O mercado já escolheu seu cavalo eleitoral? Banco do Brasil (BBAS3) dispara 26% na bolsa, mas a conta não fecha só com as urnas
Ação do BB supera com folga a alta do Ibovespa e de outros bancões, enquanto o balanço ainda mostra sinais de fragilidade; analistas elencam os fatores que podem mudar essa equação

O Banco do Brasil (BBAS3) parece ter decidido não esperar o calendário eleitoral para se mexer. Em um mês, as ações acumulam alta de mais de 26% na B3, mais que o dobro dos cerca de 12% do Ibovespa no mesmo período e da valorização de pares como Itaú e Bradesco.
Acontece que, desta vez, a ação se descolou do balanço. A rentabilidade ainda está na casa de um dígito, a inadimplência do agronegócio continua pesando sobre os resultados e a carteira de pessoa física também começou a dar sinais de deterioração.
Então, o que o mercado está comprando? Para uma parte dos investidores, a resposta passa pelas eleições presidenciais de outubro.
Como estatal, o Banco do Brasil tende a ser mais sensível às mudanças nas expectativas sobre o futuro governo e os rumos da política econômica. É o chamado trade eleitoral, no jargão do mercado.
Mas essa não é a única leitura. Há quem enxergue na alta uma tese que vai além das urnas: uma ação ainda descontada, com rentabilidade deprimida e espaço para recuperar resultados caso o ciclo de crédito melhore.
BBAS3 como termômetro da eleição
Para Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, a arrancada de BBAS3 nas últimas semanas acompanhou a mudança de percepção do mercado sobre o cenário eleitoral.
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Desde meados de agosto, a bolsa brasileira passou por uma reprecificação, em meio a uma leitura sobre a disputa eleitoral mais voltada à alternância de poder. A percepção entre os investidores é que uma eventual mudança de governo traria uma condução econômica diferente a partir de 2027, principalmente no que diz respeito à trajetória fiscal.
- Reportagem especial: Trade eleitoral: como os tubarões do mercado estão se posicionando para ganhar com as eleições — e limitar o prejuízo se a aposta der errado
E o Banco do Brasil, por ser uma estatal diretamente ligada ao governo, acabou funcionando como uma espécie de termômetro desse movimento.
Em momentos de maior sensibilidade política, BBAS3 se torna uma forma relativamente líquida de expressar uma visão sobre o futuro do país — e, principalmente, sobre os rumos da política econômica e o grau de influência do governo sobre a companhia.
“O banco está com a gestão aparentemente mais profissional, menos sujeita à ingerência do governo federal, mas ainda assim é um call eleitoral”, afirma Utsch.
Para Tomás Barros, analista de ações da AZ Quest, porém, a eleição pode até acelerar a tese, mas não explicará sozinha a alta da ação no futuro.
“Estatais tendem a ser mais sensíveis ao cenário político. Mas a tese não depende só da eleição: qualidade de crédito, lucro e ROE continuam sendo importantes”, afirma.
Na avaliação de Barros, outro fator que entrou nessa equação foi o fluxo estrangeiro, com a maior exposição dos investidores gringos ao BB nas últimas semanas.
“Provavelmente pesa mais o horizonte de investimento, exposição ao processo eleitoral, liquidez do ativo e a diversificação global. Para um investidor estrangeiro, BB é uma exposição ao Brasil dentro de uma carteira muito mais diversificada”, afirma.
Ação dispara na bolsa, mas Banco do Brasil ainda não virou a chave
Quase nada da valorização de BBAS3 observada até aqui pode ser atribuída aos fundamentos, diz Ruy Hungria, analista de ações da Empiricus Research. Na visão dele, o banco ficou em situação até mais delicada após a piora da inadimplência no segundo trimestre e as dificuldades persistentes no agronegócio.
O BB encerrou o 2T26 com lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, alta de 13,9% sobre o trimestre anterior, e retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) de 8,3%.
O resultado superou as expectativas, que já estavam baixas, mas veio acompanhado de sinais ainda desconfortáveis na carteira. A inadimplência acima de 90 dias chegou a 5,61%, enquanto o custo do crédito somou R$ 18,5 bilhões.
“Estruturalmente, o ponto principal é que o ROE que o Banco do Brasil entrega hoje está abaixo do que o banco já mostrou ser capaz de gerar em condições mais normalizadas. Então existe espaço para recuperação operacional, mas isso ainda precisa aparecer de forma mais consistente nos resultados”, afirma Barros.
O desconto de BBAS3 é grande
Nas contas de Utsch, o Banco do Brasil trabalha atualmente com um retorno sobre o patrimônio entre 8% e 9%, enquanto BBAS3 é negociada a um múltiplo perto de 0,6 vez o valor patrimonial na bolsa.
Segundo ele, essa é uma combinação que deixa a ação sensível a qualquer sinal de melhora. Se o ROE voltar a níveis próximos ou superiores ao custo de capital, a distância entre o preço atual e um valor mais alto pode diminuir rapidamente.
“Pensando em um banco que voltará a ter um retorno igual ou acima do custo de capital, haveria um potencial de valorização relevante”, afirma o gestor.
