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Apesar das incertezas com relação à evolução do conflito no Oriente Médio e à consequente sombra sobre a trajetória da inflação e dos juros no mundo, os investidores têm um caminho claro a seguir
O mercado até tentou respirar, mas o oxigênio é escasso. Embora o anúncio de um cessar-fogo entre EUA e Irã tenha retirado o gatilho imediato do pânico, o acordo tem a espessura de uma folha de papel. Menos de 24 horas após a trégua, o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz teria sido interrompido na esteira dos ataques de Israel ao Líbano.
E mesmo que os canhões tenham silenciado hoje em conformidade com o combinado entre Washington e Teerã, a cicatriz econômica está exposta: cadeias de suprimentos rompidas, um petróleo que recusa a estabilidade e o fantasma de uma inflação global que mantém os juros em patamares restritivos por muito mais tempo do que o investidor gostaria.
Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, diz que as duas semanas de cessar-fogo abrem espaço para alguma normalização da situação, mas não significam o final do conflito ou a ausência da escalada retórica e de tensões.
“Isso não vai acabar aqui. Podemos ter novos episódios dessa guerra. E um outro ponto a ser observado é o legado desse conflito, uma ‘sujeira’ que teremos que limpar nos próximos meses, a exemplo da herança inflacionária e do prêmio de risco geopolítico. Isso tudo veio para ficar, é uma nova realidade, de um mundo mais fragmentado”, afirma.
A principal pressão da guerra veio do petróleo, que flertou com os US$ 120 o barril em um dos maiores choques de preços da commodity da história. No centro do conflito entre os EUA e Israel com o Irã está o Estreito de Ormuz — um ponto de estrangulamento por onde passa cerca de um quinto da produção global de petróleo.
“A direção futura dos preços e, consequentemente da inflação, dependerá da transformação das negociações de cessar-fogo em um acordo duradouro, e em uma normalização sustentada dos fluxos pelo estreito, com a volatilidade persistindo durante as conversas”, disse Ewa Manthey, estrategista em commodities do ING Group.
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Mais cedo, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o cessar-fogo em vigor não representa o fim da campanha militar e que o país ainda pretende atingir novos objetivos, inclusive com a possibilidade de retomada dos combates.
"O cessar-fogo não é o fim, mas uma etapa no caminho para alcançar todos os nossos objetivos", disse ele, lembrando que o acordo de cessar-fogo não inclui o Hezbollah, sinalizando a continuidade dos ataques no Líbano.
As declarações ocorrem em meio à escalada de tensões no Oriente Médio, após autoridades iranianas acusarem Israel de violar a trégua e prometerem resposta, enquanto a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) fala em resposta pesada a ataques no Líbano.
Ainda que a diplomacia tenha ganhado uma batalha, a economia global continua perdendo a guerra contra os preços.
A fragilidade do acordo entre EUA e Irã mantém o prêmio de risco elevado e a logística global sob estresse. Para os bancos centrais, significa enfrentar a resiliência da inflação e a necessidade de manter os juros altos para conter danos colaterais.
“EUA e Irã anunciaram um cessar-fogo temporário, mas as incertezas persistem no Oriente Médio. Os preços do petróleo ainda sobem cerca de 50% no ano, pressionando a inflação ao redor do mundo. As taxas de juros provavelmente serão mais altas do que as projetadas anteriormente”, disse o time da XP liderado pelo economista-chefe, Caio Megale.
A corretora revisou nesta quarta-feira (8) a projeção para a cotação do petróleo Brent — usado como referência internacional, inclusive pela Petrobras (PETR4) — de US$ 60 para US$ 90 o barril para 2026 e US$ 80 para 2027.
Hoje, tanto o WTI — usado como referência pelos EUA — como o Brent operaram abaixo de US$ 100 o barril, com quedas de mais de dois dígitos.
“É improvável que os mercados de petróleo retornem à tendência pré-guerra de excesso de oferta e queda nos preços, mesmo que o Estreito de Ormuz siga reaberto”, afirma o time da XP.
