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Ao Seu Dinheiro, Milton Pilão conta por que continua comprando ativos mesmo com juros altos e o que pode destravar uma nova fase de crescimento

Em uma safra de IPOs que deixou mais decepções do que histórias de sucesso na bolsa brasileira, a Orizon (ORVR3) seguiu um roteiro diferente. Desde a estreia na B3, em 2021, os papéis da companhia acumulam valorização próxima de 250%, transformando a empresa comandada por Milton Pilão em uma das raras vencedoras daquele ciclo de ofertas de ações na bolsa.
A receita por trás desse desempenho está em um segmento que ainda passa longe do radar de muitos investidores: a transformação de lixo e resíduos em negócios de infraestrutura, energia e transição ambiental.
A Orizon administra ecoparques que recebem o lixo produzido por milhões de brasileiros. Mas, para a companhia, os resíduos são apenas o ponto de partida.
A partir deles, a empresa gera novas fontes de receita por meio da produção de biogás, biometano, energia elétrica, reciclagem e créditos de carbono, por exemplo.
A tese ganhou ainda mais escala com a aquisição da Vital, concluída na semana passada. A operação transformou a Orizon na maior plataforma de transformação ambiental e transição energética do país, com 30 ecoparques distribuídos por 15 estados e resíduos gerados por cerca de 40 milhões de brasileiros sob sua gestão.
É por isso que o CEO Milton Pilão aposta que o setor de resíduos pode representar a próxima "bola da vez” do mercado brasileiro.
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“Assim como rodovias, energia e saneamento passaram por grandes ciclos de investimento, resíduos ainda exige aportes bilionários para resolver um problema estrutural do país. Estamos posicionados para capturar essa oportunidade”, afirma, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro.
A ambição do CEO parte de uma característica que, segundo o executivo, diferencia a companhia de boa parte dos setores da economia: o lixo é um ativo anticíclico.
“Independentemente de crise política ou econômica, o lixo continua sendo gerado”, diz Pilão.
Para o CEO, a aquisição da Vital acelerou o movimento de transformação da Orizon.
Segundo Pilão, a combinação das operações criou a maior plataforma integrada de transformação ambiental do país e ampliou significativamente as oportunidades de monetização ao longo da cadeia.
"O aterro é o ponto de partida. Ao redor dele, criamos novas formas de gerar valor a partir do resíduo. Com a Vital, incorporamos também serviços como coleta, varrição e manejo, ampliando o potencial de receita de cada contrato", afirma o executivo.

Além do ganho de escala tradicional esperado em grandes integrações, a aquisição amplia significativamente a capacidade da Orizon de acelerar projetos já em andamento.
“Teremos ganhos administrativos, operacionais e de suprimentos, como acontece em qualquer grande incorporação. Mas também teremos uma aceleração importante na agenda de transição energética”, afirma o CEO.
Uma das principais apostas é o biometano. Antes da aquisição, Orizon e Vital já desenvolviam projetos próprios. Com a integração, a companhia passa a ter duas plantas em operação e outras sete previstas para entrar em funcionamento ao longo dos próximos dois anos.
“É um volume muito relevante de novas entregas. Essas plantas já estavam sendo construídas pelas duas companhias e devem trazer uma contribuição importante para os resultados futuros.”
Em um ambiente de juros elevados, crescer por meio de aquisições costuma significar assumir mais endividamento. No entanto, a Orizon seguiu pelo caminho oposto.
Segundo Pilão, a companhia optou por financiar boa parte de sua expansão por meio de emissões de ações, preservando a flexibilidade financeira.
“Em vez de crescer com dívida, crescemos com equity. Fizemos follow-on, trouxemos novos acionistas e mantivemos uma estrutura de capital saudável.”
O executivo considera essa uma das principais vantagens competitivas da empresa no panorama atual macroeconômico.
“Se estivéssemos financiando esse crescimento com dívida, em um ambiente de juros como o atual, provavelmente estaríamos limitando nossa capacidade de expansão.”
Pilão afirma que a companhia continuará buscando crescimento por meio de aquisições de aterros e da ampliação da base de resíduos sob gestão.
Na visão do executivo, a infraestrutura de resíduos deve se tornar uma das principais avenidas de investimento do país nos próximos anos, diante da necessidade de aportes bilionários para ampliar o tratamento adequado de resíduos no Brasil.
“A fronteira de infraestrutura de resíduos é a próxima bola da vez no mercado brasileiro. Nós montamos uma plataforma preparada para capturar essa oportunidade”, afirma.
