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ESTRATÉGIA DO GESTOR

Paradoxo da Selic: corte nos juros tende a diminuir risco de calote na renda fixa, mas Sparta alerta para outro risco no horizonte

Ciclo de queda da taxa básica de juros tende a aumentar a volatilidade no mercado secundário de crédito privado e lembrar ao investidor que renda fixa não é proxy de CDI

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Ulisses Nehmi, sócio e CEO da Sparta - Imagem: Divulgação

O crédito privado foi a joia da coroa da renda fixa nos últimos dois anos. O volume de emissões e captações das debêntures tradicionais e incentivadas (isentas de imposto de renda) foi recorde em 2024 e 2025. Grande parte da demanda veio dos fundos de crédito, que, por sua vez, eram demandados por investidores.

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Esse cenário foi resultado da alta taxa de juros, que permitiu um carrego (rendimento diário ao manter títulos pós-fixados na carteira) excepcional nos fundos de crédito. Ao mesmo tempo, o risco de calote também era alto, dado o tamanho do endividamento das empresas para conseguir pagar os juros cobrados pelo mercado.

Diante da possibilidade de início do ciclo de corte da taxa Selic, a Sparta vê algum alívio para as empresas. Mas existe uma contrapartida.

“À medida que o risco de crédito [calote] diminui, o risco relevante pode deixar de ser o crédito e passar a ser o spread”, diz a carta mensal de fevereiro da gestora.

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Os spreads são a diferença entre as taxas dos títulos privados em relação aos títulos públicos correspondentes, que remunera o risco de crédito do emissor. Essas taxas estão em níveis mínimos para as debêntures tradicionais e incentivadas há meses, devido à alta procura.

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Dada essa compressão e a expectativa de juros menores no horizonte, a Sparta acredita que a tendência futura é de abertura das taxas, que pode causar problemas como desvalorização de preço nos títulos e retornos menores nos fundos de crédito.

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Isso porque taxa e preço em títulos de renda fixa têm correlação negativa: quando um cai, o outro aumenta. Em fundos de crédito, isso significa rentabilidade negativa.

Volatilidade na renda fixa

Os fundos de crédito registraram R$ 3 bilhões em resgates líquidos no mês de fevereiro. Segundo a Sparta, trata-se de um volume pequeno em termos absolutos, mas indica uma mudança de direção.

Nos dois últimos anos, em mais da metade dos meses, a captação líquida superou R$ 20 bilhões.

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A saída sutil dos investidores está relacionada à expectativa pela queda da taxa Selic. Com juros menores, o carrego deixa de ser excepcional e o investidor começa a olhar para outra classe de ativos.

“O crédito perde a condição de porto seguro automático”, diz o relatório da Sparta.

Menor demanda implica em aumento nas taxas das debêntures e outros títulos de crédito privado da renda fixa. Momentos de aumento de taxa são bons para os gestores comprarem mais títulos (visto que o preço cai).

Esse vai-e-vem é sinônimo de volatilidade, tornando mais recorrente a alternância entre meses de performance, que pode ser muito boa e muito ruim em relação ao benchmark — o CDI (juros).

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Para a Sparta, em momentos como esse fica claro que crédito privado não é uma proxy do CDI. Embora seja renda fixa, a negociação de debêntures, tradicionais ou incentivadas, tem uma dinâmica própria.

“Temos visto oscilações frequentes e relevantes, com aberturas e fechamentos rápidos que levaram, neste mês [fevereiro], a um retorno médio próximo de 50% do CDI nos fundos pós-fixados do mercado”, diz a carta.

O que esperar do crédito privado

Essa dinâmica contrasta com o histórico recente dos fundos de crédito, marcado por retornos consistentemente acima do CDI.

A questão é que essa volatilidade toda de abertura e fechamento de spreads deve gerar desconforto nos investidores e aumentar o movimento de saída que, até agora, foi sutil.

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“Em um mercado mais técnico, o retorno deixa de ser apenas carrego e passa a incorporar volatilidade de spread”, diz a Sparta. Mas emenda: “é justamente nesse tipo de ambiente que enxergamos as melhores janelas de alocação.”

A gestora acredita que um movimento mais intenso de resgate é risco principalmente para o investidor, que pode registrar prejuízo por sair dos ativos em um momento de baixa. No entanto, para o gestor, é a oportunidade de entrar em um ativo com preço mais favorável.

Embora seja um ciclo “assustador” para o investidor, as perspectivas são positivas.

Há o potencial de correção dos spreads que estão nas mínimas, o que implica em uma precificação de taxas mais condizentes com o risco do emissor — não com a onda compressora da demanda.

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Além disso, para o profissional que sabe navegar a volatilidade dos spreads, o potencial de alocação e retorno também é alto — desde que o investidor tenha clareza que não se trata de um Tesouro Selic, que acompanha o CDI, mas de crédito privado, com negociação e precificação diária dos títulos.

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