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Rede que faturou R$ 448 milhões em 2025 monitora o uso de cada equipamento com sensores e análise de dados para reorganizar suas unidades, melhorar a experiência dos aluno

Quem frequenta academias de baixo custo provavelmente já passou pela mesma situação: chegar para treinar no horário de pico e encontrar uma fila de pessoas esperando para usar justamente os aparelhos mais disputados.
O problema é comum em um modelo de negócio que depende de um grande volume de alunos para funcionar, mas, para a Selfit, a solução não foi simplesmente comprar mais equipamentos. A rede de franquias encontrou a resposta na tecnologia para entender exatamente como cada equipamento é utilizado ao longo do dia.
E a estratégia tem mostrado resultado. A empresa conta com 205 unidades e teve um faturamento de R$ 448 milhões em 2025.
Cada máquina passou a gerar informações sobre o comportamento dos alunos. Segundo o CEO da Selfit, Fernando Menezes, a transformação começou há cerca de quatro anos, quando a Selfit implantou sensores em seus equipamentos para medir a utilização real de cada máquina durante diferentes horários do dia.
"A tecnologia registra a frequência de uso dos aparelhos e permite identificar padrões de comportamento dos alunos ao longo da rotina das academias", afirma o executivo em entrevista ao Seu Dinheiro.
Esses dados são processados por uma plataforma tecnológica desenvolvida na Noruega, utilizada pela rede para acompanhar o desempenho operacional de cada unidade. A análise mostrou que alguns aparelhos apresentavam praticamente 100% de utilização constante, enquanto outros permaneciam boa parte do tempo sem uso.
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O resultado foi uma mudança importante na forma como a empresa planeja suas academias. Em vez de repetir o mesmo projeto para todas as unidades, a Selfit passou a dimensionar cada espaço de acordo com a demanda observada na prática.
Antes, era comum que cada nova unidade recebesse cerca de 30 esteiras. Depois da análise dos dados, a rede concluiu que aproximadamente 15 equipamentos eram suficientes para atender à demanda.
Ao mesmo tempo, identificou que outro grupo de aparelhos era muito mais procurado pelos alunos. Os equipamentos de polias — conhecidos como crossovers — concentravam boa parte das filas.
Por isso, em vez de instalar apenas duas ou três máquinas desse tipo, a empresa passou a comprar entre oito e dez equipamentos para cada unidade.
Segundo a empresa, o objetivo é oferecer a quantidade adequada de cada equipamento para atender uma base entre 2.500 e 3 mil alunos por unidade, diminuindo a sensação de superlotação sem necessariamente ampliar o espaço físico das academias.
A Selfit define sua operação como HVLP (High Value, Low Price), conceito que procura oferecer um serviço de maior valor agregado mantendo mensalidades acessíveis.
Embora o modelo seja frequentemente associado ao universo das empresas chamadas de "low cost", a companhia faz uma distinção importante. “O objetivo não é apenas reduzir custos, mas entregar uma experiência considerada superior sem elevar significativamente o preço pago pelo consumidor”, diz o CEO.
Para que a conta feche mesmo com a mensalidade mais baixa, a operação depende de um número elevado de clientes para gerar receita suficiente. Cada academia é planejada para atender entre 2.500 e 3 mil alunos.
Também é preciso um controle rigoroso dos custos, já que qualquer aumento relevante nas despesas pode exigir reajustes nas mensalidades, reduzindo a competitividade do negócio e afastando parte do público que busca preços mais acessíveis.
Hoje, a Selfit oferece planos com mensalidades a partir de R$ 99,90, valor que, de acordo com o executivo, busca reduzir a chamada "barreira psicológica" dos R$ 100 para ampliar o acesso da população à prática de atividades físicas.
O plano básico oferece acesso à musculação e aos equipamentos de cardio, como esteiras, elípticos e escadas, exclusivamente na unidade onde o aluno realizou sua matrícula. Nessa modalidade, não estão incluídas aulas coletivas nem a possibilidade de levar convidados.
No topo da oferta está o plano de R$ 149,90, que garante acesso a todas as unidades da Selfit no país, participação nas aulas coletivas, utilização da plataforma digital da empresa e, dependendo da modalidade contratada, o direito de levar entre cinco e dez convidados por mês para treinar.
Além dos planos próprios, desde janeiro de 2023 a empresa também aceita usuários do Wellhub.
“Essa modalidade representa atualmente entre 5% e 7% de toda a base de clientes e funciona como uma forma complementar de pagamento para pessoas que recebem o benefício por meio das empresas onde trabalham”, diz o CEO.
Fundada oficialmente em 2012 pelos empreendedores pernambucanos Leonardo Pereira e Nelson Lins, a Selfit nasceu com sua primeira unidade em Salvador e passou os primeiros anos estruturando seu modelo operacional antes de iniciar uma expansão mais agressiva.
O ponto de virada da Selfit aconteceu em 2015. Até então, a empresa era uma operação ainda pequena, com apenas cinco academias. Foi nesse momento que recebeu um aporte do fundo americano de private equity HIG Capital, investimento que deu fôlego para acelerar a expansão da rede.
