XP sente o peso dos spreads, e ações caem mesmo após ‘efeito Master’ no balanço no 1T26. É hora de pular fora?
Captação mais fraca, pressão em renda fixa e balanço abaixo do esperado pressionam ações em Wall Street; apesar da queda, analistas ainda veem valor na tese

O mercado não comprou o balanço da XP no primeiro trimestre de 2026 (1T26). As ações da companhia encerraram em queda em Wall Street nesta terça-feira (19), após um resultado que evidenciou o peso da abertura dos spreads de crédito sobre as operações da corretora e trouxe sinais de desaceleração em áreas do negócio.
Nem mesmo o chamado “efeito Master” — que levou bilhões em recursos extraordinários para dentro da plataforma — foi suficiente para evitar a reação negativa. Os papéis encerraram a sessão em baixa de 3,86% em Nova York, cotados a US$ 16,67.
Para analistas, o trimestre reforçou a percepção de que a XP segue altamente dependente da retomada do mercado de capitais e da normalização dos spreads de crédito para recuperar tração mais consistente nos resultados.
Do lado do balanço, a XP encerrou o trimestre com lucro líquido ajustado de R$ 1,318 bilhão, alta de 7% em relação ao mesmo período do ano passado, mas recuo de 1% frente ao quarto trimestre de 2025.
Já a receita bruta atingiu R$ 4,919 bilhões no período, avanço anual de 8%, porém com queda de 2% na comparação trimestral.
O segmento de varejo — principal motor da companhia — gerou R$ 3,773 bilhões em receitas, crescimento de 10% em 12 meses, mas retração de 2% frente ao trimestre imediatamente anterior.
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Enquanto isso, o banco de atacado somou R$ 1,146 bilhão em faturamento, alta de 26% na base anual, mas queda de 8% em relação ao 4T25.
"Efeito Master” ajudou a XP no 1T26 — mas não resolveu tudo
Um dos pontos que atenção no trimestre foi a captura de recursos ligados à crise do Banco Master. A XP recebeu cerca de R$ 19 bilhões em recursos extraordinários provenientes do reembolso de investidores após as garantias pagas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Dos aproximadamente R$ 25 bilhões devolvidos aos clientes da plataforma, a companhia conseguiu reter 77%.
O movimento ajudou a impulsionar a captação líquida de varejo para R$ 38 bilhões no trimestre.
Ainda assim, para o BTG Pactual, a fotografia estrutural da captação continua pouco robusta.
Segundo os analistas, a captação líquida total (NNM) veio abaixo do esperado, em R$ 14 bilhões. Excluindo os fluxos relacionados ao caso Master, as entradas líquidas recorrentes do varejo somaram R$ 19 bilhões, queda de 5% na comparação trimestral, de acordo com o BTG.
Na prática, a leitura é que a XP conseguiu aproveitar um evento extraordinário de mercado, mas isso não elimina os sinais de desaceleração orgânica do negócio.
Abertura dos spreads de crédito como o principal vilão do trimestre
Segundo analistas, o maior peso sobre os números da XP no 1T26 veio da turbulência no mercado de crédito em março.
A abertura dos spreads pressionou as posições de crédito mantidas em carteira pela XP e atingiu especialmente as receitas de renda fixa — justamente uma das áreas mais relevantes para a companhia nos últimos anos.
Para o Banco Safra, o resultado foi “fraco no core”. Na visão do banco, a recuperação mais consistente deve ficar concentrada na segunda metade do ano, conforme os spreads se normalizem e a atividade volte a ganhar tração.
A própria XP admitiu que os spreads continuaram pressionados no começo do segundo trimestre, embora em intensidade menor do que em março. Segundo a companhia, o movimento já parece ter se estabilizado.
A empresa também afirmou que não espera impactos relevantes adicionais de marcação a mercado nos próximos trimestres e manteve a projeção de crescimento de receita em dois dígitos em 2026.
Ainda assim, para o Safra, o trimestre pode funcionar como um gatilho levemente negativo para revisões de lucro.
Mercado ainda vê cenário apertado para a XP
Na avaliação do Bradesco BBI, o resultado veio “neutro a levemente negativo”, refletindo um ambiente ainda apertado no curto prazo.
“Apesar da resiliência das receitas — especialmente em renda variável e varejo —, a pressão observada na renda fixa, decorrente da abertura de spreads, deve continuar afetando o desempenho no segundo trimestre de 2026, ainda que com menor intensidade”, dizem os analistas.
O banco também chama atenção para a desaceleração relevante da captação líquida, especialmente no segmento corporate, o que reduz a visibilidade sobre crescimento de ativos e receitas recorrentes.
Além disso, o BBI vê compressão de margens em um ambiente mais competitivo e de maior custo operacional.
Mesmo assim, os analistas avaliam que a XP continua sustentada por fundamentos considerados fortes: diversificação de receitas, elevada geração de caixa, capitalização robusta e política consistente de retorno ao acionista.
Mudança no CFO adiciona novo capítulo ao trimestre
Junto com os resultados do trimestre, a XP também comunicou uma dança das cadeiras em sua diretoria.
O atual diretor financeiro (CFO), Victor Mansur, deixará o cargo, embora siga ligado à companhia como sócio, apoiando a transição e futuras frentes estratégicas.
Para assumir seu lugar, a empresa contratou Gustavo Alejo, ex-diretor financeiro do Santander Brasil (SANB11), que assume a função a partir de agosto de 2026.
Para o Safra, a troca pode ser positiva no médio prazo, principalmente para fortalecer a expansão das operações de atacado e crédito da companhia.
O BTG também avalia que “o movimento faz sentido estratégico, especialmente à medida que a XP navega um cenário macro mais complexo e continua expandindo suas atividades bancárias e de atacado”.
O que fazer com as ações da XP agora?
Apesar do trimestre mais fraco, os grandes bancos seguem relativamente construtivos com a tese da XP.
O Safra manteve recomendação neutra para os papéis em Wall Street, com preço-alvo de US$ 23 — potencial de valorização de cerca de 33% frente ao fechamento anterior.
Já o Bradesco BBI reiterou recomendação de compra para os BDRs negociados na B3, sob ticker XPBR31, com preço-alvo de R$ 120.
O BTG Pactual também segue otimista, com target de US$ 25 para os papéis negociados em Nova York. Segundo o banco, a XP negocia hoje a cerca de 8,6 vezes os lucros dos últimos 12 meses, um patamar de valuation ainda considerado atrativo.
“Dito isso, o momentum perdeu força na margem, enquanto várias outras instituições financeiras brasileiras também estão negociando a valuations interessantes”, avaliam os analistas.
O BTG também destaca que, como uma tese muito ligada ao mercado de capitais brasileiro, a XP provavelmente precisará de um ambiente macroeconômico e de juros mais favorável para voltar a passar por uma reprecificação mais forte.
Na mesma linha, o JP Morgan classificou o trimestre como “fraco, mas esperado”. Para o banco norte-americano, a XP segue excessivamente dependente do desempenho do mercado de dívida (DCM), que deve continuar pressionado no segundo trimestre.
Ainda assim, os analistas avaliam que, no valuation atual, o papel continua funcionando como “uma opcionalidade barata” para um eventual cenário de melhora do mercado brasileiro, das eleições e da curva de juros.
*Com informações do Money Times.
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