Com uma ou outra “infeliz”, o que esperar dos resultados das construtoras no quarto trimestre de 2025 e quem deve decepcionar na temporada?
Temporada do 4T25 deve reforçar a força das construtoras de baixa renda, enquanto empresas como Eztec e Tenda ainda enfrentam desafios específicos

“Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. A citação icônica de Liev Tolstói pode ajudar a dar contexto para as construtoras brasileiras na temporada de balanços do quarto trimestre de 2025 (4T25), que começa na próxima quinta-feira (5).
Enquanto as queridinhas dos analistas e gestores — como Cury (CURY3) e Direcional (DIRR3), por exemplo — surfam um cenário bem parecido com os bons ventos do Minha Casa Minha Vida (MCMV), as que enfrentam certa reticência do mercado sofrem cada uma com sua particularidade.
Segundo analistas, esse é o caso da Eztec (EZTC3) e até mesmo da Tenda (TEND3). À medida que primeira tem um problema de 'timing', a segunda sofre com pressão vinda da sua subsidiária, a Alea, embora não seja esperado um quadro de todo negativo para a companhia no trimestre.
No meio dos dois polos, no entanto, há também quem tenha motivo para se alegrar, mas ainda não muito. Quem se encaixa nessa categoria é a MRV (MRVE3). Veja abaixo os detalhes sobre o que esperar de cada uma das construtoras no 4T25.
O que esperar das construtoras no 4T25?
Começando pelo primeiro grupo, com as duas companhias adoradas no mercado. Ambas estão no segmento que tem sido quase uma unanimidade entre analistas e gestores nos últimos tempos: o de construtoras de baixa renda, na esteira do boom no MCMV.
Para a XP, o segmento deve entregar mais um trimestre de crescimento robusto apoiado em três pilares: um backlog (estoque) resiliente, ritmo saudável de obras e boa conversão dessas vendas em faturamento à medida que os projetos avançam. Esse conjunto deve resultar em uma expansão média de cerca de 32% na receita na comparação anual.
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Segundo os analistas, o grande diferencial nesta temporada não está exatamente na operação, que permanece sólida de forma ampla no segmento, mas sim na forma como cada empresa reconhece receita e administra sua estrutura de capital.
Nesse cenário, Cury e Direcional se destacam por combinar crescimento consistente de receita com expansão de margem bruta, o que se traduz em forte avanço do lucro.
Para o BTG Pactual, o segmento de baixa renda segue mostrando força: receita e lucro continuam avançando, mesmo com uma desaceleração pontual nas vendas no quarto trimestre.
O time de análise destaca que as empresas conseguiram manter o crescimento robusto sem sacrificar rentabilidade ao longo de 2025.
E, se a coisa está boa, tem como melhorar. Segundo o Citi, que também prevê um trimestre robusto para essas construtoras, um catalisador importante para 2026 é a expectativa de que o governo aumente tanto os limites de renda quanto os tetos de preço dos imóveis no âmbito do programa de habitação, o que deve ampliar a acessibilidade e o público elegível.
Direcional (DIRR3)
Indo caso a caso, o Santander projeta que a Direcional (DIRR3) reporte resultados fortes, com avanço de 28,9% na receita líquida, para R$ 1,2 bilhão, sustentada pelo forte volume de pré-vendas nos últimos 12 meses, mesmo após um pequeno tropeço no trimestre — para o qual os analistas esperam recuperação já nos primeiros três meses deste ano.
“Além disso, estimamos nova expansão de 68 pontos-base na margem bruta em relação ao trimestre anterior, para 40,7%, impulsionada pela eficiência de custos da companhia e por um ambiente de custos mais favorável”, escreve o time de análise em relatório.
Na visão da XP, o quarto trimestre também deve trazer uma leve expansão da margem bruta ajustada, para 42,2%.
Isso sinaliza que a companhia continua executando projetos contratados com rentabilidade elevada — ou seja, o chamado “backlog de margens” permanece preservado, indicando que as vendas realizadas no passado seguem sendo entregues com boa lucratividade.
Esse cenário deve sustentar um crescimento de 22% no Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) na comparação anual.
Confira as estimativas compiladas pela Bloomberg para a Direcional no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 239 milhões;
- Ebitda: R$ 341 milhões;
- Receita líquida: R$ 1,277 bilhão.
