Como o Mercado Livre (MELI34) pode continuar crescendo sem um sacrifício tão grande na rentabilidade? BTG aponta 4 caminhos
O pé atrás do mercado está justamente no quanto a empresa argentina de nascença e brasileira de coração está disposta a investir em nome do crescimento

Na música "Cotidiano", Chico Buarque descreve uma mulher que, todo dia, faz tudo sempre igual. A canção poderia muito bem servir de trilha sonora para o Mercado Livre (MELI34) — com uma pequena adaptação: todo trimestre, tudo sempre igual. E, no lugar de sacudir às seis horas da manhã, a companhia repete uma escolha já conhecida dos investidores: abrir mão de rentabilidade no curto prazo para sustentar o crescimento.
Nos resultados do segundo trimestre a coisa não foi diferente. E se a plataforma repete a narrativa, o mercado repete a reação, se frustrando ao ver o Meli fazer exatamente o que prometeu que faria. O problema é que na ânsia de crescer, a companhia abre mão de uma coisa muito preciosa para os investidores: margem. Ou seja, a parcela da receita que sobra depois de descontados custos e despesas.
Isso significa que o pé atrás do mercado está justamente no quanto a empresa argentina de nascença e brasileira de coração está disposta a investir em nome do crescimento. Quanto mais — seja intensificando frete grátis ou divulgando outras promoções —, menos margem.
Todo dia ela faz tudo sempre igual (mas pode mudar)
Esse cenário não parece mudar tão cedo para o Mercado Livre. No entanto, o BTG Pactual enxerga uma saída que pode virar o jogo no médio prazo, ou pelo menos amenizar a decepção dos investidores. Segundo o time de análise do banco, a tendência é que as margens melhorem no médio prazo e os investimentos não precisariam ser tão sacrificados.
Gastos em inteligência artificial (IA) são uma das peças que podem ajudar nessa equação. Segundo o BTG, os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia já começaram a aparecer nas despesas operacionais do Mercado Livre.
Entre abril e junho, as despesas operacionais como proporção da receita caíram 260 pontos-base em relação aos três primeiros meses do ano. O destaque ficou justamente para os gastos com desenvolvimento de produtos, que recuaram cerca de 120 pontos-base na comparação anual como percentual da receita, movimento apoiado pelos ganhos de produtividade com IA.
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Ou seja, a tecnologia pode ajudar o Mercado Livre a crescer sem fazer as despesas avançarem na mesma velocidade. Se os ganhos de produtividade com IA continuarem, a companhia pode ganhar eficiência e aliviar parte da pressão sobre as margens, mesmo sem tirar o pé do acelerador dos investimentos.
Mas essa não é a única carta na manga do Mercado Livre. O BTG também aponta para a publicidade, uma frente ainda pouco monetizada dentro do ecossistema. A receita com anúncios cresceu 62% na comparação anual, em moeda constante, e já equivale a cerca de 3% do volume bruto de mercadorias (GMV).
Em outras palavras, o Mercado Livre pode ganhar mais dinheiro em cima de uma estrutura e de uma base de usuários que já possui. Conforme a publicidade ganha espaço dentro do ecossistema, essa receita adicional tende a exigir proporcionalmente menos gastos do que outras frentes do negócio, ajudando a companhia a recuperar margem sem precisar sacrificar o crescimento.
Há ainda uma terceira avenida: a própria logística que hoje pesa sobre a rentabilidade. A expectativa é que, conforme os volumes cresçam e a rede ganhe densidade, a escala do fulfillment ajude a reduzir o custo por unidade. Assim, o investimento que hoje aperta as margens pode, mais à frente, ajudar a recuperá-las.
A fintech completa essa equação
A carteira do Mercado Crédito avançou 75% em um ano, para US$ 16,4 bilhões, enquanto os cartões já representam 47% desse montante. À medida que as safras de crédito amadurecem e as perdas se estabilizam, o banco espera uma melhora da rentabilidade dessa operação.
O problema é que, por enquanto, o tão esperado ponto de virada ainda não chegou. O próprio BTG afirma não enxergar uma inflexão clara no curto prazo. Ou seja, quem espera que o Mercado Livre abandone de uma hora para outra a estratégia de sacrificar margem para acelerar o crescimento provavelmente terá de esperar mais um pouco.
Para o banco, a grande questão daqui para frente nem é se o Mercado Livre continuará surpreendendo no crescimento do GMV. O que realmente pode mudar a música para os investidores é a confirmação de que a companhia está chegando ao ponto em que escala, densidade logística e integração da fintech começam a se transformar novamente em mais lucro.
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