Exclusivo: minoritários da Gafisa (GFSA3) pedem ‘limpa’ no conselho fiscal após colapso das ações na bolsa
Grupo liderado pela L4 Capital articula mudanças na governança da incorporadora para assumir maior influência no comando da empresa

Um grupo de acionistas minoritários decidiu abrir uma ofensiva para mudar a estrutura de governança da Gafisa (GFSA3), após anos de deterioração operacional, aumento da dívida e derrocada de valor na bolsa.
Liderados pela gestora L4 Capital, acionistas que reúnem pouco mais de 8% do capital votante da incorporadora pediram a convocação de uma assembleia geral extraordinária (AGE), segundo apuração do Seu Dinheiro.
O objetivo é promover uma reformulação na governança da companhia e assumir maior influência no comando da Gafisa, incluindo a destituição do atual conselho fiscal e a ampliação do conselho de administração.
Nos bastidores, o movimento é tratado pelos minoritários como uma tentativa de frear o que classificam como anos de destruição de valor, deterioração operacional e aumento excessivo do risco financeiro da empresa.
“A empresa aumentou o risco, teve uma operação muito ruim e não entregou nada. Isso desvalorizou brutalmente o patrimônio dos investidores”, afirmou Hugo Queiroz, sócio da L4 Capital, ao Seu Dinheiro.
Os números ajudam a explicar o tamanho da insatisfação. As ações da Gafisa acumulam queda de quase 80% em 2026 e praticamente evaporaram desde a abertura de capital, com derrocada superior a 99% na B3.
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Em fato relevante divulgado nesta segunda-feira (25), a Gafisa confirmou o recebimento do pedido do grupo de acionistas, que supera o mínimo de 3% necessário para exigir a convocação da assembleia.
O conselho de administração informou que irá analisar o requerimento dentro do prazo legal de oito dias e tomar as medidas cabíveis. A companhia, porém, não detalhou oficialmente os temas que estarão na pauta da AGE.
A guerra dos minoritários contra o atual conselho da Gafisa (GFSA3)
Embora a deterioração operacional venha sendo alvo de críticas há anos, o estopim da ofensiva dos minoritários ocorreu após a última assembleia geral ordinária (AGO), realizada em 11 de maio.
Segundo Hugo Queiroz, os minoritários acreditavam que havia um canal de diálogo aberto com a companhia. Um almoço entre as partes, inclusive, estava marcado para o dia 15 de maio.
Mas, antes disso, o conselho fiscal acabou sendo eleito de forma acelerada no início daquela semana.
“A regra permite, mas foi feito de uma maneira não representativa”, afirmou o gestor.
Agora, os minoritários querem promover uma espécie de 'limpa' na fiscalização da companhia.
O pedido prevê a destituição integral do conselho fiscal recém-eleito e a realização de uma nova eleição para garantir, segundo os acionistas, uma supervisão mais independente sobre os atos da administração.
Além disso, o grupo quer ampliar o conselho de administração de três para cinco cadeiras. A proposta é indicar dois novos nomes alinhados à visão dos minoritários, em uma tentativa de equilibrar o poder dentro da companhia.
Os novos conselheiros seriam eleitos para um mandato unificado até a AGO de 2027.
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A situação financeira da incorporadora
A carta enviada pelos minoritários à Gafisa traça um diagnóstico duro sobre a situação financeira e operacional da incorporadora.
Na avaliação dos investidores, a estratégia desenhada entre 2019 e 2021 — baseada na expansão para o alto padrão e no crescimento da receita recorrente — não entregou os resultados prometidos ao mercado.
“O resultado consolidado desse período foi marcado por prejuízo recorrente, significativa desvalorização das ações e expressiva destruição de valor para o acionista minoritário”, afirmam os investidores no documento.
De lá para cá, a situação financeira na Gafisa se deteriorou. Confira os números apresentados pelos investidores:
- A receita operacional líquida caiu de cerca de R$ 700 milhões para aproximadamente R$ 500 milhões;
- As margens, que deveriam avançar para um intervalo entre 40% e 45% no segmento de alto padrão, permaneceram próximas de 30%; e
- A alavancagem disparou, com a relação entre dívida líquida e patrimônio líquido saltando de 39% para cerca de 83%, chegando perto de 100% em algumas métricas utilizadas pelo mercado.
“A empresa aumentou seu risco, teve uma operação muito ruim e não entregou nada”, resumiu o sócio da L4.
O plano dos minoritários para tentar recuperar a Gafisa
Apesar do cenário delicado, os minoritários afirmam que ainda enxergam valor nos ativos da companhia.
Na visão da L4 Capital, a Gafisa continua dona de uma marca forte, terrenos relevantes e projetos bem posicionados em mercados importantes, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro.
O problema, segundo o grupo de minoritários, estaria menos nos ativos e mais na execução estratégica e na governança.
Os investidores afirmam que a incorporadora “carece de uma estrutura de governança suficientemente robusta e alinhada aos interesses da coletividade dos acionistas”, capaz de impor maior disciplina financeira, revisar estratégias malsucedidas e melhorar a alocação de capital.
Para isso, a L4 pretende replicar na Gafisa uma estratégia semelhante à adotada em outra investida da gestora, a Inepar (INEP4): assumir protagonismo em uma companhia estressada financeiramente, promover mudanças de gestão e focar em recuperação operacional.
A proposta inclui a entrada de dois novos nomes no conselho de administração da Gafisa: Luciano França, que foi responsável pela área de M&A e Relação com Investidores de Projetos na Even (EVEN3), e Carlos Suslik, CEO da L4 Capital.
Mas o plano vai além da simples troca de cadeiras no topo da empresa.
A tese defendida pelos minoritários prevê uma Gafisa mais enxuta, lançando entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões por ano e regiões consideradas mais resilientes economicamente, como o agronegócio do Centro-Oeste e o luxo litorâneo de Santa Catarina.
A estratégia envolve também desinvestimentos pesados. Ativos que não geram caixa imediato seriam vendidos para reduzir o risco financeiro. "Permanecendo do jeito que está ali, dificilmente a empresa consegue sobreviver", afirmou Queiroz.
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