de uma valorização estrondosa de 75% no ano passado, impulsionado pelo hype da inteligência artificial (IA).
Com a escalada da guerra no Oriente Médio e o aumento da aversão ao risco global, os investidores partiram para uma realização de lucros massiva.
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Pesou também o fato de a Coreia do Sul ser extremamente dependente da importação de petróleo.
Diferente de outros vizinhos asiáticos, a economia sul-coreana é mais sensível a choques de energia, o que pressiona diretamente os setores industriais e exportadores.
Além disso, o Kospi é fortemente concentrado em tecnologia, semicondutores e manufatura.
A diretora de pesquisa de ações para a Ásia da Morningstar, Lorraine Tan, afirmou à CNBC que essa concentração amplifica movimentos em momentos de estresse do mercado.
As gigantes que costumam carregar o índice nas costas foram as que mais sofreram no pregão desta quarta-feira (4): a Samsung Electronics, líder do setor de tecnologia, despencou cerca de 12%, enquanto a SK Hynix, uma gigante dos chips, recuou 10%.
O mercado agora teme que o alto custo de energia possa desacelerar a expansão dos data centers de IA, tirando o fôlego das empresas que foram as estrelas do mercado até aqui.
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O que a queda da bolsa significa em longo prazo?
A forte queda da bolsa da Coreia do Sul nesta quarta-feira (4) pode ter sido só um pocket show (de horror) do que o país deve enfrentar caso o conflito no Oriente Médio se arraste por mais tempo.
Como a Coreia do Sul depende fortemente da importação de petróleo e gás, os termos de troca devem se deteriorar com o aumento dos preços das commodities. No entanto, graças às fortes exportações de chips, navios e máquinas de IA, espera-se que a conta corrente mantenha um superávit.
Para Min Joo Kang, economista sênior do ING para Coreia do Sul e Japão, o maior risco para o crescimento econômico da Coreia do Sul é o fato de a incerteza geopolítica e o aumento dos preços do petróleo desacelerarem o investimento em IA globalmente.
“Como esperamos que uma atividade robusta de chips impulsione o crescimento, a fraqueza repentina das exportações de chips e do investimento em instalações pode ter um impacto negativo considerável. Por enquanto, ainda não achamos que isso seja um caso base”, afirma.
A economista, o entanto, diz que as correções nos mercados de ações coreanos nos últimos dois dias podem reduzir a confiança do consumidor e possivelmente os gastos em um futuro próximo.
O ING manteve a previsão atual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2,2% ano a ano para a Coreia do Sul, mas ressalta que os riscos de queda cresceram significativamente.
A inflação também preocupa, já que a energia representa cerca de 7,5% da cesta do índice de preços ao consumidor (IPC) no país, e uma variação de 10% nos preços do petróleo aumenta o IPC geral em cerca de 0,2 ponto percentual.
Segundo Min Joo Kang, subsídios do governo e companhias de energia podem absorver alguns desses choques.
“Neste momento, a principal prioridade do banco central da Coreia do Sul deve ser acalmar a ansiedade do mercado”, afirma.
A economista lembra que, além da busca por porto seguro, a realização de lucros pode ter contribuído para quedas acentuadas nos mercados de ações da Coreia do Sul durante dois dias consecutivos.
“Não esperamos que a atual agitação do mercado provoque um corte de juros pelo BC. Em vez disso, enquanto monitora os desenvolvimentos do mercado, o BoK provavelmente aumentará a liquidez do mercado por meio de suas operações de títulos para estabilizar o mercado”, afirma.
Ela não descarta que o governo da Coreia do Sul use fundos para a estabilização do mercado se a situação se agravar.
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