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USO CONTÍNUO

Por que a pecuária recorre a antibióticos para engordar animais — e o que isso tem a ver com o veto da UE à carne brasileira

A prática, usada há décadas para acelerar o ganho de peso, é o motivo pelo qual o Brasil vai deixar de exportar carne ao bloco europeu a partir de setembro

Bandeiras da União Europeia e do Brasil com pedaços de carne representando o veto à carne brasileira
Proibição à carne brasileira por uso de antibióticos não tem relação com acordo entre União Europeia e Mercosul. Imagem: Montagem/Canva Pro

A partir de 3 de setembro, o Brasil não poderá mais vender carne bovina, frango, mel e outros produtos de origem animal à União Europeia (UE). A decisão do bloco tem uma justificativa específica: o uso de antibióticos na pecuária brasileira.

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O bloco restringe a entrada de produtos de origem animal obtidos de sistemas que utilizam antibióticos como promotores de crescimento. Não se trata de uma cláusula do acordo comercial fechado recentemente com o Mercosul. A regra vale desde 2019 e se estende a qualquer país exportador.

O argumento é que o uso contínuo, em doses baixas, para acelerar o ganho de peso dos animais — diferente do tratamento pontual de um animal doente, que a regra não restringe — favorece o surgimento e a seleção de bactérias resistentes aos antibióticos.

Carne não é o único caminho

O problema é que essas bactérias podem alcançar o ser humano por diferentes caminhos. Mas o que diz a ciência sobre essa explicação?

Embora a carne possa transmitir bactérias resistentes, como a Salmonella, pesquisadores consideram que essa não é a principal via de disseminação.

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Entre 75% e 90% dos antibióticos administrados na pecuária são eliminados pelos animais sem serem metabolizados.

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Excretados na urina e nas fezes, eles chegam ao solo e à água, onde podem favorecer a seleção de bactérias resistentes no ambiente.

Há ainda uma terceira via, menos frequente: pessoas que trabalham em contato direto com os animais, como veterinários e trabalhadores rurais, podem ser contaminadas por bactérias resistentes mesmo sem consumir a carne.

Resistência aos antibióticos

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência aos antibióticos cresceu mais de 40% entre 2018 e 2023, com aumento médio anual entre 5% e 15%.

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O diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou o avanço da resistência antimicrobiana como uma ameaça crescente à medicina moderna e à saúde pública.

A pecuária não é a única responsável pelo problema. O uso excessivo de antibióticos em humanos também exerce pressão para o surgimento de bactérias resistentes.

Por isso, a OMS trata os dois setores como centrais nas estratégias para conter o avanço da resistência antimicrobiana.

Eliminar o uso de antibióticos como promotores de crescimento tem custo para quem produz.

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Um meta-estudo (uma pesquisa sobre um conjunto de pesquisas), publicado em 2025 pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), analisou dezenas de pesquisas sobre frangos, suínos e bovinos para medir o efeito desses medicamentos sobre a produtividade.

Animais que receberam antibióticos ganharam peso mais rapidamente — 1,78 grama por dia a mais em frangos, 28,15 gramas em suínos e cerca de 30 gramas em bovinos — e apresentaram melhor aproveitamento da ração, tanto em frangos quanto em suínos.

Uso contínuo de antibióticos é o que preocupa

Ao mesmo tempo em que os antibióticos aumentam a produção, é o uso contínuo que preocupa autoridades sanitárias por favorecer a seleção de bactérias resistentes.

Diante desse risco, a União Europeia exige que os exportadores comprovem, por meio de sistemas auditáveis, que os animais não receberam antibióticos como promotores de crescimento.

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No Brasil, porém, a verificação ainda é baseada em autodeclarações, sem auditoria independente, modelo que a UE considera insuficiente.

O país proibiu o uso de antibióticos promotores de crescimento, como avoparcina, bacitracina e virginiamicina, em abril de 2026. A União Europeia havia adotado a mesma medida vinte anos antes.

Corrida contra o tempo

Um parecer interno do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), de março deste ano, já apontava que o sistema de fiscalização brasileiro era insuficiente para atender às exigências europeias — antes mesmo de a UE votar, em 12 de maio, a exclusão do Brasil da lista de exportadores habilitados.

Depois de confirmada a exclusão, o Mapa publicou, em 3 de julho, um ofício determinando que frigoríficos habilitados para exportação implantem mecanismos de controle considerados auditáveis.

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Até o momento, não há confirmação pública de que esse sistema estará plenamente operacional antes de 3 de setembro — data em que o Brasil, salvo reversão, deixa de poder vender carne, frango e demais produtos animais ao terceiro maior comprador do mundo.

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