Cury (CURY3)
Ainda no grupão das ‘famílias felizes’ na onda do MCMV, a Cury (CURY3) deve reportar resultados fortes. Na visão do BTG Pactual, a receita líquida deve alcançar R$ 1,415 bilhão, crescimento de 37% na comparação anual e estável frente ao trimestre anterior. Esse desempenho deve ser sustentado pelo forte avanço das obras, o que impulsiona o reconhecimento de receita.
“Projetamos expansão sequencial da margem bruta para 40,1%, cerca de 100 pontos base (pbs) a mais em relação ao mesmo período do ano retrasado e 20 pbs maior que o trimestre imediatamente anterior”, diz o banco em relatório.
Isso deve proporcionar um salto de 44% no Ebitda em base anual, com margem Ebitda beneficiada por custos de construção ainda favoráveis. O lucro líquido deve crescer 57% ano a ano, para R$ 260 milhões, com expansão de 240 pbs nas margens na comparação anual.
Para o Citi, a queda nas despesas administrativas e comerciais também deve ajudar a impulsionar o Ebitda.
Confira as estimativas compiladas pela Bloomberg para a Cury no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 244,4 milhões;
- Receita líquida: R$ 1,411 bilhão;
- Ebitda: R$ 324,778 milhões.
MRV (MRVE3)
O Citi espera um 4T25 ligeiramente melhor para o conglomerado na comparação trimestral, com avanço de margens no negócio da incorporadora e números estáveis na Resia, o braço norte-americano da companhia, já que não houve venda de ativos no período.
O Santander projeta que a MRV (MRVE3) entregue um 4T25 consistente, reforçando os sinais de recuperação da operação brasileira.
“Estimamos receita líquida da MRV Incorporação de R$ 2,9 bilhões, alta de 31,9% na comparação anual e de 9,7% frente ao trimestre anterior, impulsionada pelo crescimento das pré-vendas e pelo avanço das obras”, destacam os analistas.
Para o banco, o trimestre deve consolidar a leitura de que o negócio principal da MRV está em processo de estabilização, com rentabilidade em melhora e dinâmica financeira mais equilibrada.
Para o Itaú BBA, após resultados operacionais sólidos no quarto trimestre, a projeção é que a receita líquida cresça 26% na comparação anual e que as margens brutas avancem cerca de 300 pontos-base ano a ano.
“Como consequência, projetamos que o lucro líquido da MRV alcance R$ 70 milhões (sendo R$ 160 milhões nas operações no Brasil), ante um prejuízo líquido de R$ 250 milhões no 4T24”, afirmam os analistas.
Confira as estimativas compiladas pela Bloomberg para a MRV no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 80 milhões;
- Receita líquida: R$ 2,766 bilhões;
- Ebitda: R$ 427 milhões.
Plano&Plano (PLPL3) e Tenda (TEND3)
Segundo o Santander, a Tenda (TEND3) deve sentir pressão vinda da Alea, divisão de casas pré-fabricadas do grupo, que ainda opera com margens brutas negativas — ou seja, o custo para construir e entregar as unidades segue superior à receita gerada por elas.
Na prática, isso significa que, mesmo com a operação principal da Tenda apresentando desempenho estável, o resultado consolidado acaba sendo prejudicado, já que os prejuízos da Alea reduzem a rentabilidade total da companhia.
O banco estima que a companhia tenha números mais fracos por causa disso.
Confira as estimativas compiladas pela Bloomberg para a Tenda no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 110 milhões;
- Ebitda: R$ 176 milhões;
- Receita líquida: R$ 1,211 bilhão.
Já para a Plano&Plano (PLPL3), o Santander também projeta um trimestre mais pressionado. A receita líquida deve alcançar R$ 1,0 bilhão, alta de 49,2% na comparação anual, sustentada pelo salto de 125,4% nas pré-vendas.
O ponto de atenção está nas margens: a estimativa é de margem bruta de 29,7%, queda de 78 pontos-base frente ao trimestre anterior, refletindo a estratégia de vender unidades com desconto para reduzir o nível de estoques e encerrar o ano com menos de 12 meses de oferta.
Mesmo assim, o lucro líquido deve somar R$ 121,8 milhões, avanço de 39% em relação ao ano passado, beneficiado também por menor peso das despesas comerciais, já que parte desses custos já havia sido reconhecida no trimestre anterior.
Confira as estimativas compiladas pela Bloomberg para a Plano&Plano no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 125 milhões;
- Ebitda: R$ 178 milhões;
- Receita líquida: R$ 959 milhões.
E as construtoras de média renda?
