IPOs vão voltar com tudo? BTG vê efeito dominó após 1ª oferta na B3 em 5 anos — e CFO diz: “quando uma vem, puxa outras”
Para Renato Cohn, primeira abertura de capital desde 2021 pode destravar o mercado brasileiro — e banco vê apetite mesmo com juros altos e tensão global

Depois de quase cinco anos de janela fechada, uma única oferta foi suficiente para recolocar uma pergunta na mesa: o mercado de ações está, de fato, reabrindo para IPOs? Para o BTG Pactual (BPAC11), a janela de aberturas de capitais na B3 deve ganhar tração nos próximos meses.
Como coordenador líder da oferta da Compass (PASS3), que marcou a reabertura simbólica da janela de ações na bolsa brasileira, o banco viu de perto o que pode ser o início de uma nova fase para o mercado de capitais local
“Tem várias empresas prontas. Mais de uma dezena. Cada uma vai avaliar o melhor momento, mas, quando uma vem, puxa outras”, disse Renato Hermann Cohn, diretor financeiro (CFO) do banco, em conversa com jornalistas.
- Confira aqui: Fim da seca de IPOs: Compass (PASS3) toca o sino da bolsa de valores em oferta que levantou R$ 3,2 bilhões
Para o executivo, o episódio funciona como um destravamento do mercado brasileiro, em meio a um ambiente ainda marcado por juros elevados, volatilidade global e fluxo estrangeiro instável.
É nesse contexto que o banco entregou o balanço do primeiro trimestre de 2026: forte em números, com crescimento de receitas, rentabilidade acima do guidance e avanço em frentes estratégicas.
Segundo o CFO, o balanço reforça a tese que o banco vem tentando construir nos últimos anos: a de um modelo menos dependente de janelas de mercado e mais apoiado em diversificação e execução.
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“O que a gente tenta fazer ao longo do tempo é construir um banco preparado para cenários bons e ruins”, disse o executivo.
- Veja também: BTG Pactual (BPAC11) entrega resultado “difícil de criticar”, mas ações caem na B3. O que explica a queda?
IPO da Compass: mais gatilho do que exceção
O IPO que marcou a reabertura da B3 é visto pelo BTG menos como um ponto fora da curva e mais como o início de uma possível sequência.
“Desde 2021 não tínhamos IPOs. Esse agora foi bem-sucedido, com volume relevante”, disse Cohn.
Mais importante do que o tamanho da oferta, na visão do banco, é o efeito dominó que a oferta pode trazer. Em mercados de capitais, a primeira operação costuma carregar um peso desproporcional pela confiança que ela ajuda a reconstruir.
A lógica é simples: uma transação bem-sucedida e com apetite dos investidores ajuda a reduzir a incerteza para as próximas.
“Tem várias empresas prontas. Mais de uma dezena. Cada uma vai avaliar o melhor momento, mas, quando uma vem, puxa outras.”
Mesmo com a guerra no Oriente Médio e um fluxo estrangeiro mais volátil a partir da metade de abril, o executivo não acredita que o apetite tenha desaparecido.
“É verdade que o mercado deu uma pioradinha ali de meados de abril até agora, mas não acho que tirou a possibilidade ou o apetite das empresas de virem a mercado”, afirmou. “A gente vai ver mais IPOs nos próximos trimestres.”
DCM perde fôlego — e abre espaço para o crédito no BTG Pactual
Se o mercado de ações ensaia uma retomada, o de dívida corporativa seguiu na direção oposta na reta final do trimestre.
O DCM (Debt Capital Markets) começou a mostrar sinais de desaceleração em março e abril — e virou um dos principais pontos de questionamento do mercado após o resultado.
Para o BTG, no entanto, o movimento tem mais a ver com timing do que com mudança estrutural.
“O impacto da retração foi mais para o final de março. Conseguimos performar bem ao longo do trimestre porque janeiro e fevereiro foram meses fortes”, disse.
Abril, segundo ele, já trouxe uma fotografia diferente — mais fraca —, embora haja sinais iniciais de estabilização.
Ainda assim, o executivo não vê o esfriamento como algo estrutural. “O mercado de emissão de dívida vai continuar se desenvolvendo à medida que o Brasil se desenvolve. Sempre tem soluços, uma parada para ajuste de preço, mas o processo é de crescimento”, afirmou.
Na prática, essa desaceleração abriu espaço para um movimento complementar dentro do próprio BTG. Com spreads mais elevados após a retração do DCM, o BTG ampliou a atuação em crédito corporativo — especialmente com empresas de maior qualidade.
“Quando o spread faz sentido, o banco entra”, disse.
Consumer finance vira motor do BTG Pactual
A mudança mais estrutural do trimestre, porém, está fora do mercado de capitais. Com a consolidação total do Banco Pan, o BTG passou a reportar de forma integrada a operação de Consumer Finance, de crédito a pessoas físicas, no balanço.
Segundo o executivo, essa vertical deve começar a ganhar peso dentro da estratégia daqui para frente. Hoje, o portfólio de banco de varejo já responde por 11% das receitas do grupo, ante 10% no trimestre anterior.
“A gente está bastante confiante de que essa é uma área importantíssima para o crescimento do BTG”, afirmou Cohn.
No horizonte de médio e longo prazo, o banco trabalha com a possibilidade de levar essa fatia para algo entre 15% e 20% das receitas — mas sem pressa.
“É um processo de anos. Pelo menos cinco”, segundo Cohn. “Vai levar um tempo para que isso aconteça, mas é nessa direção que a gente caminha.”
Segundo o executivo, a convergência da rentabilidade do Pan para um patamar próximo ao do BTG até 2028 deve vir de múltiplos fatores: sinergias operacionais, migração para um único core bancário, melhor originação de crédito e fidelização de clientes.
“Não tem um driver mágico. É eficiência, redução de custos, melhor experiência do cliente e uma carteira de crédito com melhor qualidade”, disse o executivo.
Hoje, cerca de 90% da carteira está concentrada em produtos com garantia, como financiamento de veículos e crédito consignado — uma escolha que ajuda a mitigar risco em um ambiente macro ainda negativo.
“Esse negócio de varejo tem as suas ciclicidades e depende dos ciclos macroeconômicos, mas acompanhamos muito de perto e estamos confortáveis de continuar investindo e crescendo no segmento”, afirmou Cohn.
Juros, guerra e o freio de arrumação
Se há um vetor de cautela no curto prazo, ele vem do cenário macroeconômico. A expectativa de uma queda mais rápida dos juros perdeu força nos últimos meses, especialmente após o aumento das tensões geopolíticas.
“Um cenário de juros mais altos por mais tempo aumenta o custo e a dificuldade de servir a dívida — de empresas e pessoas”, disse Cohn.
Segundo ele, isso exige mais atenção na originação e na gestão de risco, mas não muda a estratégia central do banco. “Isso pode mudar rápido se a inflação ceder.”
Apesar do ambiente mais incerto, o BTG mantém uma leitura construtiva para o Brasil. “Os múltiplos são baixos, as empresas são de qualidade e o país não tem conflitos geopolíticos relevantes. O Brasil continua muito atrativo”, afirmou.
*O Seu Dinheiro pertence ao mesmo grupo empresarial do BTG Pactual.
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