É aqui que o trade eleitoral encontra a tese fundamentalista. Uma eventual mudança de governo poderia alterar a percepção sobre a governança e a condução do banco, na avaliação de Hungria.
“Se essa mudança de governo se concretizar, há espaço para as ações andarem mais por conta da perspectiva de melhora da governança, eficiência e resultados com uma gestão mais pró-mercado”, diz.
Mas a Empiricus não considera essa possível mudança um motivo forte o suficiente para apostar nesse cenário. A casa prefere manter BBAS3 fora das carteiras neste momento justamente porque uma parte relevante da tese depende de uma alternância de governo que ainda não pode ser dada como certa.
“Vemos relações de risco e retorno mais interessantes em outros nomes”, afirma Hungria.
O problema que precisa virar solução: o agronegócio
Na visão dos especialistas, a principal peça que falta para a tese fundamentalista do Banco do Brasil ganhar tração continua sendo o agronegócio.
A carteira rural do Banco do Brasil chegou a R$ 421,6 bilhões no 2T26, alta de 4,1% em 12 meses.
Já os indicadores de qualidade do crédito do banco continuaram se deteriorando, especialmente a formação de inadimplência e a migração de operações para o Estágio 3, que concentra os créditos com problemas mais graves de recuperação.
Embora a administração tenha apontado sinais de estabilização em algumas carteiras, o Citi ainda vê um problema no colchão de proteção do banco contra eventuais calotes.
“Continuamos preocupados com a possibilidade de que os níveis atuais de provisão sejam insuficientes para absorver totalmente o enfraquecimento contínuo da qualidade do crédito”, dizem os analistas.
Para Utsch, o problema não necessariamente significa que o Banco do Brasil tenha se tornado estruturalmente menos rentável.
“Esse ciclo de inadimplência do agro, que foi muito forte e ainda está sendo recorde, não terá uma melhora em um ou dois trimestres. Mas entendemos que é muito mais uma consequência do momento cíclico desfavorável do que de uma gestão ruim ou de que o Banco do Brasil estruturalmente terá um retorno muito ruim.”
Inclusive, o BB já soma alguns ingredientes para uma eventual virada no agro. A MP 1.376, por exemplo, criou mecanismos para facilitar a renegociação das dívidas dos produtores, incluindo entrada, alongamento de prazos e garantias adicionais.
Ao mesmo tempo, a recuperação dos preços da soja e um câmbio mais depreciado podem ajudar a geração de receita dos agricultores.
Nesse cenário, a XP já começa a enxergar condições mais favoráveis para uma melhora da qualidade dos ativos da carteira rural. Só que o mercado terá de esperar.
A corretora estima que o 3T26 ainda carregue as marcas do período em que produtores adiaram pagamentos e renegociações, enquanto aguardavam a implementação das novas medidas.
A expectativa é de uma adesão maior no quarto trimestre, abrindo espaço para uma redução mais consistente do custo de risco e uma contribuição mais positiva do agro para os resultados do BB.
Pessoa física acende o alerta no Banco do Brasil
Acontece que o agronegócio não é mais a única frente de preocupação no Banco do Brasil. A carteira de pessoa física também começou a deteriorar, com a piora indo além dos cartões de crédito e alcançando produtos ligados ao consignado.
Isso torna a recuperação do ROE uma história necessariamente mais longa. Mesmo que o agro comece a aliviar o custo de crédito, o banco ainda precisa mostrar que consegue conter a deterioração em outras linhas.
É por isso que Barros vê um risco específico que pode passar despercebido por quem olha apenas para o desconto da ação.
“O principal risco seja a recuperação demorar mais do que o mercado espera. Se o custo de crédito permanecer elevado por mais tempo, o ROE demora a se recuperar e a capacidade de geração de valor ficará limitada por mais tempo.”
Banco do Brasil (BBAS3): comprar antes ou depois da eleição?
Depois de uma alta de quase 27% em pouco mais de um mês, o Banco do Brasil já carrega uma parte relevante da expectativa de melhora no preço — mesmo sem uma recuperação consistente do balanço, avaliam os especialistas.
A dúvida, portanto, é o que acontece daqui para frente. Se os fundamentos começarem finalmente a acompanhar o otimismo do mercado, a ação ainda pode ter uma segunda pernada de alta, avaliam os especialistas.
Mas, se a melhora demorar mais do que o previsto, o investidor pode ter de esperar mais tempo para vê-la refletida nos resultados.
Para quem enxerga BBAS3 como investimento de longo prazo, Utsch faz uma distinção importante: uma coisa é investir no Banco do Brasil; outra é usar a ação como uma aposta no resultado eleitoral.
No primeiro caso, diz ele, não faria sentido deixar toda a tese dependente das urnas. Uma alternativa seria construir a posição gradualmente, atravessando o período eleitoral em vez de tentar acertar o momento exato de entrada.
“Se o horizonte de investimento é o longo prazo, não se pode ficar olhando para a eleição. Você deve olhar para a eleição se quiser colocar sua opinião sobre o pleito especificamente naquele investimento”, afirma.
Barros, por sua vez, avalia que entrar antes de uma confirmação mais clara da recuperação pode aumentar o potencial de capturar uma eventual reprecificação da ação — mas também significa aceitar o risco de que essa recuperação demore mais para aparecer.
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