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Após uma das maiores correções recentes do ouro, banco recomenda compra de mineradoras latino-americanas que acumulam quedas de até 39%

O ouro não está comportando como ouro em 2026. Depois de bater o recorde histórico de US$ 5.595 por onça no final de janeiro, o metal entrou em queda livre e recuou cerca de 25% até as mínimas de início de junho. Para muitos investidores acostumados com a narrativa do porto seguro, é uma surpresa. Para o BTG Pactual, é uma oportunidade.
Segundo o time de análise de metais e mineração do banco, essa é uma correção técnica e temporária.
O movimento, segundo o BTG, abre caminho para as ações de mineradoras de ouro na América Latina, que oferecem agora uma das melhores relações risco-retorno dos últimos anos.
O grande vilão para a queda do ouro no primeiro semestre deste ano foi o mercado de trabalho norte-americano mais forte do que o esperado.
O payroll, principal relatório de emprego dos Estados Unidos, divulgado no último dia 5 de junho veio bem acima do consenso e derrubou as apostas em cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), provocando o maior tombo diário do ouro em mais de três meses.
Naquele dia, o ouro para agosto encerrou em queda de 3,1%, a US$ 4.365,3 por onça-troy, perdendo 5% na semana. A prata para julho recuou 6,6%, a US$ 69,103 por onça-troy, e teve queda de 9% na semana.
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Além disso, a inflação norte-americana continua teimosa. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) chegou a 4,2% ao ano em maio — maior leitura desde abril de 2023.
O núcleo do índice de preços para gastos pessoais (PCE, na sigla em inglês), a medida preferida do Fed para avaliar inflação, estava em 3,3% ao ano em abril, bem acima da meta de 2%.
O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) subiu 6,5% em maio, alimentando preocupações de que o choque de energia no Oriente Médio vai atrasar o início do ciclo de cortes de juros.
Juro alto é, historicamente, um obstáculo para o ouro: o metal não paga dividendos nem juros, então fica menos atrativo quando os yields (rendimentos) dos títulos norte-americanos sobem.
O BTG resume bem essa equação ao afirmar que “expectativas mais baixas de juros são o elo que falta para o ouro voltar a se valorizar e atrair fluxos de ETFs [fundos de ações negociados em bolsa]”.
Houve ainda um componente técnico que amplificou a queda, segundo os analistas: fundos de estratégias quantitativas e de momentum entraram na correção com posições compradas elevadas no metal, acumuladas durante o forte rali do início do ano.
Quando o movimento reverteu, a liquidação dessas posições acelerou a queda.
Apesar do tombo, o BTG mantém uma visão estruturalmente positiva para o ouro.
A tese central do banco é que o metal passou por uma “financialização” crescente: a demanda por investimento já responde por cerca de dois terços do mercado global, ante parcelas muito menores há alguns anos.
Joias, que historicamente dominavam a demanda, perderam espaço.
Isso explica por que o ouro passou a se comportar, em certos momentos, mais como um ativo de risco do que como o tradicional porto seguro — gerando as correlações e a volatilidade incomuns observadas nos últimos meses.
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Mas há compradores que não se importam com essas oscilações de curto prazo: os bancos centrais.
No primeiro trimestre de 2026, as compras líquidas dos BCs somaram 244 toneladas, bem acima da média dos últimos 15 anos, que é de 157 toneladas por trimestre.
A China completou o 18º mês consecutivo de compras de ouro, acelerando as aquisições justamente em março e abril — quando os preços caíam. A Polônia também seguiu comprando de forma agressiva.
O BTG destaca que a tese de desvalorização das reservas em dólares — reforçada após o congelamento de cerca de US$ 300 bilhões em reservas russas mantidas em títulos americanos em 2022, por ocasião da guerra na Ucrânia — “continua muito viva”.
Bancos centrais de países emergentes ainda têm alocações em ouro muito abaixo da média global de 28%, o que sustenta uma demanda estrutural por anos.
A projeção de preços do BTG para o ouro é de US$ 5.000 por onça em 2026 e US$ 4.900 em 2027.
Se o diagnóstico é que o ouro vai se recuperar, a forma preferida do BTG de se expor a esse cenário não é comprar o metal diretamente, mas sim ações de mineradoras latino-americanas que caíram com força e agora negociam com valuations atrativos.
O banco recomenda compra de três papéis: Aura Minerals (AUGO; AURA33), Buenaventura (BVN) e Aris Mining (ARIS).
Aura Minerals acumulou queda de cerca de 39% em relação às máximas recentes. Mesmo assim, o BTG mantém a recomendação de compra, destacando a execução operacional consistente da empresa.
Com as ações negociando a 0,6x o preço sobre valor líquido do ativo (P/NAV), 4,5x o valor da firma sobre o Ebitda (EV/Ebitda) para 2026 e um retorno de fluxo de caixa livre de 4% (ou 9% excluindo o crescimento), o banco avalia que o risco-retorno está “mais atraente”.
O preço-alvo do BTG para a Aura Minerals é de US$ 122, ante os US$ 66 atuais.
A Buenaventura, mineradora peruana listada em Nova York, também aparece como oportunidade para o banco. A ação recuou 21% das máximas.
O BTG ressalta que a empresa está bem-posicionada para capturar preços mais altos de ouro e prata, e que a entrada em operação da mina de ouro San Gabriel deve elevar a produção para cerca de 50 mil onças anuais até o fim de 2026, com potencial de saltar para mais de 120 mil onças em 2027.
A empresa também tem uma participação de 19,58% na Cerro Verde, uma das maiores produtoras de cobre do Peru, o que garante uma receita adicional mais estável.
O preço-alvo do BTG para a Buenaventura é de US$ 30 por ação.
A Aris Mining, por sua vez, é a aposta mais agressiva do banco. Com queda de 23% desde as máximas, as ações negociam a apenas 0,4x P/NAV — um desconto de 40% em relação à média das mineradoras latino-americanas, que é de 0,75x.
O BTG argumenta que esse desconto não se justifica mesmo usando premissas conservadoras para os projetos de crescimento da empresa.
O preço-alvo de US$ 37 implica um potencial de valorização de 113% em relação ao preço atual de US$ 17.
Para o investidor pessoa física no Brasil, a forma mais prática de acessar essas teses é por meio de BDRs (Brazilian Depositary Receipts) negociados na B3 ou de fundos de ouro que investem nas ações dessas mineradoras ou no próprio metal.
Vale lembrar que o ouro também ganhou novos instrumentos de acesso no Brasil nos últimos anos, incluindo ETFs como o GOLB11 e fundos multimercado com exposição ao setor.
O acompanhamento do dólar é um fator adicional para o investidor local: como o ouro é cotado na moeda norte-americana, uma eventual valorização do real pode reduzir os ganhos em reais — ou amplificá-los em caso de desvalorização da moeda brasileira.
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