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Avaliar custos, revisar contratos e diversificar mercados estão entre as medidas recomendadas para enfrentar a nova tarifa sobre produtos brasileiros

A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, confirmada na quarta-feira (15), coloca um novo desafio no caminho das pequenas e médias empresas (PMEs) que vendem para o mercado americano.
Para quem depende dessas exportações, a preocupação agora é entender se ainda vale a pena manter os embarques e quais estratégias podem ajudar a reduzir os impactos da medida que entra em vigor em 22 de julho.
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Seu Dinheiro, o momento exige cautela e planejamento. Entre as principais alternativas estão revisar as contas do negócio, renegociar contratos, avaliar a rentabilidade das operações e, quando houver viabilidade, buscar novos mercados para reduzir a dependência dos Estados Unidos.
Antes de tomar qualquer decisão sobre continuar ou não exportando para os EUA, é preciso colocar as contas na ponta do lápis. Para Helder Santos, professor do Núcleo de Estudos e Pesquisas Avançados em Tributação da FIPECAFI, a permanência no mercado americano deve ser definida com base em critérios econômicos, e não apenas pela existência da tarifa.
"Algumas perguntas são fundamentais: Qual será o aumento efetivo do preço final para o comprador americano? O cliente está disposto a absorver parte desse aumento? Existem concorrentes de outros países sujeitos a tarifas menores? A margem de contribuição ainda permanece positiva? O mercado americano continua estratégico no longo prazo?", diz.
Segundo o especialista, em muitos casos, continuar vendendo aos Estados Unidos pode ser a melhor decisão, mesmo com margens menores. Isso porque recuperar clientes depois de abandonar um mercado costuma ser mais caro do que enfrentar um período de rentabilidade reduzida.
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Por outro lado, se a empresa concluir que perdeu competitividade de forma permanente, pode fazer mais sentido redirecionar parte da produção para mercados com menos barreiras comerciais.
"O cenário é claramente desafiador. Mudanças, portanto, serão importantes para evitar perdas significativas. Entendo que essa mudança seja uma estratégia de sobrevivência, não de crescimento e ampliação", afirma Santos.
Para João Alfredo Lopes Nyegray, mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia, especialista em Negócios Internacionais e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o primeiro passo é revisar os cenários financeiros da empresa.
Segundo ele, o ideal é trabalhar com pelo menos três hipóteses: a tarifa sendo totalmente absorvida pelo importador, dividida entre comprador e exportador ou assumida majoritariamente pela empresa brasileira. Também é importante testar diferentes cenários de câmbio e de volume de vendas.
Se a operação só for viável em um cenário cambial muito favorável, o risco continua elevado.
Além disso, Nyegray recomenda revisar os contratos firmados com compradores americanos. "Os contratos merecem revisão. É necessário verificar quem é responsável pelo pagamento dos tributos de importação, qual Incoterm foi utilizado, se existem cláusulas de revisão de preço, força maior, alteração legislativa ou hardship e se o comprador possui obrigação mínima de volume. A tarifa não autoriza automaticamente o descumprimento do contrato."
Continuar exportando também não precisa ser uma decisão de tudo ou nada. A empresa pode manter apenas os clientes mais rentáveis, suspender produtos de menor margem, adaptar embalagens, reposicionar itens em uma faixa premium, agregar serviços ou desenvolver versões menos expostas à tarifa. Outra possibilidade é utilizar distribuidores com maior escala, capazes de diluir custos.
Para Nyegray, a melhor estratégia nem sempre será permanecer ou sair do mercado americano. Em muitos casos, o caminho pode ser reduzir a exposição, renegociar contratos, selecionar produtos e preservar presença estratégica enquanto novos mercados são desenvolvidos.
Na avaliação de João Eloi Olenike, presidente-executivo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), diversificar mercados é uma alternativa viável para muitas pequenas e médias empresas.
