Quem é Nelson Tanure e por que o empresário entrou na mira da PF no caso do Banco Master
Investidor conhecido por apostas agressivas, o polêmico empresário agora é citado em investigações sobre o Banco Master; entenda o fio que conecta o investidor à polêmica

É difícil circular pelo mercado financeiro brasileiro sem, em algum momento, tropeçar no nome de Nelson Tanure. Conhecido por operar em empresas estressadas e por protagonizar disputas societárias, o investidor sempre esteve no radar do mercado. Agora, Tanure entrou no radar da Polícia Federal, em investigações ligadas ao Caso Banco Master.
Na manhã desta quarta-feira (14), o empresário foi alvo de uma operação da PF que investiga supostos desvios bilionários.
Segundo reportagem do UOL, os investigadores apuram se Tanure teria recebido recursos desviados da instituição financeira e atuado como sócio oculto de Daniel Vorcaro, controlador do banco liquidado pelo Banco Central em novembro.
De acordo com a apuração do Seu Dinheiro, Tanure estava em férias desde o Natal quando foi surpreendido pela operação. Ao tentar embarcar em um voo doméstico nas primeiras horas do dia, acabou sendo alvo de busca e apreensão.
Seu telefone celular foi apreendido pelos agentes no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro.
No pano de fundo da investigação está uma engrenagem financeira complexa. O Banco Central teria identificado que recursos desviados do Banco Master circularam por fundos ligados à gestora Reag — já investigada na Operação Carbono Oculto, que apura lavagem de dinheiro para o crime organizado — e teriam como destino empresas de fachada associadas a Tanure.
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A ação com Tanure faz parte da segunda fase da Operação Compliance Zero, que busca “apurar a prática dos crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de capitais”. A operação incluiu medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores de mais de R$ 5,7 bilhões.
Segundo a defesa de Tanure, "o empresário, que tem décadas de experiência profissional no mercado de valores mobiliários, jamais enfrentou qualquer processo criminal em razão de suposta prática delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista".
A defesa também informou, por meio de nota, que o empresário não tem qualquer relação de natureza societária com o Banco Master, "do qual foi cliente nos últimos anos, nas mesmas condições em que é igualmente atendido por outras instituições financeiras conhecidas do mercado".
Declara ainda que a única medida que lhe foi imposta foi a apreensão de seu aparelho de telefone celular, "de modo que com isso o empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação".
O fio que conecta Nelson Tanure ao Banco Master
O foco da investigação sobre o Banco Master está no uso de estruturas financeiras sofisticadas, tanto em suspeitas de receber dinheiro desviado quanto em investimentos feitos no banco.
Uma reportagem do Valor Econômico revelou que o Banco Central identificou 36 empresas que teriam tomado empréstimos fictícios do Master, permitindo desvios estimados em R$ 11,5 bilhões por meio de fundos da Reag Investimentos.
Ao Seu Dinheiro, a defesa de Daniel Vorcaro negou qualquer envolvimento do Banco Master com “supostas fraudes, fundos ilícitos ou operações mencionadas na reportagem”, que “nunca foi gestor, administrador ou cotista dos fundos citados”.
A Polícia Federal avançou nesta manhã com a segunda fase da Operação Compliance Zero, cumprindo mandados de busca e apreensão contra Vorcaro, familiares, Nelson Tanure e João Carlos Mansur, fundador da Reag. Segundo as investigações, Vorcaro teria utilizado uma cadeia de fundos para realizar operações fraudulentas e desviar recursos por meio da gestora.
Uma fonte próxima ao banco relatou ao Seu Dinheiro que, em 2024, o Master ampliou de forma acelerada o número de fundos ligados à Reag, sem que fosse possível compreender claramente o objetivo ou o destino dos recursos.
Tanure, por sua vez, também teria recorrido à mesma engrenagem financeira. Além disso, a investigação aponta que o empresário teria recebido dinheiro desviado do banco através das operações dos empréstimos fraudulentos.
Um fundo ligado ao empresário, por exemplo, detinha R$ 366 milhões em debêntures da Banvox Holding Financeira, apontada como veículo usado por Vorcaro e Maurício Quadrado para investir no Master, de acordo com o Valor Econômico.
Do outro lado, Tanure teria aportado dinheiro no banco — cerca de R$ 2,5 bilhões desde 2020. Segundo a colunista Malu Gaspar, d’O Globo, Tanure teria realizado injeções bilionárias no banco por meio de fundos offshore, como o Estocolmo, o que poderia ter rendido ao empresário o controle da instituição — hipótese que ele nega frequentemente.
Ligação entre Nelson Tanure e o Banco Master na mira
Esta não é a primeira vez que Tanure aparece associado a controvérsias envolvendo o Banco Master.
Em 2024, a Polícia Federal abriu um inquérito, a pedido do Ministério Público Federal, para investigar se ele seria o controlador de fato da instituição — após denúncias da gestora Esh Capital.
