Gerdau (GGBR4) cai pelo segundo dia — alarme falso no mercado ou risco real para o investidor?
Notícia sobre o alívio tarifário entre EUA e Canadá assusta investidores e faze a ação da siderúrgica cair pelo segundo dia seguido; entenda o que está em jogo para a brasileira e se vale a pena ter os papéis em carteira agora

O investidor da Gerdau (GGBR4) acordou com dores de cabeça nos últimos dias. Após uma queda de cerca de 5% na sessão de quarta-feira (19), as ações da siderúrgica mantém o tom negativo e recuam mais de 2% nesta quinta-feira (20). O gatilho para as perdas veio do norte do continente.
O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou ter alcançado um "ótimo acordo" em conversa por telefone com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Com o entendimento preliminar, o republicano decidiu adiar por três dias a imposição de tarifas de 50% sobre produtos canadenses para dar tempo às equipes diplomáticas de selarem os papéis.
A notícia, que em tese traz harmonia ao comércio global, soou como alarme para o setor de siderurgia na bolsa brasileira, pressionando as ações da Gerdau.
No entanto, para Citi e UBS BB, a reação do mercado não passa de ruído. Em relatórios enviados aos clientes, ambos os bancos reiteraram a recomendação de compra para a Gerdau, enxergando um potencial de valorização de mais de 30%.
Por que o alívio de tarifas assusta o setor?
Para compreender o susto do mercado, é preciso olhar para a geografia dos negócios da Gerdau. A companhia não é apenas uma gigante no Brasil: cerca de metade do resultado operacional (Ebitda) vem da América do Norte.
Nos últimos anos, políticas protecionistas e tarifas elevadas cobradas pelos EUA para a entrada de aço estrangeiro blindaram o mercado norte-americano. Com menos aço importado entrando no país, os preços do produto por lá dispararam — o que beneficiou diretamente as fábricas da Gerdau situadas em solo norte-americano, elevando as margens de lucro da companhia.
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A lógica dos operadores é simples: sem tarifas, os EUA serão inundados por aço canadense e mexicano mais barato, o que derrubará os preços locais e esmagará as margens das siderúrgicas.
Contudo, segundo os analistas do Citi e do UBS BB, quem vendeu GGBR4 olhando apenas a manchete cometeu um erro de avaliação.
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Gerdau: a manchete parece pior do que os dados
Em relatório liderado por Caio Greiner, Andrew Jones e Arthur Biscuola, o UBS BB manteve a recomendação de compra para Gerdau e o preço-alvo de R$ 28 para os próximos 12 meses, o que representa um potencial de valorização de 22,1%.
O banco avalia que a reação do mercado foi exagerada porque ignora o tipo específico de aço que a Gerdau produz na América do Norte. A empresa foca principalmente em dois nichos: vigas de aço (beams) e aços especiais para construção e indústria (MBQ).
E é aqui que os dados desmentem a preocupação. Em 2026, o Canadá exportou apenas 20 mil toneladas de vigas para os EUA — o equivalente a 0,5% da demanda norte-americana. Em relação aos aços especiais (MBQ), as importações canadenses somam 105 mil toneladas, ou 3,1% da demanda. O México representa volumes ainda menores: 1,2% em vigas e 1,1% em MBQ.
Além disso, no acumulado de 2026, Canadá e México tornaram-se importadores líquidos dessas categorias, precisando de mais produto do que exportam.
Soma-se a esse quadro o fato de a demanda norte-americana por vigas e aços especiais crescer cerca de 7% no ano, ritmo superior a outros segmentos do aço, o que garante fôlego de sobra para absorver qualquer fluxo adicional.
Para completar, notícias da Reuters indicam que o acordo entre EUA e Canadá deve fixar tarifas em 25% com uma cota limite de cerca de 4 milhões de toneladas — patamar inferior aos 4,5 milhões exportados pelos canadenses em 2025 e bem abaixo dos anos anteriores (6,6 milhões em 2024 e 6,9 milhões em 2023).
Para o UBS BB, esses detalhes provam que a Gerdau está muito mais bem posicionada do que as concorrentes norte-americanas para enfrentar eventuais mudanças comerciais.
Ainda é hora de compra Vale (VALE3) e buscar dividendos?
A chave da Gerdau está no Canadá
A equipe do Citi, formada por Gabriel Barra, Alexander Hacking e Pedro Ferreira de Mello, compartilha do mesmo otimismo e mantém a indicação de compra com preço-alvo de R$ 29. Isso implica uma valorização de 26,4% no preço da ação que, somada ao rendimento de dividendos de 6,4%, projeta um retorno total de 32,8%.
O Citi faz um alerta importante: a Gerdau possui fábricas no próprio Canadá. Portanto, um afrouxamento nas barreiras comerciais entre EUA e Canadá pode ser até positivo para a empresa, permitindo integrar melhor as operações locais.
O banco argumenta que o mercado usou o Canadá apenas como um teste para um possível acordo dos EUA com o México — este sim, um evento que poderia trazer maior volume de aço ao mercado.
Ainda assim, os analistas ponderam que a Gerdau opera em nichos de mercado em que a concorrência é bem menos agressiva.
Além disso, o Citi destaca os fundamentos sólidos da empresa: a demanda por aço nos EUA continua resiliente; os preços do aço seguem em trajetória de alta, refletindo até nas negociações para o próximo ano; e as margens de lucro na América do Norte devem se manter protegidas por pelo menos mais um a dois anos.
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