Casas Bahia abre a porta para recuperação judicial após prejuízo recorde de R$ 10 bilhões; entenda o que levou a varejista ao rombo
No balanço, a Casas Bahia também reconhece a existência de "incerteza relevante" sobre a capacidade de continuidade operacional

A Casas Bahia (BHIA3) registrou um prejuízo líquido histórico de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre de 2026. O balanço expôs o agravamento da crise financeira da varejista e levou a companhia a admitir que poderá recorrer novamente à recuperação extrajudicial ou até mesmo a uma recuperação judicial.
A varejista incluiu explicitamente essa possibilidade nas notas explicativas do balanço trimestral divulgado na madrugada deste domingo (16). No documento, a administração afirma que avalia "medidas de reorganização formal de seus passivos e obrigações, incluindo possível nova recuperação extrajudicial ou recuperação judicial".
Já na segunda-feira (17), a companha protocolou o seu pedido de recuperação judicial.
A Casas Bahia também reconhece a existência de "incerteza relevante" sobre a capacidade de continuidade operacional da companhia, diante da deterioração da liquidez, da restrição de crédito e da necessidade de reforçar caixa.
A gravidade da situação levou até a EY (Ernst & Young), auditora independente da companhia, a se abster de emitir conclusão sobre as demonstrações financeiras intermediárias, citando dúvidas relevantes sobre a continuidade dos negócios.
Na B3, as ações das Casas Bahia (BHIA3) encerraram a sexta-feira cotadas a R$ 0,66, com um valor de mercado da ordem de R$ 670 milhões.
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Como a Casas Bahia chegou ao prejuízo de R$ 10 bilhões?
O prejuízo assusta, mas a "boa" notícia é que a maior parte do rombo da Casas Bahia não veio da operação do varejo em si.
Na prática, a empresa continuou vendendo produtos. A receita líquida cresceu 1,6% em relação ao segundo trimestre do ano passado, para R$ 6,98 bilhões, enquanto a margem bruta avançou para 32,9%.
A melhora é reflexo de um mix de produtos mais rentável, como os eletrodomésticos da linha branca. Além disso, a Casas Bahia obteve melhor margem comercial de parcerias estratégicas e um aumento da receita de Ads (anúncios) para a Copa do Mundo.
O problema surgiu quando a companhia revisou completamente as perspectivas em meio a um cenário que se revelou ainda mais difícil do que o esperado.
Em resumo, a administração fala em três fatores que mudaram o jogo:
- a restrição crescente de crédito para o varejo;
- o fracasso de uma captação internacional considerada estratégica;
- o enfraquecimento do consumo, com a alta dos juros e do endividamento das famílias.
Diante desse cenário, a empresa reduziu compras de estoque, fechou 298 lojas e passou a operar com uma escala menor.
Os quatro fatores que explicam o prejuízo histórico
O chamado Plano de Transformação Fase 2 levou a Casas Bahia a reavaliar diversos ativos contabilizados no balanço e reconhecer perdas bilionárias.
1. Baixa de créditos tributários diferidos: R$ 5,7 bilhões
A Casas Bahia carregava cerca de R$ 5,7 bilhões em créditos tributários, baseados na expectativa de geração futura de lucros que permitiriam compensar impostos.
Após revisar as projeções, a companhia concluiu que já não havia evidências suficientes de que vai gerar lucro tributável para usar esses créditos.
Com isso, foi obrigada a retirar esses ativos do balanço. A baixa provocou uma despesa contábil de aproximadamente R$ 5,7 bilhões que atingiu diretamente o resultado.
2. Provisão contratual: R$ 1,839 bilhão
Outro impacto expressivo foi uma provisão de R$ 1,839 bilhão. Esse valor está relacionado à probabilidade de a Casas Bahia não atingir metas previstas em contratos de parcerias comerciais e financeiras.
3. Impairment e baixa de ágio: R$ 971 milhões
A empresa também revisou o valor de negócios e ativos. Como as projeções de crescimento e rentabilidade ficaram menos otimistas, a companhia reconheceu perdas por impairment de R$ 971 milhões em ágio e outros ativos intangíveis.
Na prática, a Casas Bahia reconheceu que determinados ativos valem hoje menos do que estimava anteriormente.
4. Custos da reestruturação e fechamento de lojas
A Fase 2 da reestruturação da Casas Bahia também trouxe despesas relevantes.
A empresa contabilizou aproximadamente:
- R$ 502 milhões em gastos de reestruturação;
- R$ 210 milhões com o fechamento de lojas e baixa de ativos;
- R$ 89 milhões em contratos de aluguel das unidades fechadas.
Recado do auditor
A situação é tão delicada que levou a EY (Ernst & Young), responsável pela revisão das demonstrações financeiras, a se abster de emitir uma conclusão sobre o balanço trimestral.
Vale lembrar que isso não significa que a auditoria tenha encontrado irregularidades contábeis. Mas os auditores também ressaltam o cenário de "incerteza relevante" que pode levantar "dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da companhia".
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Casas Bahia: operação gera caixa, mas liquidez preocupa
Mesmo sem os efeitos contábeis extraordinários, a Casas Bahia continuaria no vermelho. O resultado ajustado calculado pela própria administração indica prejuízo de quase R$ 1 bilhão no trimestre. Ou seja, os itens não recorrentes ampliaram drasticamente o rombo, mas não foram os únicos responsáveis pelo resultado.
Embora o prejuízo contábil tenha sido gigantesco, a empresa argumenta que parte relevante dessas perdas não representa saída imediata de caixa.
A companhia destaca que gerou R$ 1 bilhão de fluxo de caixa livre no segundo trimestre e R$ 4,1 bilhões nos últimos 12 meses. Além disso, reduziu a dívida líquida em R$ 4 bilhões na comparação anual.
Ainda assim, os números de balanço mostram uma situação delicada.
Após o prejuízo do segundo trimestre, a varejista passou a apresentar patrimônio líquido negativo de R$ 8,27 bilhões.
Os estoques caíram de R$ 5,4 bilhões para R$ 4,2 bilhões em apenas um trimestre, reflexo tanto da gestão de capital de giro quanto da dificuldade para recompor mercadorias diante das restrições de crédito.
O que a companhia pretende fazer agora
A administração das Casas Bahia afirma que seguirá buscando alternativas para reforçar a liquidez, reduzir despesas financeiras e reorganizar a estrutura de capital. Entre as possibilidades analisadas estão a monetização de ativos, negociações com credores e fornecedores e eventuais mecanismos formais de reestruturação de dívidas.
"Este trimestre espelha a realidade dos desafios que enfrentamos: capital circulante negativo, restrições de crédito e consumo pressionado exigem uma transformação estrutural. Não há atalhos."
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