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MERCADO AUTOMOTIVO

Os golpes e prejuízos na venda de carros usados inspiraram a criação desta rede de franquias de R$ 600 milhões

Empreendedor já trabalhava com veículos por mais de uma década quando decidiu abrir o próprio negócio; empresa começou como startup e virou franquia

carflix alan ladeia
Alan Ladeia, CEO da Carflix - Imagem: Divulgação/Carflix

De um lado, quem quer vender um carro usado e se depara com uma oferta bem abaixo do que esperava ao procurar uma concessionária. Do outro, o receio de negociar a compra diretamente com um desconhecido e acabar virando vítima de um golpe. Foi pensando nesse impasse do mercado automotivo que foi criada a Carflix, uma corretora para a negociação de automóveis.

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A empresa, criada em 2016 por Alan Ladeia, funciona como uma intermediária na compra e venda de veículos usados.

Ladeia já possuía mais de uma década trabalhando no mercado automotivo quando decidiu abrir o próprio negócio, que hoje é uma rede de franquias com 30 unidades em operação, e outras 20 em processo de abertura.

Segundo o fundador, um dos principais diferenciais da Carflix é que a empresa não possui estoque. Ou seja, ao abrir uma loja da companhia, o franqueado não precisa dispor de milhões de reais para ter carros em exposição.

Além disso, para os clientes finais, a companhia promete uma taxa de comissão cinco vezes menor do que a perda de valor que o vendedor do carro teria em uma concessionária, e veículos selecionados para os compradores.

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Esse modelo de negócio levou a empresa a uma cifra de R$ 250 milhões em vendas no ano passado. Agora, a Carflix está em processo de expansão e acredita que deve encerrar 2026 com R$ 600 milhões em vendas — mais que o dobro de 2025.

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Apesar dos valores chamarem a atenção, nem tudo foram flores na história da empresa. Em entrevista ao Seu Dinheiro, Ladeia explica que a companhia tropeçou muito antes de chegar à estratégia de franquias e quase fechou no caminho.

Os primeiros passos da empresa

Ladeia atua no mercado automotivo desde 2000, quando tinha 19 anos. Ele começou como demonstrador de veículos no Salão do Automóvel, que acontece no Anhembi, em São Paulo.

Ao longo da carreira, passou por diferentes cargos em concessionárias, de vendedor a supervisor, gerente-geral de vendas e diretor comercial, até chegar à vice-presidência de um grupo automotivo.

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Em 2016, ele, ao lado de um colega de profissão, Fábio Pinto, decidiu empreender para resolver uma situação que percebia no mercado automotivo: vender um carro no particular poderia dar mais dinheiro ao proprietário, mas também significava assumir os riscos e a burocracia da negociação.

Essa situação ficou mais clara para Ladeia quando dois amigos passaram por uma experiência de golpe. Ao tentar vender os próprios veículos, entregaram os carros, mas não receberam o pagamento.

Ao mesmo tempo, quem vende por meio de uma concessionária encontra outro problema. Segundo o CEO da Carflix, é comum que a loja ofereça um valor até 30% ou 40% abaixo do que o proprietário conseguiria em uma venda direta.

Foi a partir disso que surgiu a ideia de criar uma terceira alternativa: uma empresa que faria a intermediação entre as duas pontas.

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O investimento inicial foi de R$ 100 mil para o desenvolvimento de um site e um software de lançamento da empresa, que começou com a ideia de ser uma startup.

De startup à quase falência

Nos primeiros anos, a empresa estava em processo de arrumar a casa e traçar as estratégias. Tanto que, até 2019, Ladeia se dividia entre empreendedor e trabalhador CLT em concessionária, mas decidiu largar o emprego para se dedicar 100% à Carflix.

Nesse mesmo ano, havia um boom acontecendo no mercado de startups.

“O Brasil estava com uma taxa de juros de 4,5%. Os fundos de venture capital estavam bombando e todos os investidores buscando fontes alternativas de ganho de capital. Todo mundo queria investir, principalmente em empresas de tecnologia”, relembra em entrevista ao Seu Dinheiro.

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Na época, a empresa recebeu seu primeiro investimento de um fundo ligado a um programa de startups da Microsoft. Também recebeu dinheiro do Mercado Livre e do Banco BV.

Havia ainda discussões para receber um investimento internacional de cerca de US$ 30 milhões — R$ 152 milhões, aproximadamente, no câmbio atual. O plano era abrir cerca de 50 lojas próprias nas capitais brasileiras.

Porém, devido à estrutura de startup, muito focada na alta queima de caixa e investimento de capital expressivo, a Carflix era muito dependente dos aportes dos fundos e não tinha viabilidade financeira para se sustentar sozinha.

Quando começou o período de “inverno das startups”, no início de 2022, a empresa foi uma das afetadas.

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O investimento estrangeiro de nove dígitos recuou. O Banco BV, que era uma fonte relevante de capital para a companhia, também secou os aportes e cancelou uma rodada de R$ 5 milhões que estava no planejamento da Carflix.

