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A companhia antecipou números preliminares do segundo trimestre, projetou queda de até 10% na receita e atribuiu o desempenho a problemas operacionais, consumo fraco e mudanças na estratégia comercial

A Natura (NATU3) não quis esperar a divulgação oficial de resultados do segundo trimestre, prevista para agosto, e resolveu arrancar de vez o band-aid ao dar uma prévia ao mercado dos seus números trimestrais.
A companhia divulgou um fato relevante com os dados preliminares do período, indicando uma queda de até 10% na receita líquida em base anual, para o intervalo entre R$ 5,1 bilhões e R$ 5,2 bilhões
No primeiro trimestre, a Natura já havia mencionado problemas com interrupções de vendas. No entanto, essa queda pode ser ainda maior do que o inicialmente projetado pelo mercado.
De acordo com a empresa, o ambiente de consumo fraco no Brasil se juntou a desafios e ajustes operacionais internos que devem pressionar essa linha do balanço de forma mais intensa do que o esperado.
Quanto à rentabilidade, no entanto, espera-se uma expansão em relação ao trimestre anterior na margem Ebitda reportada, em função de menores despesas sequenciais com rescisões e captura de eficiências do novo modelo operacional. A empresa não forneceu números sobre a margem Ebitda.
No entanto, diante da perspectiva mais fraca para as vendas e do menor grau de alavancagem operacional, "não podemos descartar que a margem Ebitda fique abaixo da estimativa preliminar de 12,7%, embora ainda acima dos 7,2% registrados no 1T26", diz o Citi em relatório.
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A Natura ressaltou que as informações divulgadas são preliminares, não auditadas e sujeitas a revisão, ajustes e acréscimos no âmbito dos procedimentos regulares de fechamento contábil e revisão de informações financeiras trimestrais. As informações completas serão divulgadas no dia 10 de agosto.
Ao antecipar essas informações, a Natura busca reduzir o fator surpresa na divulgação do balanço. Em vez de deixar o mercado descobrir a deterioração dos resultados apenas na publicação oficial das demonstrações financeiras, a companhia opta por sinalizar previamente o cenário, permitindo que investidores e analistas ajustem suas expectativas.
Por volta das 11h20, as ações subiam 5,7% na bolsa, negociadas a R$ 8,51.
Um dos principais fatores por trás desse desempenho foi a escassez de produtos, provocada pelas mudanças em sistemas e processos logísticos que a companhia vem implementando.
A Natura ainda está reorganizando sua operação, que envolve um novo sistema de produção e estoques, a atualização do SAP — software que integra áreas como logística, vendas e produção — e a redistribuição da produção após o fechamento da fábrica de Interlagos.
Há alguns dias, a Natura realizou uma teleconferência com as revendedoras e informou que a normalização dos estoques já começou, com prioridade para a categoria de fragrâncias. Ainda assim, a recuperação deve ser gradual e a empresa admite que ainda podem ocorrer instabilidades no curto prazo.
O cenário macroeconômico desafiador, combinado à falta de produtos, também derrubou o volume de vendas das consultoras. Como consequência, houve uma redução na atividade e na produtividade dessas parceiras em relação ao ano anterior, embora com melhora na comparação com o trimestre anterior.
A Natura também atribui parte da pressão sobre as vendas a mudanças comerciais que implementou ao longo do trimestre. A companhia revisou sua política de preços e as regras entre os diferentes canais de venda para preparar uma nova etapa de crescimento dos canais diretos ao consumidor, como o e-commerce. No curto prazo, porém, a transição acabou reduzindo o ritmo das vendas online.
Ao mesmo tempo, a empresa substituiu todos os contratos de franquia por um novo modelo baseado nas vendas efetivamente realizadas pelas lojas aos consumidores. Durante essa mudança, as franquias reduziram seus estoques temporariamente, também impactando as vendas desses estabelecimentos ao longo do trimestre.
A companhia também cita um efeito tributário temporário relacionado a mudanças nas regras do ICMS-ST no estado de São Paulo, que concentrou impactos negativos no segundo trimestre de 2026.
No entanto, o comunicado não informou se os problemas de falta de estoque e as dificuldades relacionadas à implementação do SAP já foram resolvidos, diz o JP Morgan em relatório.
Para reverter o cenário, a Natura afirma que já colocou em prática uma série de medidas para recuperar o desempenho no Brasil.
Entre elas estão a reorganização da cadeia de abastecimento, com ajustes na produção, nos fornecedores, no fluxo de materiais e nos sistemas utilizados pela companhia, além de mudanças nos incentivos às consultoras para estimular as vendas.
A empresa também pretende acelerar sua estratégia digital, ampliando a presença em marketplaces e expandindo a "Minha Loja", plataforma que permite às consultoras venderem pela internet.
Outra frente é a retomada da abertura de franquias, agora sob um novo modelo de contrato. Segundo a Natura, essas iniciativas têm potencial para melhorar a operação e impulsionar a receita já no curto prazo.
Há, no entanto, um potencial positivo para os papéis. O fundo Advent, um dos maiores do mundo, tinha opção para adquirir uma participação relevante na empresa de cosméticos e, assim, ocupar duas cadeiras no conselho de administração.
O JP Morgan acredita que "há uma boa probabilidade de que mudanças estratégicas sejam anunciadas quando a Advent começar a influenciar a direção da companhia por meio de sua representação no conselho".
O banco tem recomendação de compra para as ações. Já o Citi tem recomendação neutra, com alto risco, para a ação.
Em 2022, quando a companhia enfrentava um dos momentos mais delicados desde a compra da Avon, a Natura chegou a fazer teleconferências com um grupo seleto de analistas do sell-side para prepará-los para os resultados do 1T22, de modo a evitar que projeções muito distantes da realidade fossem passadas ao mercado, criando expectativas que seriam frustradas na divulgação do balanço.
‘Sell-side’ é o termo usado no mercado para identificar os bancos e casas de análise que soltam relatórios com recomendações de investimento.
Na época, o mercado leu o movimento como uma antecipação de catástrofe e, como as reuniões foram restritas aos analistas, muitos investidores interpretaram que eles tiveram acesso antecipado às informações. O resultado foi uma queda de 15,5% das ações em um único pregão.
Logo depois, os números realmente vieram ruins, com prejuízo quatro vezes maior.
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