Tesouro Direto: preços disparam e taxas caem após primeiro turno, com ‘otimismo Flávio’; veja quanto o Tesouro IPCA+ oferece agora
Mercado revê projeções para os juros futuros diante da vantagem de Flávio Bolsonaro; investidores do Tesouro Direto ganharam dinheiro nesta reprecificação dos títulos

Quem tinha títulos do Tesouro Direto na carteira acordou com o patrimônio maior nesta segunda-feira (5). No primeiro pregão após o primeiro turno das eleições, os preços dos títulos públicos dispararam, impulsionados por uma forte queda dos juros futuros.
O movimento foi tão intenso que levou a plataforma do Tesouro Direto a ficar temporariamente fora do ar durante a manhã e a tarde. Segundo o Tesouro Nacional, a interrupção ocorreu devido à "alta volatilidade dos mercados nesta manhã".
O sistema voltou a operar no início da tarde. E quando atualizou, os números estavam bem diferentes em relação ao fechamento de sexta-feira (2).
O Tesouro IPCA+ 2032, por exemplo, saiu de uma taxa 7,66% para oferecer 7,01% de juro real nesta segunda.
Como preço e taxas tem correlação negativa nos títulos públicos, essa queda da taxa levou a um aumento significativo no preço. Passou de R$ 3.090 na sexta-feira para R$ 3.202 nesta segunda.
E o movimento foi similar em todos os papéis do Tesouro Direto indexados à inflação e prefixados. Ou seja, os títulos Tesouro IPCA+ e Tesouro Prefixados.
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O movimento é uma resposta ao resultado do primeiro turno das eleições. O resultado do pleito presidencial e da nova composição das bancadas legislativas animou os participantes do mercado.
Flávio Bolsonaro (PL) ficou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao fim do primeiro turno. Embora a disputa vá se repetir no segundo turno, a vantagem do candidato da oposição o coloca em vantagem, visto que historicamente a primeira posição sempre conquistou o posto no Planalto.
Como os agentes financeiros acreditam que o candidato do PL representa a maior chance de uma gestão favorável ao equilíbrio das contas públicas, como a possibilidade de um ajuste fiscal mais amplo e novas reformas estruturais, o resultado de domingo (4) foi animador.
Principalmente porque Flávio deve ter uma boa governabilidade nos próximos quatro anos, caso conquiste o posto.
As bancadas do Senado Federal e da Câmara dos Deputados terá, em sua maioria, parlamentares de direita. O próprio Partido Liberal, de Flávio, aumentou a quantidade de cadeiras nas duas casas.
“Para o mercado, mais importante do que a leitura ideológica é o que essa composição significa em capacidade de articulação, aprovação de reformas e execução de uma agenda econômica e fiscal a partir de 2027”, diz Elisa Machado, sócia e economista-chefe da KAT Investimentos.
Ajuste histórico nos juros futuros
Diante do otimismo em relação ao ajuste fiscal e reformas econômicas e políticas, os participantes do mercado ajustaram suas expectativas para os juros nos próximos anos.
A curva de juros, que reúne essas projeções, fechou em todos os vencimentos. Em outras palavras: a expectativa geral e de uma taxa Selic muito menor no futuro.
A taxa do contrato para janeiro de 2028, uma das principais referências dos juros futuros, caiu 5,94% — um nível muito raro para um único dia. Com essa queda, o papel saiu de uma projeção de 13,69% na sexta-feira para 12,665% nesta segunda.
Entretanto, vencimentos mais longos registraram ajustes ainda maiores, na faixa dos 9%.
O maior foi no vencimento de outubro de 2030: queda de 9,69%, levando a taxa para 12,58%. Esses prazos estavam sustentando o nível de 14% há meses.
Como os juros futuros servem de referência para a precificação das taxas dos títulos públicos, com os ajustes desta segunda, os agentes financeiros também estão diminuindo o nível de juros que exigem do governo.
Por isso, os papéis do Tesouro Direto estão apresentando volatilidade e disparada nos preços hoje.
Valorização dos títulos públicos
Essa reprecificação dos títulos públicos é uma das mais fortes já registradas no mercado brasileiro.
Segundo levantamento do InfoMoney, as taxas do Tesouro Prefixado 2032 e do Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037 registraram a segunda maior queda diária da série histórica do Tesouro Nacional, iniciada em 2005.
O Prefixado 2032 saiu de 14,15% ao ano para 12,88%. Já o Prefixado com Juros Semestrais 2037 recuou de 14,17% para 12,97% ao ano.
As quedas, superiores a 1 ponto percentual em um único pregão, só encontram comparação com momentos de forte estresse ou mudança de percepção do mercado.
E, ao final do dia, podem registrar taxas ainda menores. Por volta das 15h25 (horário de Brasília), a plataforma do Tesouro Direto suspendeu negociações novamente.
Na única atualização que teve no dia, os vencimentos mais longos do Tesouro IPCA+ registravam os maiores ajustes:
- o Tesouro IPCA+ 2040 caiu de IPCA + 7,22% para IPCA + 6,50%;
- o IPCA+ 2050 passou de IPCA + 7,06% para IPCA + 6,32%.
E agora? Ainda vale investir no Tesouro Direto?
Se a queda nas projeções de juros foi excelente para quem já tinha títulos na carteira, a situação é diferente para quem pretende investir agora.
Isso porque boa parte das taxas mais elevadas desapareceu com a reprecificação do mercado.
O investidor que conseguiu comprar títulos indexados à inflação pagando IPCA + 8% ao ano travou uma remuneração que já não está mais disponível nos mesmos vencimentos.
Isso não significa, porém, que as oportunidades acabaram.
Mesmo após o recuo, as taxas em patamares atraentes para padrões brasileiros. Os níveis entre 7% e 6% de juros reais no Tesouro IPCA+ entregam uma ótima remuneração no médio e longo prazo.
Além disso, o cenário segue sujeito a mudanças.
O segundo turno acontece em 25 de outubro, e o mercado continuará monitorando pesquisas, alianças políticas e as propostas para a área fiscal. Isso significa que uma nova onda de reprecificação dos juros ainda pode acontecer.
“A reação da bolsa, dos juros e do câmbio dependerá cada vez mais da percepção sobre a trajetória fiscal e a capacidade de execução”, diz Machado.
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