CVC (CVCB3) tem prejuízo três vezes maior: há luz no fim do túnel para uma das maiores franquias do Brasil?
A CVC tenta se recuperar em meio a um cenário de custos mais altos no transporte aéreo; o que joga contra e a favor da companhia de turismo?

A CVC (CVCB3) apresentou mais um resultado que deixou muito investidor e franqueado de cabelo em pé. O cenário continua difícil para a empresa de turismo, que triplicou o prejuízo ajustado no segundo trimestre de 2026 (2T26). Não é à toa que, com mais um lote de números fracos, a ação da companhia tenha chegado a cair mais de 11% nesta quinta-feira (13).
A empresa, considerada a nona maior rede de franquias do Brasil pela Associação Brasileira de Franchising (ABF), teve um prejuízo líquido ajustado de R$ 51,3 milhões no período, de acordo com os números divulgados após o fechamento de quarta (12).
No mesmo trimestre do ano passado, o indicador havia ficado em R$ 15,9 milhões. Ou seja, uma piora de 222%.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que é o indicador usado para medir o resultado operacional puro e a geração de caixa da companhia, também passou por uma retração de 8,1% quando comparado ao segundo trimestre de 2025, a R$ 84,9 milhões.
Outra linha do balanço que encolheu foi a da receita líquida, que caiu 6,5%, para R$ 319,5 bilhões.
O que aconteceu com as viagens?
Segundo a companhia, um dos principais fatores que derrubaram os números nesse trimestre foi a guerra entre o Irã e os Estados Unidos, que piorou o clima geopolítico já tenso no Oriente Médio.
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A mesma justificativa já havia sido apresentada no primeiro trimestre deste ano, quando a empresa registrou um prejuízo líquido ajustado de R$ 63,1 milhões. Na época, o motivo foi a paralisação de importantes conexões globais devido ao conflito e custos mais altos de combustível.
E essa segunda causa apareceu novamente no 2T26. Com os aumentos do preço do combustível de aviação, as passagens aéreas registraram alta anual de 52,4%, de acordo com a divulgação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de junho.
O “vilão”, segundo a CVC, foi esse ambiente de voos mais caros, além do orçamento das famílias ainda bastante pressionado.
A empresa chegou a destacar a queda, em todo o mercado aéreo, do número de passageiros em voos nacionais, apesar de a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ter divulgado que, no primeiro semestre de 2026, houve um aumento de 5,4% de viajantes.
Porém, mesmo com o cenário difícil, a demanda por viagens da CVC não desapareceu. As reservas consumidas, indicador que mede as viagens efetivamente realizadas no período, cresceram 2,3% e alcançaram R$ 3,9 bilhões no trimestre.
Desconsiderando os efeitos dos destinos impactados pelos conflitos no Oriente Médio e o câmbio, o avanço teria sido maior, de 6,5%.
No Brasil, principal mercado da companhia, as reservas consumidas avançaram 7,2%, chegando a R$ 3,1 bilhões. Já na Argentina, a operação registrou queda de 13,2%, para R$ 793 milhões.
Os analistas do BTG Pactual afirmaram que o resultado no trimestre foi, de fato, fraco. Porém, já era amplamente esperado. A equipe do banco reforçou o cenário desafiador do setor de viagens, além de taxas de comissão menores que têm pressionado a receita.
Menos lojas CVC
A CVC opera como agência de viagens tanto no Brasil quanto na Argentina, majoritariamente no modelo de franquias. Outra atuação é a marca de intercâmbio Experimento.
Desde o primeiro trimestre deste ano, a companhia vem encolhendo o número de unidades em todas as operações.
Considerando somente as lojas do Brasil, há 1.443 unidades ativas. No trimestre, houve oito aberturas e 20 fechamentos.
A justificativa da empresa é a continuidade da “agenda de qualificação do portfólio e de produtividade da base existente”.
Na Argentina, a CVC inaugurou quatro novas lojas e fechou outras sete. O motivo apontado foi um ajuste seletivo da rede e a preservação de unidades em locais estratégicos.
Ainda que, no trimestre, a empresa tenha fechado mais lojas do que aberto, na comparação anual o saldo é timidamente positivo. Em relação ao 2T25, o número cresceu 4%.
Segundo a companhia, a rede vai continuar expandindo lojas, mas em um ritmo mais lento do que nos últimos três anos, além de agora ter o foco em unidades menores.
O que esperar daqui para frente
Apesar da reação negativa do mercado, o BTG destaca que os resultados desse trimestre apresentaram alguns sinais de melhora.
Na avaliação do banco, a CVC começou a mostrar os primeiros efeitos das reduções de custos.
Em maio, a empresa realizou uma simplificação organizacional com revisão de todo o quadro de funcionários. De acordo com a empresa, três vice-presidências foram extintas e houve um estreitamento das camadas hierárquicas.
O resultado foi uma queda de 10% nas despesas administrativas em relação ao ano passado. A companhia também estima uma redução de custos de mais de R$ 80 milhões em 2026.
O recado da empresa na apresentação de resultados teve um tom mais esperançoso, com menção a um segundo semestre possivelmente melhor graças a sazonalidade do turismo de lazer nesse período.
“Iniciamos o segundo semestre com a estrutura ajustada e mantendo a disciplina na gestão do capital de giro, confiantes nos fundamentos da economia brasileira e no mercado de turismo”, disse a companhia.
Porém, do ponto de vista de investimento, os analistas do BTG ainda preferem ficar de fora da ação e têm recomendação neutra. O banco diz que uma revisão mais positiva viria dos ganhos de eficiência, crescimento mais robusto da receita, estabilização das taxas de comissionamento e alívio nas despesas financeiras.
Outro banco que tem recomendação neutra para a ação CVCB3 é o Santander. Até o mês de julho, o Itaú BBA tinha recomendação de compra para o papel, mas tirou o ativo da cobertura da equipe de análise.
Queda antes mesmo do balanço
Além do efeito do balanço, as ações da CVC também reagem a uma crise financeira de um de seus acionistas, a gestora Apex Partners, que possui 15,5% do capital.
A empresa de investimentos do Espírito Santo enfrenta uma crise após uma investigação interna apontar "inconsistências financeiras" na companhia.
O fundador e sócio da gestora, Fernando Cinelli, foi afastado do comando da empresa na quinta-feira passada (6). Ele também fazia parte do Conselho de Administração da CVC, mas a companhia de turismo afirma que recebeu o pedido de renúncia do cargo no mesmo dia do afastamento da Apex.
Desde o início do escândalo, na última semana, as ações da CVC já despencaram 19,33%. Em 2026, os papéis acumulam queda de 45%.
Números das franquias
Em relação às franquias, a CVC possui quatro modelos: a loja light, o quiosque, a loja padrão e a modular.
No caso da loja light, o investimento inicial é a partir de R$ 65 mil. É exigido que sejam abertos três pontos de atendimento e a marca destaca que se trata do modelo ideal para uma unidade de rua.
Para o quiosque, o custo de abertura é o mesmo: a partir de R$ 65 mil. Para se tornar um franqueado, é preciso abrir dois pontos de atendimento.
A loja padrão é o modelo ideal para abrir em shoppings, destaca a CVC. O investimento começa em R$ 110 mil e são necessários três pontos de atendimento.
Já para a loja modular, a empresa não divulga os valores — são cálculos sob consulta — e afirma que há versatilidade de formatos das unidades nesse caso.
Para todos os modelos, o valor de investimento não inclui capital de giro e nem o custo de locação do ponto comercial. Cabe destacar que a CVC não cobra taxas de royalties e de franquia.
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