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Após disparar em 2025 e perder força em 2026, o ouro obrigou empresas do setor a buscar alternativas para conquistar clientes

Quem passou por uma joalheria nos últimos dois anos provavelmente percebeu que os preços das peças mudaram. Mas por trás das vitrines existe uma transformação ainda maior acontecendo.
Após uma forte valorização em 2025, o ouro passou a perder força em 2026. O metal, que chegou a atingir um recorde histórico no fim de janeiro, acumulou quedas ao longo do primeiro semestre, pressionado principalmente pelos sinais de força da economia dos Estados Unidos.
Dados de emprego acima das expectativas e a inflação longe da meta reduziram as apostas de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), cenário que costuma diminuir o interesse dos investidores pelo ouro e aumentar a volatilidade dos preços.
Para empresas do setor de joias, o movimento trouxe algum alívio nos custos, mas manteve um desafio importante: a dificuldade de prever os próximos passos. E, para um mercado que trabalha com uma das matérias-primas mais valiosas do mundo, previsibilidade faz toda a diferença.
“Uma alta expressiva eleva imediatamente o custo de mercadoria vendida, comprimindo as margens de lucro se o preço final não for alterado. Quando é necessário repasse, há redução nas vendas e isso também afeta o resultado financeiro das joalherias", diz Cristina Helena Pinto de Mello, professora de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
“Além disso, há um forte impacto no capital de giro: para repor o mesmo volume de estoque físico, a empresa precisa de muito mais caixa.”
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Quando o preço cai, ocorre o inverso: o custo de reposição diminui, abrindo espaço para recomposição de margens ou maior agressividade comercial. “Contudo, há um risco de desvalorização do estoque que foi adquirido no pico do preço", complementa a docente.
Foi exatamente isso que levou fabricantes a reformular produtos, varejistas a mudar a forma de vender e redes de franquias a rever portfólios inteiros.
Na JR Metais, fabricante com 30 anos de atuação no mercado brasileiro e cerca de 3 mil lojistas atendidos em todo o país, a sensação é de que a dinâmica do ouro mudou completamente.
Segundo a empresa, o metal sempre apresentou oscilações. O problema é que, nos últimos anos, elas passaram a acontecer em intervalos muito menores.

“Antes, o ouro costumava permanecer longos períodos dentro de uma mesma faixa de preço. Hoje, os movimentos acontecem de forma muito mais frequente, acompanhando tensões geopolíticas, conflitos internacionais e mudanças na economia global”, diz Ricele Siqueira Machado, gerente comercial da empresa.
Por isso, segundo a empresa, estabilidade passou a ser mais importante do que o próprio valor do metal. "O ouro precisa estar estável, porque daí o cliente tem segurança em comprar."
A resposta encontrada pela JR Metais foi adaptar os produtos sem abandonar sua principal matéria-prima.
A empresa percebeu que, mesmo durante os períodos de forte valorização, a demanda por joias não desaparecia. Casamentos e formaturas continuavam acontecendo, gerando compras de anéis de ouro como um bem de valor.
O que mudava era o perfil dessas compras. Em vez de peças pesadas, os clientes passaram a buscar modelos mais leves, que eram mais baratas por usar menos ouro.
A empresa também intensificou a oferta de ouro 10 quilates, uma alternativa mais acessível do que o tradicional ouro 18 quilates.
Na Mapa da Mina Acessórios, que reúne 58 operações e cerca de 25 franqueados, a reação seguiu outro caminho.
Segundo o sócio-diretor Marcos César Pertille, a empresa optou por absorver parte do impacto da alta para evitar que os franqueados sofressem uma pressão excessiva sobre suas margens.
"Não repassamos todos os custos que teriam que ser repassados."
Ao mesmo tempo, a empresa precisou encontrar formas de reduzir o consumo de matéria-prima sem comprometer a percepção de qualidade.
A solução veio por meio do design. A companhia apostou em uma linha mais minimalista, com produtos menores e pedras cravejadas capazes de gerar brilho e impacto visual utilizando menos metal.
A mudança coincidiu com um crescimento expressivo da prata dentro do portfólio.
O banhado a prata, que antes representava cerca de 15% das vendas, passou a responder por aproximadamente 30%.
A JR Metais também ampliou o uso de pedras sintéticas. A tradicional zircônia ganhou mais espaço, mas a principal aposta recente foi a moissanite, pedra produzida em laboratório que reproduz características visuais semelhantes às de um brilhante.
Segundo a empresa, a substituição permitiu manter peças mais robustas e visualmente atrativas sem elevar excessivamente os preços. "As pessoas querem continuar comprando uma peça bonita sem precisar diminuir o tamanho dela."
Se a alta do ouro aparece nas vitrines, seus efeitos mais profundos acontecem nos bastidores. Quando o metal sobe, a necessidade de capital de giro cresce imediatamente.
O motivo é simples: a mesma quantidade de ouro passa a exigir muito mais dinheiro para ser comprada.
Na JR Metais, a empresa precisou reforçar o caixa para manter o abastecimento da produção. Ao mesmo tempo, o controle de estoque ficou mais rigoroso. A companhia passou a concentrar recursos nos produtos de maior saída e eliminou peças com baixo giro.
Os lojistas atendidos pela JR Metais também mudaram seu comportamento. Segundo a empresa, muitos clientes de menor porte passaram a comprar de forma mais pontual e trabalhar mais com catálogos do que com grandes estoques expostos em loja.
A fabricante, então, reforçou os investimentos em catálogos físicos e digitais e remodelou seus mostruários para destacar produtos mais leves e acessíveis.
Enquanto parte do mercado precisou lidar com estoques mais caros e necessidade crescente de capital de giro, a Joias Kether encontrou uma vantagem justamente na velocidade.
A empresária Débora De Landa, fundadora do negócio, construiu um modelo baseado em lives realizadas praticamente todos os dias e em um estoque enxuto. Isso permitiu acompanhar as oscilações do ouro quase em tempo real.
"Hoje eu tenho um modelo de negócio em que a oscilação não me atrapalha."
Como trabalha em estreita parceria com fornecedores e atacadistas, a empresária consegue vender peças considerando a cotação diária do metal.
Se o ouro sobe, o ajuste acontece rapidamente. Se cai, o desconto também chega ao consumidor com velocidade.
A estratégia evitou que a empresa ficasse presa a estoques comprados em momentos de preços mais elevados e, segundo a empreendedora, contribuiu para que o faturamento chegasse a dobrar durante o período de maior volatilidade.