"Embora não seja fácil ou imediata para todas (exige investimento de tempo, recursos e adaptação), diversas PMEs conseguiram compensar perdas nos EUA com ganhos em outros destinos, contribuindo para o recorde de exportações totais do Brasil", afirma.
Segundo ele, o sucesso depende do setor de atuação, do tipo de produto, da capacidade de adaptação da empresa e do aproveitamento dos programas de apoio à internacionalização.
"A diversificação já provou ser eficaz no agregado (exportações totais subindo apesar das tarifas americanas), e PMEs participam cada vez mais graças aos programas de internacionalização. Nem toda empresa precisa exportar volumes grandes, sendo que, muitas começam com pedidos pontuais e crescem gradualmente."
Nyegray faz um alerta: diversificar não significa substituir um mercado por outro da noite para o dia. Cada país possui exigências próprias, como tarifas, normas sanitárias e técnicas, canais de distribuição, hábitos de consumo, condições de pagamento e custos logísticos.
Para uma PME, o mais racional costuma ser reduzir a dependência de um único destino, adicionando um ou dois mercados compatíveis com seu produto, capacidade produtiva e estrutura financeira, em vez de tentar vender simultaneamente para diversos países.
Segundo o professor da PUCPR, a diversificação pode passar por diferentes regiões, mas cada mercado exige planejamento e adaptação.
Na Europa, a União Europeia ganha relevância após o acordo com o Mercosul, reunindo cerca de 720 milhões de consumidores. Portugal e Espanha podem servir como porta de entrada para empresas brasileiras, enquanto mercados como Alemanha, França, Itália e Países Baixos oferecem maior potencial, mas também exigências regulatórias mais rigorosas.
Países da EFTA, como Suíça e Noruega, também aparecem como oportunidades, principalmente para produtos de maior valor agregado.
Na Ásia, Singapura pode funcionar como um hub para o Sudeste Asiático. Já Vietnã, Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia têm demanda crescente por alimentos, máquinas, soluções agrícolas e bens de consumo, embora custos logísticos e acordos comerciais da região possam reduzir a competitividade brasileira. A Índia também oferece potencial, mas continua sendo um mercado complexo e protegido.
A América Latina também, com países como Chile, Colômbia, Peru, México, Paraguai e Uruguai, podem ser alternativas mais acessíveis para muitas PMEs, deivdo à proximidade geográfica e à maior familiaridade com produtos brasileiros. Ainda assim, é preciso avaliar riscos como instabilidade cambial e dificuldades de pagamento.
Na África, o especialista cita oportunidades em mercados como África do Sul, Angola, Moçambique, Marrocos, Egito, Gana e Quênia, que apresentam demanda por alimentos, equipamentos agrícolas, medicamentos, materiais de construção, tecnologia financeira, soluções de energia e serviços.
Por outro lado, muitas operações exigem financiamento, seguro de crédito e parceiros locais confiáveis. Segundo o especialista, o continente não deve ser visto apenas como um destino para produtos que deixaram de ser vendidos em outros mercados.
Nyegray também lembra que, embora o governo brasileiro tenha anunciado a abertura de centenas de novos mercados para produtos nacionais em mais de 80 países, isso representa autorização regulatória ou sanitária, e não garantia de vendas.
No fim das contas, para uma PME, o melhor mercado nem sempre será o maior, mas aquele em que a empresa consegue competir, adaptar seu produto, controlar os riscos e atender seus clientes de forma consistente.
Apesar do impacto negativo das tarifas, Olenike acredita que as pequenas e médias empresas podem encontrar oportunidades ao longo desse processo de adaptação.
"Para a economia como um todo, há um custo líquido (perda de competitividade em certos setores), mas também oportunidades de reestruturação. Para PMEs individuais, o retorno depende da capacidade de adaptação — muitas transformam o cenário em ganho. O 'dinheiro das tarifas' fica nos EUA, mas o esforço de diversificação pode trazer mais dólares de outros mercados e uma economia mais robusta."
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