No início da tarde, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, negou a reportagem da agência estatal iraniana Fars indicando que o tráfego de petroleiros por Ormuz havia sido interrompido após os ataques israelenses ao Líbano.
“Vimos um aumento do tráfego no estreito hoje, e reiterarei a expectativa e exigência do presidente [Donald] Trump de que o Estreito de Ormuz seja reaberto imediatamente e com segurança”, afirmou.
Segundo especialistas e profissionais do setor, o tráfego de petroleiros por Ormuz não aumentou além do fluxo lento que a passagem vinha experimentando durante a guerra.
Spiess, da Empiricus, lembra ainda que o Irã pretende colocar um pedágio sobre a passagem por Ormuz, "consolidando seu domínio sobre o estreito, que é fundamental para o mundo".
"Podemos estar assistindo a um novo equilíbrio de forças no Oriente Médio e, consequentemente, para as cadeias de produção em nível internacional”, afirma.
A frágil trégua entre EUA e Irã não afastou as incertezas para a economia global e, consequentemente, para a política monetária.
Um estudo recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que cada 10% de alta nos preços da energia adiciona cerca de 0,5 ponto percentual (pp) à inflação global.
Com um choque de 40% a 70%, estamos falando de 2 a 3,5 pp adicionais de inflação no mundo — o suficiente para paralisar os ciclos de corte de juros do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e do Banco Central Europeu (BCE).
Segundo Luiza Paparounis e Francisco Lopes, analistas do BTG Pactual, mesmo antes do choque de energia, já havia um espaço limitado para cortes adicionais de juros nos EUA. Eles, no entanto, descartam a retomada do aperto monetário por conta dos efeitos da guerra.
“Com a incorporação do choque energético, vemos poucos fundamentos para cortes de juros nos EUA ao longo de 2026. Ainda assim, não enxergamos, neste momento, espaço para discussão de alta de juros, especialmente se considerarmos o potencial impacto do aperto das condições financeiras no crescimento econômico”, afirmam.
A ata da reunião de março do Fed, divulgada nesta quarta-feira (8), mostrou que os membros do comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês) ainda esperavam reduzir os juros este ano, mesmo com um alto nível de incerteza devido à guerra no Irã e às tarifas.
Na zona do euro, a situação é mais delicada devido à elevada dependência de petróleo e gás importados. O BCE enfrenta o risco de uma transmissão rápida dos custos energéticos para os salários e para o setor de serviços, o que, segundo o BTG, torna a discussão sobre novas altas de juros um cenário fundamentado e dependente da evolução do conflito.
Já na China, o impacto direto tende a ser mais moderado, segundo o BTG, já que o país mantém acesso ao petróleo iraniano e possui uma matriz energética diversificada, o que garante maior proteção ao choque. O Seu Dinheiro fez uma matéria especial sobre o assunto e você pode conferir aqui os detalhes.
Com ou sem trégua, o Brasil é um caso único nesse conflito: ao mesmo tempo exportador de petróleo — um potencial benefício — e altamente vulnerável a fertilizantes e intervenção política — um risco real e imediato.
O Brasil é o 7º maior produtor mundial de petróleo, e a Petrobras captura diretamente o upside de preços maiores. Em tese, um Brent a US$ 120 deveria ser ótimo para o balanço da empresa e para as receitas de royalties do governo.
O problema é que, com o Brent acima de US$ 100, o governo passou a subsidiar o diesel abaixo do preço de paridade internacional, discutir a reestatização da Refinaria de Mataripe e um conjunto de medidas provisórias (MPs) que sinalizam retorno à política intervencionista de preços.
O ponto mais preocupante para o Brasil, no entanto, é outro: fertilizantes. O País é o maior importador mundial de fertilizantes, dependendo de importações para 80% do consumo, com quase metade dessa importação transitando pelo Estreito de Ormuz.