Segundo o Itaú BBA, as vendas das incorporadoras de média e alta renda tiveram um desempenho desigual no trimestre, o que acendeu um alerta sobre o nível de estoques.
Ainda assim, o volume vendido continuou firme e, com o avanço das obras, a expectativa é de crescimento de 6,5% na receita na comparação anual.
Os custos de construção seguem sob controle, o que deve manter as margens em um patamar saudável, perto de 31%. O lucro do setor também deve crescer, cerca de 12,6% em relação ao ano passado — embora o retorno ainda não seja suficiente para superar o custo de capital da maioria das empresas.
Entre as companhias, a Cyrela (CYRE3) é vista como o principal destaque e é a preferida do Itaú BBA no segmento.
Cyrela (CYRE3)
Vale lembrar que, embora seja tradicionalmente classificada entre as construtoras de média e alta renda, a Cyrela (CYRE3) vem ampliando de forma consistente sua presença no segmento popular.
Na prática, isso intensifica a exposição ao Minha Casa Minha Vida — e, consequentemente, oferece uma proteção adicional ao ciclo de juros, já que as taxas permanecem travadas no teto do programa mesmo em cenários de Selic elevada. Isso tem sido um ponto positivo destacado por gestores sobre a companhia.
Para a XP, a receita deve atingir R$ 2,621 bilhões no 4T25, com alta de 5% na comparação anual e de 23% frente ao trimestre anterior, sustentada pelo bom ritmo de vendas e pelo avanço das obras.
A margem bruta deve ficar em 33,8%, avanço de 0,4 ponto percentual em relação ao ano passado.
O Ebitda é projetado em R$ 557 milhões, queda de 14% na comparação anual e de 22% frente ao trimestre anterior, refletindo a normalização após um 3T25 inflado por efeitos não recorrentes.
Já o lucro líquido deve alcançar R$ 541 milhões, alta de 9% em relação ao quarto trimestre de 2024, mas recuo de 12% frente aos três meses imediatamente anteriores, justamente porque o esse período contou com ganhos extraordinários com a venda de ações da Cury.
Confira as estimativas compiladas pela Bloomberg para a Cyrela no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 487 milhões;
- Ebitda: R$ 580 milhões;
- Receita líquida: R$ 2,431 bilhões.
Eztec (EZTC3)
No grupo dos “infelizes do trimestre” a Eztec (EZTC3) deve ter resultado mais fraco sobretudo por uma questão de timing, segundo o Santander.
Parte dos lançamentos feitos no fim do ano deve ter o reconhecimento de receita transferido para o primeiro trimestre de 2026, o que reduz o volume contabilizado agora.
Como o setor utiliza o método de Percentual de Conclusão (PoC), as vendas só entram no balanço conforme o avanço das obras — e projetos ainda em estágio inicial contribuem pouco para o resultado imediato.
Na prática, isso significa menos receita reconhecida no 4T25 e, portanto, menor diluição de custos e despesas, o que acaba pressionando o lucro do período. A XP também destaca esse efeito como um dos principais fatores por trás do desempenho mais fraco esperado para a companhia no trimestre.
O BTG Pactual espera que a companhia reporte queda de 30% na receita líquida no período entre outubro e dezembro do ano passado, para R$ 300 milhões. O lucro também deve cair 14% ano a ano, para R$ 108 milhões, com retorno sobre patrimônio líquido de (ROE) de 9%.
Veja as estimativas compiladas pela Bloomberg para a Eztec no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 117 milhões;
- Receita líquida: R$ 382 milhões.
Moura Dubeux (MDNE3)
O Santander projeta um 4T25 forte para a Moura Dubeux (MDNE3). “Estimamos receita líquida de R$ 685,4 milhões, alta de 86,3% na comparação anual, impulsionada pelo reconhecimento de receitas de terrenos comprados à vista”, destaca o banco.
A margem bruta, porém, deve cair para 32,3%, recuo relevante frente ao trimestre anterior. Isso acontece porque, no 4T25, houve maior peso de terrenos pagos em dinheiro, enquanto no 3T25 a companhia havia se beneficiado mais de permutas físicas — que costumam ter impacto diferente nas margens.
Ainda assim, o lucro líquido deve alcançar R$ 104,8 milhões, crescimento de 131,7% em relação ao mesmo período do ano passado.
Veja as estimativas compiladas pela Bloomberg para a Moura Dubeux no 4T25:
- Lucro líquido: R$ 91 milhões;
- Ebitda: R$ 115 milhões;
- Receita líquida: R$ 565 milhões.
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