Com o novo capital, a empresa passou a abrir unidades em um ritmo muito superior ao dos primeiros anos de operação. Em apenas quatro anos, a rede saltou de cinco academias para pouco mais de 60 unidades ao final de 2019.
Enquanto outras grandes redes concentravam seus investimentos principalmente nos grandes centros do Sudeste, a Selfit optou por uma estratégia diferente: ocupar mercados considerados pouco atendidos por grandes marcas do setor.
A empresa levou suas academias para cidades onde enxergava espaço para crescimento e menor concorrência, chegando a municípios como Marabá e Santarém, no Pará, além de ampliar sua presença em capitais como Belém, São Luís, Recife, Fortaleza e Salvador. O foco também incluía cidades do interior e regiões metropolitanas com população superior a 300 mil habitantes.
Durante toda essa primeira fase de expansão, a companhia operou exclusivamente com unidades próprias. Todas as inaugurações eram financiadas com recursos do próprio negócio e do fundo de investimento — cada nova academia exigia um investimento próximo de R$ 4 milhões.
No fim de 2019 e início de 2020, a Selfit começou a preparar sua entrada mais consistente no Sudeste. A empresa chegou a inaugurar cerca de 20 unidades distribuídas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais pouco antes das restrições impostas pela pandemia de Covid-19. O planejamento para aquele ano previa a abertura de outras 50 academias, mas a crise sanitária acabou interrompendo esse cronograma.
Após o período de estabilização pós-pandemia, a empresa redefiniu suas prioridades.
Em vez de acelerar novamente a expansão nacional, decidiu concentrar esforços principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde enxergava maior potencial para consolidar sua presença antes de voltar a investir em outras regiões do país.
Embora já apresentasse um ritmo acelerado de crescimento, a empresa optou por esperar uma década de operação própria antes de permitir que terceiros replicassem seu modelo de negócio por meio de franquias.
O objetivo era amadurecer processos internos, consolidar a cultura da empresa e acumular conhecimento suficiente sobre atendimento, captação de clientes e controle de custos antes de transformar esse aprendizado em um sistema de franquias.
Somente em março de 2022 o franchising foi oficialmente lançado.
No primeiro ano, a expansão aconteceu de forma bastante gradual, com aproximadamente cinco ou seis unidades franqueadas. Segundo a empresa, a procura pelo modelo fez com que o desafio deixasse de ser encontrar interessados e passasse a ser selecionar os candidatos.
O critério prioriza empreendedores que tenham participação ativa na operação diária da academia, perfil descrito pela companhia como alguém com "cultura de servir" e presença constante no negócio, evitando investidores que atuem apenas como proprietários distantes da gestão.
As franquias têm papel principalmente em cidades do interior, com população entre 70 mil e 300 mil habitantes. Em muitos desses municípios, segundo a companhia, a Selfit chega como a primeira grande rede nacional de academias.
Para quem deseja abrir uma unidade, o investimento inicial varia entre R$ 3,5 milhões e R$ 4 milhões, dependendo das características do imóvel escolhido e da necessidade de reforma do espaço.
O modelo de negócio da Selfit não prevê a compra de terrenos ou a construção civil por parte do franqueado; a prática comum é que a academia pague aluguel a um investidor imobiliário, retirando o custo da aquisição do imóvel da conta do investimento inicial da franquia.
A empresa estima retorno sobre o investimento próximo de 30% ao ano, com prazo de recuperação do capital em aproximadamente três anos.
Para Menezes, o avanço das grandes redes também mudou o nível de exigência do próprio mercado.
"Há cerca de dez anos era comum encontrar academias de bairro com equipamentos antigos e ambientes sem climatização. Atualmente esses estabelecimentos precisaram modernizar sua estrutura para competir pela preferência dos consumidores”, diz.
A Selfit afirma apostar na força da marca, na padronização das unidades e no treinamento das equipes como diferenciais para conquistar novos alunos, especialmente aqueles que ainda não incorporaram a prática de atividades físicas à rotina.
Mesmo após consolidar presença em diferentes regiões do país, a Selfit afirma que sua prioridade continua sendo o Norte e o Nordeste.
A estratégia é criar verdadeiros "clusters" de academias, concentrando diversas unidades em uma mesma região para fortalecer a marca e ganhar escala operacional antes de avançar para novos mercados.
Entre as metas apresentadas pela empresa estão ultrapassar 50 academias em Pernambuco, superar 30 unidades no Maranhão e alcançar mais de 20 operações tanto no Piauí quanto no Ceará.
Enquanto isso, a expansão mais agressiva para estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais foi colocada em segundo plano.
“A decisão é concentrar recursos financeiros e operacionais na consolidação das regiões onde a marca já possui maior presença antes de retomar um movimento mais forte no Sudeste.”
A expectativa é terminar esse ano com 250 unidades, das quais 195 próprias e 55 franqueadas.
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