Segundo ela, o fato de o ouro ser um produto de desejo de muitas pessoas também faz com que sua demanda seja sempre alta. “Inicialmente, a consumidora que entra no mundo das joias sonha com itens mais básicos, como uma correntinha de ouro, depois um brinco de ouro. Uma vez satisfeita com esses itens, ela passa a desejar produtos de alto luxo que ainda não possui, como diamantes e pedras naturais, como esmeraldas”, afirma.
“O ouro é um metal que historicamente sempre vai valorizar, e é uma excelente reserva de valor e um investimento válido tanto na alta quanto na baixa.”
Para as pequenas e médias empresas, sobreviver às oscilações do ouro depende cada vez menos de acertar o momento ideal de compra e cada vez mais de planejamento financeiro. Segundo a professora da PUC-SP, como as PMEs costumam ter menos poder de negociação e acesso mais limitado a instrumentos sofisticados de proteção, a gestão de riscos ganha um papel central no negócio.
Uma das estratégias é evitar compras concentradas em períodos de forte valorização do metal. Em vez disso, a especialista recomenda aquisições programadas e fracionadas ao longo do ano, criando um preço médio e reduzindo a exposição aos picos do mercado. Outra medida é encurtar o ciclo entre a compra da matéria-prima, a fabricação e a venda do produto.
"Quanto mais rápido a joia gira, menor é a exposição da empresa ao risco de volatilidade do preço do ativo durante o ciclo produtivo", afirma.
Para empresas maiores, é comum o uso de derivativos financeiros para travar o preço do ouro. Já para as PMEs, uma alternativa mais acessível pode ser negociar previamente os valores com fornecedores ou utilizar contratos fracionados.
A professora também aponta o crescimento de soluções mais recentes, como stablecoins lastreadas em ouro.
Segundo ela, esses ativos digitais podem funcionar como uma espécie de hedge simplificado para empresas que não conseguem operar no mercado tradicional de derivativos. "Quando pensamos em hedge, o objetivo não é lucrar, mas travar um custo e eliminar a incerteza do mercado", explica.
Nesse modelo, a empresa compra tokens vinculados ao preço do ouro. Se o metal subir até o momento da produção, a valorização desses ativos ajuda a compensar o aumento do custo da matéria-prima no mercado físico.
A especialista ressalta que a volatilidade dos últimos anos deixou uma lição importante para o setor.
"A joalheria exige hoje uma gestão de estoque muito parecida com a de uma mesa de commodities. Quem comprou muito metal no pico de 2025 está tendo que trabalhar eficiência operacional agora em 2026 para manter a competitividade sem destruir margens."
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