A eleição já mudou a forma de investir? Gestora de fortunas aumenta aposta em Tesouro IPCA+, prefixados e ações
Carta de outubro mostra como a TAG Investimentos está transformando o novo cenário político em apostas concretas de investimento

Ninguém sabe ainda quem será o próximo presidente da República, mas alguns modelos probabilísticos ajudam a ter alguma ideia antes da votação final em 25 de outubro. E foi com base nessa mudança de probabilidades que a TAG Investimentos ajustou a carteira para refletir o rali que os ativos financeiros podem experimentar nos próximos meses.
Em carta mensal de outubro, a gestora de multi familly office com R$ 18 bilhões sob gestão, afirma que o cenário eleitoral — em que Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente do atual mandatário — aumentou as chances de o Brasil adotar uma política econômica mais favorável às expectativas do mercado.
Com isso, a casa decidiu reforçar posições em ativos financeiros que se favorecem de um ambiente de queda dos juros e alívio nos prêmios de risco. Na prática, a gestora está posicionada em títulos indexados à inflação (IPCA+), papéis prefixados e ações brasileiras.
A gestora pondera, entretanto, que a eleição ainda não mudou os fundamentos da economia. O que mudou foram as chances de o país passar pelas reformas que os agentes financeiros esperam.
“Com Lula, a probabilidade de o país entrar nos trilhos de uma política econômica funcional era bem baixa, algo perto de zero. Com o resultado das urnas, e com a confirmação de Flávio, a probabilidade de o Brasil adotar um caminho econômico saudável aumenta bem, digamos que perto dos 60%”, diz a carta.
O mercado está comprando uma promessa ou uma realidade?
O argumento central da TAG não está apenas no próximo presidente a ocupar o Palácio do Planalto, mas nos parlamentares que estarão no Congresso.
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Segundo a casa, o maior rearranjo político observado nas urnas foi a perda de espaço do ‘centrão’ para partidos de direita, especialmente no Senado.
Embora o ‘centrão’ continue sendo a principal força do Legislativo, a avaliação é que o próximo governo poderá encontrar um ambiente mais favorável para pautas consideradas positivas pelo mercado. A carta destaca três prioridades:
- arrumar o fiscal (a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, a maior desde março de 2021);
- cortar impostos sem abrir um buraco no orçamento e, com isso, dar ao Banco Central espaço para cortes agressivos de juros; e
- reformar o Judiciário: 76% dos brasileiros acham que os ministros do STF têm poderes excessivos (Datafolha, setembro) e 53% apoiam mandato fixo (Quaest).
Mas a própria gestora aponta os vácuos que existem nessa expectativa.
A primeira é que favoritismo eleitoral não é programa de governo. A TAG afirma que “Flávio tem que provar ao mercado que o seu fiscalismo não é da boca para fora”.
O que leva ao segundo ponto. Caso Flávio vença o pleito eleitoral e desperdice capital político em temas como anistia ou disputas institucionais, deixando a agenda econômica em segundo plano, o mercado pode reagir negativamente.
“Quem desperdiçar os primeiros seis meses vai governar os outros 42 com a rua contra. Em se confirmando no segundo turno, os pontos a serem observados são a formação do novo governo e a ordem de prioridades no começo do mandato”, diz o texto.
A escolha de investimentos
A consequência prática do primeiro turno foi uma mudança na alocação da carteira da gestora.
Entre as principais apostas da TAG estão os títulos do Tesouro IPCA+ de vencimentos mais longos.
A tese é que uma melhora na percepção sobre a economia brasileira pode fazer as taxas desses papéis caírem nos próximos meses. E, no mercado de renda fixa, quando as taxas caem, o preço dos títulos sobe, levando a uma valorização da carteira.
Para o investidor, isso significa a possibilidade de obter ganhos acima da remuneração contratada caso venda o papel antes do vencimento. Foi exatamente esse o movimento dos títulos públicos na segunda-feira (5), após o primeiro turno.
O movimento também alcança os títulos prefixados.
Segundo a carta, a combinação de atividade econômica mais fraca, crise de crédito e eventual compromisso fiscal do próximo governo poderia abrir espaço para cortes mais intensos da Selic nos próximos anos.
Nesse cenário, os prefixados tendem a se beneficiar porque travam hoje uma taxa de remuneração elevada. E a janela é curta. No rali de segunda-feira (5), os prefixados já perderam o nível de 14% de taxa anual para 12%.
E a tendência é o mercado seguir diminuindo as expectativas para os juros futuros e, por consequência, a taxa desses papéis.
A terceira aposta é a bolsa brasileira.
Na avaliação da TAG, uma combinação de juros menores, redução dos prêmios de risco e melhora das expectativas econômicas tende a favorecer as ações domésticas. Por isso, a gestora também está aumentando a exposição às ações brasileiras.
Mas nem todos os ativos saíram ganhando na nova leitura eleitoral, na visão da gestora.
A classe de que a TAG menos gosta neste momento é o dólar frente ao real.
A avaliação é que, embora a moeda norte-americana ainda possa se valorizar, outras teses oferecem uma relação entre risco e retorno mais atraente no cenário de vitória do Flávio.
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