“Uma crise prolongada pode elevar os custos dos insumos agrícolas em 30% a 50%, ameaçando a lucratividade do agronegócio, o motor da economia brasileira, e pressionando o IPCA [índice de preços ao consumidor amplo] pela via de alimentos”, diz a TAG Investimentos na carta de abril, divulgada nesta quarta-feira (8).
No câmbio, o real enfrenta pressão dupla: de um lado, commodities altas — favoráveis ao exportador; de outro, aversão ao risco global e incerteza nos emergentes — favorável ao dólar.
“Para a política monetária, o Banco Central havia iniciado um ciclo de corte da Selic, mas a inflação importada via energia e fertilizantes pode forçar uma pausa precoce ou até uma reversão do ciclo. Os juros altos por mais tempo que os países desenvolvidos temiam agora também rondam o Brasil”, diz a TAG.
Neste contexto, a XP elevou a projeção para o IPCA de 2026, de 3,8% para 4,8%, refletindo os efeitos diretos e indiretos (principalmente via alimentos) do aumento do custo de combustíveis e energia.
Para 2027, a corretora manteve a projeção em 4,0%, uma vez que incorporou uma resposta de política monetária — menos cortes de juros neste ano — e uma taxa de câmbio mais valorizada.
“O choque de oferta em uma economia aquecida, com expectativas de inflação acima da meta, requer uma resposta da política monetária”, diz o time da XP.
Com relação à Selic, a corretora aumentou a projeção ao final de 2026, de 12,75% para 13,50%.
“Acreditamos que o Copom reduzirá os juros básicos em mais 0,25 p.p. em abril e 0,50 p.p. em junho e agosto, seguido de uma pausa para avaliação. Consideramos haver espaço para que a Selic se aproxime do nível neutro em 2027, condicionada à implementação de reformas fiscais no próximo mandato presidencial”, afirma.
Ainda que o cessar-fogo entre EUA e Irã seja frágil e que a economia global ainda vá lutar contra as “sujeiras” da guerra por algum tempo, o investidor tem saída.
Para Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, a inflação mais alta, impulsionada por energia, exige uma abordagem mais disciplinada e seletiva por parte dos investidores.
“Nesse contexto, os ETFs ganham relevância como instrumento de alocação, por oferecerem diversificação imediata, liquidez e eficiência de custo em momentos de maior incerteza. Eles permitem exposição a setores beneficiados pelo ciclo, como energia e commodities, ao mesmo tempo em que facilitam estratégias mais defensivas e globais, reduzindo riscos específicos e ajustando rapidamente o portfólio diante de mudanças no cenário macroeconômico”, afirma.
O Seu Dinheiro fez uma matéria especial sobre como o investidor pode capturar ganhos com o setor de segurança e defesa via ETFs e você pode conferir a tese de investimentos aqui.
Gabriel Padula, CEO do Grupo Everblue, chama atenção para os multimercados. Segundo ele, a crise com o Irã reforçou que os fundos que melhor performam em momentos de estresse são os que têm gestão ativa e proteção em ativos como dólar, juros e commodities.
“A alta do petróleo e a aversão global ao risco criaram um ambiente em que posições bem calibradas em câmbio e energia funcionaram como proteção natural, compensando perdas em bolsa e ativos de maior beta. Esses fundos conseguiram amortecer perdas e, em alguns casos, manter ganhos no ano, enquanto estratégias mais expostas à renda variável sofreram mais”, afirmou.
Segundo ele, como a volatilidade deve continuar, com impactos sobre inflação e juros, o investidor deve ser ainda mais seletivo.
“Nesse cenário, o crédito estruturado ganha espaço. Fundos como FIDCs, por estarem ligados à economia real e gerarem fluxo previsível, tendem a oferecer maior estabilidade e menor correlação com choques externos”, disse Padula.
“Para o investidor, a combinação entre multimercados bem geridos e crédito estruturado aparece como uma estratégia mais equilibrada em um ambiente ainda incerto”, acrescenta.
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