Nem o Desenrola salva os bancões? Inadimplência ainda deve piorar no 3T26, mostra pesquisa do BC
Renegociação de dívidas ajuda a aliviar as carteiras, mas bancos esperam nova deterioração da qualidade do crédito na próxima safra de balanços

O Desenrola colocou bilhões em dívidas na mesa de renegociação e ajudou a dar uma segunda chance a consumidores que estavam com as contas atrasadas. Mas, para os bancos, o problema da inadimplência ainda está longe de terminar.
Mesmo com os programas de renegociação em andamento, as instituições financeiras esperam nova deterioração da inadimplência no terceiro trimestre de 2026, embora em ritmo menor do que o observado nos três meses anteriores.
O sinal aparece na Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito (PTC), do Banco Central, que funciona como um termômetro do humor dos bancos em relação ao crédito.
Segundo o relatório, ainda que a demanda por dinheiro continue firme, quem empresta está menos disposto a correr riscos.
Vale uma ressalva: a PTC não representa uma previsão do Banco Central. A pesquisa registra exclusivamente a avaliação das instituições financeiras participantes e funciona como um termômetro das condições de oferta e demanda de crédito no Sistema Financeiro Nacional.
A torneira do crédito continua mais fechada
O segundo trimestre já havia mostrado uma mudança de postura dos bancos. A oferta de crédito ficou mais restritiva na maioria dos segmentos pesquisados, enquanto a demanda permaneceu resiliente e se fortaleceu de forma disseminada.
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Para o terceiro trimestre, a expectativa é de continuidade do aperto para as empresas e de relativa estabilização no crédito destinado às pessoas físicas.
A inadimplência está no centro dessa equação. Segundo a pesquisa, ela se comportou “em linha com as expectativas” no 2T26 e continuou entre os principais fatores de restrição da oferta.
Para o próximo trimestre, as instituições esperam “continuidade da deterioração, porém em menor intensidade que a observada no trimestre anterior”.
Inadimplência em empresas segue no radar
Entre as pessoas jurídicas, as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) estão entre os grupos que devem enfrentar um ambiente mais restritivo.
No último trimestre, a oferta para esse segmento continuou apertada, embora tenha havido uma leve desaceleração do movimento, ajudada em parte pela disponibilidade de mecanismos de fomento ao crédito.
Para o 3T26, porém, os bancos ainda esperam restrição, principalmente por fatores relacionados à inadimplência. A concorrência entre as instituições pode amenizar parte desse efeito, mas não elimina a preocupação com a capacidade de pagamento dos clientes.
Nas grandes empresas, a torneira do crédito também secou mais no segundo trimestre, e a expectativa é de manutenção desse quadro no terceiro, pressionada principalmente pela inadimplência e pelas condições gerais da economia doméstica.
Pessoa física também sente o aperto
No crédito destinado ao consumo, o cenário não é muito diferente. As instituições financeiras esperam que o custo e a disponibilidade de funding, combinados com uma menor tolerância ao risco, aumentem o grau de restrição da oferta para pessoa física na próxima safra de balanços.
Há, porém, um fator capaz de suavizar esse movimento: o mercado de trabalho.
Emprego e renda ainda dão sustentação à demanda por crédito, mas o comprometimento financeiro das famílias e a inadimplência limitam a disposição dos bancos de acelerar os empréstimos.
No crédito habitacional, que foi a exceção no segundo trimestre e teve condições de oferta estáveis, também há expectativa de algum aperto no 3T26.
Nesse caso, a pesquisa destaca a menor tolerância ao risco e a maior expectativa de inadimplência como fatores de pressão.
Desenrola: renegociação ajuda, mas não encerra o problema
É nesse ponto que entram os programas de renegociação de dívidas. O Novo Desenrola Brasil, lançado em maio, mira pessoas com renda de até cinco salários-mínimos e dívidas em atraso há mais de 90 dias, combinando descontos e renegociação.
Em agosto, o programa já havia renegociado R$ 25,51 bilhões em dívidas em atraso, segundo levantamento citado pela Folha.
Há ainda o Desenrola Adimplentes, criado em junho para estimular a troca de dívidas existentes por novas operações em condições mais favoráveis, com participação prevista do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
Essas iniciativas podem ajudar a reorganizar as carteiras dos bancos e aliviar a situação de parte dos devedores.
Mas a fotografia da PTC mostra que, na avaliação das instituições, ainda é cedo para considerar resolvida a questão da qualidade do crédito.
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