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CEO admite erros na gestão da judicialização, enquanto bancos voltam a colocar em dúvida a recuperação da operadora após resultados muito abaixo das expectativas no segundo trimestre

Se gato escaldado tem medo de água fria, o investidor de Hapvida (HAPV3) tem mais é que temer as divulgações de balanço da operadora de saúde. A companhia está desabando na bolsa nesta quinta-feira (13) após publicar os resultados do segundo trimestre de 2026, na noite de ontem (12).
Por volta das 13h, as ações da empresa caiam mais de 23%, negociadas a R$ 7,32. No mesmo horário, o Ibovespa desacelerava 0,55%, a 166.566 mil pontos.
Cabe lembrar que essa não é a primeira (nem a segunda) vez que a ação derrete após a divulgação de um balanço. No terceiro trimestre do ano passado, por exemplo, a queda foi de 42%.
Depois de ter dado um breve sossego na última safra, com os planos da administração para virar o jogo, o mercado parece estar se dando conta de que o buraco é mais embaixo.
Diante da frustração, o CEO Luccas Adib não tentou colocar panos quentes sobre um dos principais problemas nos números de ontem: a judicialização.
Em teleconferência com investidores nesta quinta-feira (13), ele reconheceu que a operadora de planos de saúde e dentários errou na forma de lidar com o avanço das disputas judiciais e em evitar que esses processos se transformassem em custos maiores para a companhia.
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"Esse foi o principal detrator dos nossos resultados, que fez com que os números viessem abaixo do consenso. Aqui cabe uma autocrítica: estamos errando na execução e calibragem de alguns vetores. Nosso modelo de gestão jurídica não acompanhou o tamanho do desafio", afirmou o executivo durante a teleconferência.
Além disso, o trimestre continuou marcado por muitos dos problemas que a companhia enfrenta há algum tempo: alta utilização (sinistralidade), diversos contratos em condições econômicas desfavoráveis, elevado endividamento, perda de beneficiários, despesas corporativas elevadas e pressão persistente sobre os custos médicos.
Essa combinação explosiva fez com que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado da empresa caísse 37,2% em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 504,4 milhões.
O número veio 30% abaixo das estimativas do BTG Pactual, que classificou a cifra como a pior dos últimos cinco anos.
A companhia teve um prejuízo líquido 40,7% maior no trimestre em comparação anual, de R$ 217,1 milhões. Em base ajustada, a Hapvida reportou um lucro líquido de R$ 12,5 milhões, 94% menor do que os mesmos três meses de 2025. A sinistralidade de caixa aumentou 3 pontos percentuais (p.p) no ano, para 75,2%.
Para o Safra, o balanço da operadora trouxe "pouquíssimos" elementos para sustentar uma tese de recuperação no curto prazo e a deterioração foi generalizada.
Sobre a judicialização, Adib reconheceu que a própria estratégia adotada pela Hapvida para lidar com os processos contribuiu para agravar o problema.
Ele afirmou que a companhia levava as disputas até a última instância de forma indiscriminada, sem priorizar os casos ou considerar adequadamente a "qualidade do direito" envolvido — ou seja, sem avaliar em quais situações fazia sentido continuar recorrendo e em quais seria mais eficiente buscar uma resolução antes.
Segundo Adib, essa forma de condução acabou resultando em liminares e bloqueios judiciais que poderiam ter sido evitados.
Segundo a companhia, houve mais despesas relacionadas a depósitos cíveis, o que elevou o sinistro judicial em R$ 37,4 milhões na comparação com os três primeiros meses do ano, para R$ 135,4 milhões. Esse movimento contribuiu para pressionar os custos assistenciais e a sinistralidade caixa no período.
O efeito também apareceu nas despesas administrativas. As contingências e tributos passaram de R$ 185,4 milhões no primeiro trimestre para R$ 237,7 milhões no segundo, uma piora de R$ 52,3 milhões, explicada principalmente pelo aumento das contingências cíveis e, em menor medida, por um evento trabalhista pontual de R$ 14 milhões.
Considerando a composição total das contingências e tributos antes do efeito do sinistro judicial e dos itens extraordinários, o montante chegou a R$ 359,2 milhões, equivalente a 4,5% da receita líquida, ante R$ 283,4 milhões, ou 3,6% da receita, no trimestre anterior.
Tanto BTG Pactual, quanto Itaú BBA e Safra destacaram esse como o grande problema nos resultados de abril a junho deste ano.
Fora os impactos no balanço em si, os bancos enxergam a judicialização como a principal fonte de incerteza para os resultados futuros da empresa, já que tornou muito mais difícil projetar um nível “normal” de lucro da Hapvida.
A questão agora é colocada como um dos principais obstáculos para a recuperação da empresa.