À época, o MPF apontou indícios de uso de fundos e empresas interpostas para ocultar o controle societário e a participação de Tanure nas empresas em que investe, o que foi confirmado pela denúncia da Esh Capital.
Essa estratégia seria baseada em fundos que aplicam em outros fundos ou empresas — e o beneficiário final só é revelado com o questionamento de autoridades.
Outra conexão de Tanure com o Banco Master vem da Emae (EMAE4), Empresa Metropolitana de Águas e Energia, que confirmou a existência de CDBs emitidos pelo Letsbank, do Banco Master, entre seus ativos.
Nelson Tanure: um personagem conhecido — e controverso — do mercado
Figura polêmica e pouco afeita à exposição pública — embora frequentemente recaia sob os holofotes em temas polêmicos do mercado —, Nelson Tanure é daqueles nomes que dividem opiniões entre os corredores da Faria Lima e do Leblon.
Para alguns, é um especialista em “ressuscitar” empresas em dificuldades. Para outros, um investidor que prospera em ambientes de conflito, explorando estruturas societárias cinzentas e ativos estressados.
Em um podcast, Tanure já se definiu como alguém que investiu em mais de 200 empresas ao longo da carreira.
Hoje, o empresário figura como acionista relevante de companhias listadas como Light (LIGT3), Gafisa (GFSA3), Alliança Saúde (AALR3), Prio (PRIO3) e TIM Brasil (TIMS3) — muitas vezes em contextos de reestruturação ou disputa societária.
Em seu perfil profissional no LinkedIn, se apresenta como “um investidor brasileiro que atua em diversos setores”, com uma trajetória que vai de petróleo e gás a telecomunicações, passando por saúde, energia e imprensa.
Há quem credite seu maior acerto ao turnaround da antiga PetroRio — hoje Prio (PRIO3) —, da qual se tornou principal acionista em 2013. Mas também tem quem aponte fracassos emblemáticos, como a Gazeta Mercantil e a própria Light, concessionária de energia do Rio de Janeiro, que há anos enfrenta dificuldades financeiras e operacionais.
Boa parte das apostas de Tanure é feita por meio de fundos de participações, em estruturas que normalmente tornam difícil identificar o beneficiário final até que bastante tempo se passe.
Da engenharia ao petróleo e à saúde
Formado em Administração de Empresas pela Universidade Federal da Bahia em 1974, Tanure passou ainda por estudos na Universidade de Paris I, em meados dos anos 1970.
Seu primeiro grande negócio veio em 1980, com a Sequip, empresa de engenharia voltada ao setor de petróleo.
Nos anos 2000, ampliou sua presença para a área de comunicação, com a aquisição do Jornal do Brasil e o arrendamento da Gazeta Mercantil.
Em 2013, Nelson Tanure se tornou o principal acionista da petroleira HRT, que foi renomeada para PetroRio e hoje é conhecida como Prio.
Em 2016, entrou no capital da Oi (OIBR3), em um dos processos de recuperação judicial mais complexos da história do mercado brasileiro.
Entre 2020 e 2021, avançou sobre o setor de telecomunicações ao adquirir a Sercomtel e a Copel Telecom, formando a Ligga Telecom no Paraná.
No mesmo período, passou a abocanhar participações relevantes na Alliar — rebatizada depois como Alliança Saúde (AALR3) — até assumir o controle da operação. Hoje, a transação é alvo de processo na CVM.
- Leia também: Nelson Tanure cogita vender participação na Alliança (ALLR3) em meio a processo sancionador da CVM
No setor energético, reforçou posição na Light e, em 2024, apareceu novamente em um leilão estratégico: por meio do Fundo Phoenix, venceu a privatização da Emae, em São Paulo, por R$ 1,04 bilhão, assumindo a presidência do conselho da estatal recém-desestatizada.
Ambipar, Braskem e disputas recentes de Nelson Tanure
O nome de Tanure também esteve ligado às fortes oscilações das ações da Ambipar (AMBP3) nos últimos meses.
A escalada vertiginosa da ação gerou um trade multimilionário para fundos atribuídos ao empresário e levou a área técnica da CVM a levantar suspeitas de atuação coordenada entre ele e o fundador da companhia para inflar o preço das ações.
No ano passado, fundos ligados a Tanure ainda tentaram assumir o controle da Braskem (BRKM5), sem sucesso.
Outras polêmicas em volta do empresário
No fim de 2025, a CVM abriu um processo sancionador para investigar a oferta pública de aquisição (OPA) da Alliança Saúde realizada por Nelson Tanure.
Poucos dias depois, o empresário também passou a responder a uma denúncia do MPF por suposto uso de informação privilegiada em operações ligadas à Gafisa entre 2019 e 2020. A defesa de Tanure tentou mudar o foro do processo à época, citando suposta conexão com investigações ligadas ao Master.
É preciso lembrar que, ao longo dos anos, Tanure sempre negou ter qualquer participação ou influência no Banco Master, apesar de reconhecer relações comerciais com a instituição. Também afirmou, diversas vezes, que não exerce controle sobre o banco.
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