Com a mudança no mercado, o fim do otimismo e uma estrutura despreparada para esse cenário, a empresa se viu sem dinheiro para continuar e chegou praticamente à falência.

“Eu tinha 45 funcionários, tive que fazer a demissão do time inteiro. Chegamos à decisão de parar tudo. Eu tinha família para sustentar, então voltei a procurar emprego”, diz Ladeia.

Em uma entrevista para uma vaga, ouviu do executivo da empresa que havia acabado o sonho de empreender.

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“Saí com sentimento de raiva. Queria virar o jogo”, relembra.  

A aposta no modelo de franquias

Para tentar recuperar a empresa, Ladeia decidiu apostar no modelo de franquias, que já havia sido apresentado a ele anos antes por José Carlos Semenzato, empresário famoso do ramo.

Em 2020, Semenzato procurou a Carflix para colocar a “sementinha” na cabeça de que a companhia seria franqueável, mas na época essa não era a prioridade de Ladeia e seu sócio.

Porém, com o negócio praticamente falido, o CEO da até então startup decidiu rever a ideia. A Carflix ainda tinha R$ 200 mil, dinheiro que foi usado para abrir cinco unidades iniciais da franqueadora e uma loja própria. O empreendedor também colocou valores do próprio bolso, vendeu o carro e a casa.

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“As cinco primeiras franquias eu não vendi, eu dei, porque precisava validar o modelo. Fui atrás do meu network, que eram pessoas que já tinham trabalhado comigo no ramo automotivo no passado, para entrar comigo nessa aposta”, conta.

Com essas aberturas, as lojas começaram a vender cerca de 30 carros por mês. O próximo passo para o empreendedor foi vender quatro franquias, totalizando 10 unidades da Carflix. Foi com esse número de lojas que a empresa começou a gerar lucro, diz Ladeia.

Em 2024, o dono da rede voltou a procurar Semenzato. Na época, as unidades abertas movimentavam cerca de R$ 17 milhões por mês em vendas. No ano passado, o empresário decidiu entrar como sócio do negócio, o que deu um gás na expansão.

Uma loja de carros sem carros

Na prática, ao abrir uma loja da Carflix, o franqueado não compra nenhum carro. O veículo continua com o proprietário até que haja, no sistema, algum comprador interessado.

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Para quem quer vender o carro, há duas modalidades: a Venda Turbo, na qual a empresa promete concluir a operação e pagar o vendedor no mesmo dia.

Neste caso, o veículo é vendido com um valor abaixo do mercado em troca da velocidade. Essa estratégia também é usada para carros que já possuem uma quilometragem muito alta e que não passam no crivo para entrar no modelo tradicional da Carflix.

A segunda modalidade é o Anúncio Carflix. O veículo é fotografado pela empresa e anunciado no site próprio e em portais parceiros, como o Mercado Livre e a OLX. Quando surge um interessado, o carro vai para uma unidade franqueada para a avaliação do possível comprador.

A Carflix cobra do vendedor 8% do valor de venda, com teto de R$ 7 mil. Assim, em carros acima de R$ 87,5 mil, a comissão já se torna fixa em R$ 7 mil.

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O sistema da empresa também fica responsável por toda a burocracia de documentos e os trâmites financeiros, incluindo simulação de financiamento e laudos cautelares.

Quais são os próximos passos?

Agora, a empresa mira a expansão com a abertura de novas lojas franqueadas. A expectativa de Ladeia é alcançar 300 franquias em cinco anos, começando pela expansão em São Paulo e avançando para outras regiões do país.

O empreendedor destaca que o investimento inicial para abrir uma unidade é a partir de R$ 170 mil e o prazo estimado de retorno do investimento varia de seis a 18 meses, com lucro mensal entre R$ 20 mil e R$ 80 mil, dependendo da localização da unidade.

O fundador da Carflix se mostra otimista com o mercado automotivo de usados.

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Devido à perda do poder de compra dos brasileiros e ao aumento de preços dos carros zero quilômetro, Ladeia enxerga uma tendência de que mais brasileiros continuem comprando veículos usados.

Um levantamento da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto) mostra que, nos oito primeiros meses de 2026, o mercado de veículos usados acumulou 12,53 milhões de unidades negociadas.

A categoria de seminovos, que são os que possuem até três anos de uso, registrou uma alta de 13,5% em relação ao mesmo período do ano passado.

Além do setor crescer como um todo, Ladeia acredita que a própria empresa pode se destacar porque é um segmento bastante pulverizado. Mesmo os principais players, que são as locadoras na revenda de automóveis, possuem uma participação de mercado pequena.

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Ou seja, maior parte das negociações ainda acontece no particular. E a meta da Carflix é justamente abocanhar essas compras e vendas.

“Queremos que, a cada 20 minutos de carro, o cliente encontre uma loja da Carflix. Devemos chegar à meta de 300 unidades em cinco anos e, no próximo ano, vender cerca de 10 mil carros”, diz Ladeia.

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