XP recomenda vender títulos do Tesouro Direto para comprar papéis isentos; veja as indicações na renda fixa
Crédito privado volta a oferecer remunerações mais atrativas, levando a corretora a recomendar uma migração gradual para debêntures incentivadas

Os títulos prefixados e indexados à inflação do Tesouro Direto passaram por um rali intenso nas últimas semanas. O preço desses papéis disparou até 17% em dois meses, com a expectativa de melhora fiscal e alívio do prêmio de risco do Brasil diante de uma troca de governo.
Para a XP, chegou o momento de embolsar parte dos lucros acumulados nos títulos públicos e apostar em outros ativos de renda: os títulos isentos.
Mais especificamente, as debêntures incentivadas — dívidas de empresas de infraestrutura, com rendimento isento para pessoas físicas.
A recomendação não parte da expectativa de uma piora para os títulos do Tesouro Direto. Pelo contrário. Os analistas veem espaço para um cenário mais favorável para os ativos domésticos nos próximos meses — caso confirmada a troca de governo.
O ponto é que uma parcela relevante da tese de valorização dos títulos públicos já se materializou em lucro, reduzindo o potencial de ganhos adicionais em relação ao observado nos últimos meses.
Em paralelo, algumas debêntures incentivadas voltaram a oferecer prêmios mais significativos nas últimas semanas.
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Em relatório, a XP afirma que sua preferência passou a ser uma "realização parcial dos ganhos acumulados nos títulos públicos e uma entrada gradual em crédito privado isento de maior qualidade".
O prêmio saiu do Tesouro Direto e reapareceu no crédito privado
Tesouro Direto
A expectativa pela troca de governo após o primeiro turno eleitoral fez os participantes do mercado reajustarem suas projeções para juros menores no futuro.
Como as taxas dos títulos do Tesouro Direto acompanham as expectativas de juros do mercado, elas diminuíram significativamente nas últimas semanas.
O Tesouro IPCA 2032, por exemplo, saiu de uma taxa de IPCA+ 7,6% na sexta-feira antes do primeiro turno (2) para IPCA + 6,7% nesta quarta-feira (14). Há dois meses, as taxas eram ainda maiores, de IPCA+ 8,13%.
Acontece que taxa e preço têm correlação negativa na renda fixa. Quando a taxa cai, o preço sobe para equilibrar o retorno.
Ou seja, essa correção nas taxas do Tesouro Direto fez os preços subirem muito.
Usando o mesmo exemplo do Tesouro IPCA+ 2032, a valorização foi a seguinte:
- Há dois meses: R$ 2.967,03 / IPCA+ 8,13%
- Antes das eleições: R$ 3.100,24/ IPCA+ 7,6%
- Nesta quarta-feira (14): R$ 3.270,85/ IPCA+ 6,71%
Na prática, isso significa que os papéis do Tesouro ficaram mais caros.
Os papéis que mais se valorizaram foram os de vencimento mais longos. O Tesouro IPCA+ 2050 teve uma alta de preço de 17% em dois meses.
Títulos isentos
Em paralelo, o mercado de crédito privado passou pelo movimento oposto.
A XP destaca a abertura dos chamados "spreads" de crédito, que representam o retorno extra que uma empresa precisa oferecer ao investidor em comparação com um título público de prazo semelhante.
- Abrir os spreads significa que os títulos privados passaram a oferecer juros maiores para atrair compradores.
Isso aconteceu porque parte dos investidores retirou dinheiro de fundos de crédito privado nos últimos meses. Para fazer frente aos resgates, muitos gestores precisaram vender as debêntures incentivadas que estavam no portfólio.
Foi o movimento exatamente oposto ao dos títulos públicos: quando o preço de um título de renda fixa cai, a taxa sobe para o novo comprador.
Isso significa que, enquanto o Tesouro Direto ficou mais caro e passou a oferecer taxas menores, diversas debêntures incentivadas ficaram mais baratas e passaram a oferecer prêmios mais altos.
- CONFIRA AQUI: Ainda tem renda fixa pagando IPCA+ 8% por aí: veja a escolha dos bancões para títulos isentos
A aposta não está no risco, mas na qualidade
A XP não está sugerindo uma corrida de títulos públicos para empresas mais arriscadas.
Os papéis do Tesouro Direto são títulos soberanos, com a garantia de pagamento da União — a maior possível para a renda fixa.
Já as debêntures incentivadas dependem do lucro e do caixa das empresas emissoras para cumprir com suas obrigações. Esses papéis também não têm nenhuma garantia externa, como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Por isso, o que os analistas da XP indicam é escolher os emissores de debêntures incentivadas classificados como "high grade", categoria reservada às empresas de maior qualidade de crédito do mercado, normalmente avaliadas com ratings AA e AAA.
O relatório destaca os seguintes títulos isentos:
| Empresa | Ativo | Taxa Indicativa | Taxa se tivesse imposto (gross up*) |
|---|---|---|---|
| São Martinho | SMTO24 | IPCA + 7,96% | IPCA + 9,56% |
| Ecovias Raposo-Castelo | CERT11 | IPCA + 7,81% | IPCA + 9,95% |
| Coelba | CEEBD2 | IPCA + 7,58% | IPCA + 9,16% |
| Vibra | VBBRA0 | IPCA + 7,33% | IPCA + 8,99% |
| Energisa | ENGIA6 | IPCA + 7,23% | IPCA + 9,86% |
| Axia Energia | AXIA18 | IPCA + 7,02% | IPCA + 8,71% |
| Sabesp | SBSPI8 | IPCA + 6,97% | IPCA + 8,47% |
| Sabesp | SBSPK8 | IPCA + 6,96% | IPCA + 8,32% |
O benefício tributário
A remuneração chama atenção por si só, visto que estão superiores aos títulos públicos. Mas a justificativa para a recomendação da XP é a isenção de IR.
Diferentemente do Tesouro Direto, as debêntures incentivadas permitem que o investidor fique com todo o retorno contratado na compra do papel.
Os analistas utilizam uma métrica conhecida como "gross-up", que converte a rentabilidade de um ativo isento em uma taxa equivalente à de um investimento tributado, para comparar os títulos.
E a diferença é significativa.
A debênture da São Martinho, por exemplo, paga IPCA+ 7,96% ao ano com isenção de IR. Quando ajustada pelo benefício tributário, sua remuneração equivale a aproximadamente IPCA+ 9,56%.
Para a XP, esse diferencial ajuda a compensar o risco adicional do crédito privado em relação aos títulos públicos, especialmente quando o investidor escolhe empresas com boa avaliação de crédito.
… e não é uma troca total
O relatório destaca que não recomenda abandonar completamente os títulos do Tesouro Direto.
A estratégia sugerida é uma realização parcial dos lucros acumulados e uma migração gradual para o crédito privado, preservando parte da exposição ao risco soberano para capturar a continuidade da queda dos juros.
"Não sugerimos uma saída integral do risco soberano, nem uma entrada concentrada em crédito", afirmam os analistas.
A recomendação é manter diversificação entre títulos públicos e isentos, priorizando emissores com fundamentos sólidos e distribuindo os investimentos entre diferentes setores e vencimentos.
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