A judicialização está longe de ser a única dor de cabeça da Hapvida. Um pente-fino da administração encontrou problemas que vão dos contratos pouco rentáveis à ociosidade da rede própria — e a ordem agora é priorizar margem e geração de caixa, mesmo que isso custe parte da base de clientes.
Um dos principais focos está justamente nos contratos que não entregam retorno suficiente para a operadora.
A companhia identificou cerca de 947 mil beneficiários, o equivalente a 11% da carteira de planos de saúde, enquadrados nos novos critérios mais rígidos de rentabilidade e inadimplência. O tíquete médio desse grupo corresponde a aproximadamente metade da média da carteira.
A Hapvida pretende aproveitar os próximos ciclos de renovação para tentar reequilibrar esses contratos por meio de reajustes. Se a conta não fechar, a companhia admite abrir mão dos clientes.
Segundo o CEO, a partir de agora, crescer por crescer não é o objetivo da empresa. A nova prioridade do comercial é garantir que a expansão da carteira venha acompanhada de rentabilidade.
Essa revisão acontece justamente quando a Hapvida ainda perde clientes. A companhia encerrou junho com 8,668 milhões de beneficiários de planos de saúde, 16 mil a menos do que três meses antes. No entanto, a redução desacelerou frente à perda de 44 mil vidas registrada no primeiro trimestre deste ano.
Segundo Adib, a Região Metropolitana de São Paulo, que foi a primeira praça a receber a nova estratégia comercial focada em rentabilidade, já acumula cinco meses de adições líquidas positivas, enquanto o Rio de Janeiro está no azul há dois meses.
A próxima etapa prevê levar o modelo ao interior paulista, ao estado de Minas Gerais e à região Sul do país. Posteriormente a empresa deve levar essa mentalidade às grandes praças do Norte e Nordeste.
A companhia também decidiu voltar a disputar com mais força o segmento de maior renda. Em agosto, reativou a marca NotreDame como bandeira premium de planos de saúde, inicialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Esse pente-fino feito pela administração entra em um contexto maior para tentar reviver a Hapvida, promessa que a companhia já tenta cumprir há anos, como você pode conferir nesta reportagem do Seu Dinheiro.
Desta vez, a nova administração colocou recuperação das margens, geração de caixa e redução do endividamento no centro da estratégia — objetivos que, segundo Adib, passaram inclusive a ter peso relevante na remuneração dos executivos.
"Não é uma trajetória simples nem linear", reconheceu o CEO. Segundo ele, a companhia trabalha em uma série de iniciativas sobre receitas, custos e despesas, algumas com potencial de trazer resultados em até 90 dias e outras que levarão mais tempo para aparecer nos números.
Além da revisão dos contratos, a Hapvida iniciou uma verificação na rede própria e já racionalizou centenas de leitos ociosos. A companhia também pretende reduzir mais de 30 unidades, entre fechamentos e revisões de aberturas — esse movimento deve ser concluído nos próximos 60 dias.
Ao mesmo tempo, a empresa está revendo a relação com prestadores terceiros, renegociando valores e direcionando procedimentos para aqueles que oferecem melhores condições de preço e qualidade.
Em São Paulo, segundo Adib, 40% do custo cirúrgico já foi "empacotado" nos últimos 60 dias, estratégia que agora começa a ser levada para o Rio de Janeiro e o interior paulista.
"Esperamos que [as iniciativas] tragam frutos nos próximos meses rumo a um 2027 mais construtivo e previsível, não com promessas, mas com ações concretas já em andamento que devem entregar resultados", afirmou Adib.
Mas talvez o maior desafio da nova administração seja convencer o mercado de que agora as mudanças sairão efetivamente do papel.
O próprio histórico recente ajuda a explicar a cautela. No ano passado, depois de mais uma forte frustração com os resultados, gestores ouvidos pelo Seu Dinheiro já demonstravam cansaço em dar novas chances à companhia.
Na ocasião, a promessa também passava pela redução da judicialização, maior utilização da rede própria e recuperação da rentabilidade, melhorias que demoraram a aparecer nos números.
Os bancos ainda evitam comprar antecipadamente a nova promessa. O BTG Pactual diz que prefere esperar sinais mais efetivos da virada diante dos riscos de execução e dos desafios operacionais que permanecem.
Já o Safra afirma precisar de "substancialmente mais evidências" de uma recuperação estrutural antes de adotar uma visão mais positiva para as ações.
O Citi, por sua vez, destacou que continua vendo méritos nas recentes mudanças na administração mas reconhece que a ausência de detalhes quantitativos concretos e os recentes problemas de execução fazem com que os investidores não estejam dispostos a dar à empresa o benefício da dúvida.
Assim, a recomendação de BTG Pactual, Itaú BBA, Safra e Citi para a ação é neutra.
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