Segundo o CEO, a estrutura de capital da Orizon permite que a companhia avance sobre novas oportunidades de consolidação sem comprometer o retorno aos acionistas.
“Quando essas oportunidades aparecem, conseguimos crescer com retorno para o acionista porque temos uma estrutura de capital preparada para isso.”
Na visão do CEO, o crescimento da Orizon acontecerá por duas frentes complementares.
A primeira é orgânica. Trata-se de aumentar a geração de receita a partir dos resíduos que já estão sob gestão. É aqui que entram projetos como biometano, recuperação energética e créditos de carbono.
“A gente tem potencial para multiplicar receitas apenas aproveitando melhor o resíduo que já administramos.”
A segunda avenida é a consolidação do setor. Apesar da expansão recente, o CEO afirma que a indústria de resíduos no Brasil ainda permanece bastante fragmentada.
Com 30 ecoparques espalhados pelo país, a companhia continua observando oportunidades de aquisição. “Tem muito espaço para consolidar o setor.”
No entanto, Pilão afirma que a empresa não pretende diversificar para áreas fora do seu núcleo de atuação.
“Somos muito conservadores. Ainda tem muita oportunidade no setor. Se a gente diversificar, nunca teríamos braço e estrutura de capital suficiente para fazer de tudo, então preferimos focar no que fazemos melhor: receber resíduos e extrair valor deles.”
Por enquanto, a expansão internacional também não está nos planos. “Acreditamos que as melhores oportunidades estão no Brasil.”
Até aqui, a Orizon foi uma típica empresa de crescimento: praticamente todo o capital gerado pela operação foi reinvestido em expansão.
Mas essa lógica pode começar a mudar em breve. Segundo Pilão, o tema dos dividendos já passou a ser discutido dentro da companhia.
“Temos conversado sobre a possibilidade de iniciar uma distribuição pequena de dividendos a partir do ano que vem ou do seguinte.”
Segundo ele, a pressão vem principalmente dos investidores estrangeiros, que representam mais da metade da base acionária e que gostam de ter no portfólio empresas que combinam crescimento e distribuição.
Atualmente, 100% do capital gerado pela Orizon é reinvestido em novas plantas, em uma estratégia que, segundo o executivo, entrega um retorno muito superior ao CDI.
Por isso, o CEO reconhece que a falta de proventos pode ser um limitador para atrair novos bolsos globais. “O estrangeiro cobra mais”, afirma.
Ainda assim, o executivo afirma que qualquer política futura precisará ser compatível com as oportunidades de expansão existentes.
Se o biometano é uma das principais apostas para os próximos anos, o crédito de carbono aparece como um dos maiores potenciais de valorização de longo prazo.
Para o executivo, esse mercado funciona como uma importante avenida de receita marginal que recompensa a empresa por evitar que o metano — um gás de efeito estufa altamente poluente — chegue à atmosfera.
Hoje, a Orizon atua principalmente no mercado voluntário. Isso significa que grandes empresas estrangeiras, como Google, Netflix e Volkswagen, compram créditos para cumprir metas ambientais próprias.
Nesse mercado, os preços costumam variar entre US$ 1 e US$ 2 por tonelada, de acordo com o CEO.
Mas Pilão acredita que o jogo pode mudar radicalmente com a consolidação do mercado regulado no Brasil.
"No mercado regulado, eu posso passar a monetizar 100% do meu carbono, e em um preço muito maior", projeta Pilão.
Com a incorporação da Vital, a Orizon possui potencial superior a 6 milhões de toneladas anuais de créditos de carbono.
Segundo o executivo, uma regulação mais robusta poderia elevar os preços para uma faixa entre US$ 15 e US$ 20 por tonelada.
“A partir do momento em que a regulação evoluir, surge uma nova alavanca de crescimento forte para a Orizon. Hoje já recebemos milhões de toneladas de resíduos por ano e temos potencial para extrair ainda mais valor desse volume.”
Embora reconheça o ambiente econômico desafiador, Pilão acredita que momentos de incerteza costumam criar oportunidades para empresas preparadas financeiramente.
“Quando o macro piora, surgem ativos e oportunidades que não existiriam em momentos de bonança.”
Por isso, a estratégia continua sendo preservar liquidez e evitar dependência de dívida.
"Privilegiamos o equity nesse momento enquanto a estrutura de juros estiver nesse patamar. É difícil fazer qualquer previsão em relação ao Brasil hoje. Temos eleições pela frente. O mercado internacional geopolítico está muito conturbado. Infelizmente, temos que trabalhar com pessimismo no cenário macro.”
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