Empresa pet brasileira aposta em ração com proteína de inseto para reduzir impacto ambiental
Com investimento forte em inovação, a Special Dog Company une economia circular, redução da pegada de carbono para ampliar sua presença no segmento premium

Uma ração feita com proteína de inseto pode parecer uma ideia esquisita à primeira vista. Mas essa foi a forma que a Special Dog Company encontrou para ter uma produção mais sustentável e, de quebra, ainda conquistar um público mais premium.
Batizada de Bionatural Sensitive, a ração tem como principal fonte de proteína animal a farinha da larva da mosca soldado negra (Black Soldier Fly), um ingrediente ainda pouco explorado no Brasil, mas que já vinha ganhando espaço no mercado europeu. O projeto cevou cerca de dois anos e meio para ser produzido até chegar às prateleiras, em julho de 2025.
Segundo Mariana Monti, gerente de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Special Dog, a ideia surgiu após a equipe acompanhar tendências internacionais. "Já se tinha mais de 400 produtos na Europa utilizando a proteína de inseto", explica. Para trazer a tecnologia ao mercado brasileiro, a empresa participou do processo de regulamentação do ingrediente junto ao Ministério da Agricultura.
E a inovação não está apenas na escolha da matéria-prima. A proteína faz parte de um sistema baseado em economia circular dentro da própria operação da empresa.
Os desvios de produção — alimentos que ficam fora do padrão durante o início da operação das máquinas — eram destinado à fabricação de fertilizantes. Agora, retorna para a cadeia produtiva como uma nova fonte de proteína para as larvas.
"Ao invés de dar um destino para fertilizante, pensamos: por que não dar um destino mais nobre e tentar fechar a economia circular alimentando parte da dieta dessas larvas com as nossas avarias?", diz Mariana.
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O ciclo é rápido. As larvas crescem cerca de 500 vezes em apenas quatro dias e podem atingir um crescimento de até mil vezes ao completar duas semanas. Depois desse período, passam por processamento industrial e são transformadas em farinha proteica utilizada na fabricação da ração.
Segundo o relatório de ESG (Ambiental, Social e Governança, em português) da empresa, o modelo também diminui os impactos ambientais da produção, gerando menos impacto de carbono do que fontes convencionais de proteína animal.
O desenvolvimento da Bionatural Sensitive também contou com a aplicação da Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), metodologia utilizada para medir os impactos ambientais em todas as etapas da produção.
Com isso, a companhia afirma ter reduzido a pegada de carbono do produto de 0,95 kg de CO₂ equivalente por quilo para 0,84 kg de CO₂e/kg, uma queda de aproximadamente 11,6%.
Proteína alternativa também mira cães com peles sensíveis
Além do apelo ambiental, a proteína de inseto foi escolhida por oferecer uma alternativa para cães com sensibilidade alimentar e problemas dermatológicos. Por ser uma fonte proteica inédita e hipoalergênica, ela reduz o risco de reações em animais alérgicos a proteínas tradicionais, como a de frango.
Para validar essa proposta, a empresa realizou um estudo clínico em parceria com a Universidade Federal de Lavras (UFLA). Segundo a executiva, os primeiros retornos de veterinários e tutores indicaram melhora em diferentes quadros clínicos.
"Começamos a receber os feedbacks dos dono dizendo que melhoraram mancha de lágrima dos cachorros atópicos que não conseguiam sarar por nada."
Além da farinha da larva da mosca soldado negra, a formulação destinada a cães com peles sensíveis conta com nutrientes como vitamina E, zinco e ômegas.

Aceitação do mercado impulsiona estratégia da empresa
Embora o uso de proteína de inseto ainda seja novidade para boa parte dos consumidores brasileiros, a receptividade ao produto surpreendeu a companhia.
Em apenas dez meses nas prateleiras, a Bionatural Sensitive se tornou o quinto produto mais vendido da família Natural, resultado que reforçou a aposta da empresa em soluções que unem inovação e sustentabilidade.
Os resultados aparecem também no desempenho comercial. Entre 2024 e 2026, a linha Bionatural registrou crescimento de 94,9% no faturamento, consolidando-se como uma das principais apostas da empresa no segmento super premium.
A ração com proteína de inseto faz parte de uma estratégia mais ampla de inovação da companhia, que já estuda novas fontes alternativas de proteína para atender às mudanças do mercado pet nos próximos anos. Entre as possibilidades monitoradas estão proteínas vegetais funcionais, leveduras proteicas, cogumelos e pós-bióticos.
A empresa também prepara o lançamento de uma nova fonte proteica, que ainda não foi revelada.
Inovação sustenta novo ciclo de crescimento
A aposta em produtos de maior valor agregado acompanha um momento de expansão da Special Dog Company. Ao completar 25 anos, a empresa construirá uma nova fábrica em Mateus Leme (MG), prevista para entrar em operação em 2027.
A unidade receberá investimento de R$ 300 milhões e foi projetada sob conceitos da Indústria 4.0, com foco em indicadores de sustentabilidade hídrica e gestão de resíduos.
Hoje, a empresa figura entre as três maiores do mercado brasileiro de pet food. Em 2025, faturou R$ 2,15 bilhões, reúne cerca de 2 mil colaboradores, está presente em mais de 40 mil pontos de venda e exporta produtos para mais de dez países.
Hoje, as exportações representam menos de 2% do faturamento da Special Dog Company. Segundo Priscila Manfrim, diretora administrativa da companhia e parte da segunda geração da família fundadora, apesar de haver planos para ampliar essa participação, a prioridade da empresa, neste momento, é consolidar a atuação no mercado brasileiro.
Para expandir a presença em regiões como o Nordeste, a companhia também está redesenhando sua estratégia de distribuição. O modelo, que tradicionalmente utiliza frota própria, poderá passar a contar com parceiros e microdistribuidores para garantir mais eficiência logística nas novas praças.
A estratégia de crescimento também passa pelo fortalecimento do segmento super premium. Nos últimos anos, a empresa investiu mais de R$ 12,7 milhões no desenvolvimento da linha Bionatural, projeto que levou mais de três anos para ser concluído e mobilizou mais de 6 mil horas da equipe de Pesquisa & Desenvolvimento.
Segundo Manfrim, os investimentos refletem o planejamento para sustentar o crescimento da empresa nos próximos anos. "Este é o projeto mais desafiador, de maior magnitude e mais ambicioso da nossa história", diz.
A unidade terá capacidade inicial de 5 mil toneladas por mês, podendo chegar a 10 mil toneladas conforme a demanda, focando em ração seca e snacks.
A expansão acompanha mudanças no comportamento do consumidor, que tem buscado alimentos com maior valor nutricional e mais informações sobre a origem dos ingredientes utilizados nos produtos para os pets.
"O crescimento vem bastante da humanização dos pets, com tutores mais exigentes que buscam saber a origem dos ingredientes e optam por linhas com foco em performance e longevidade."
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