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Após um trimestre marcado por queda no lucro e pressão sobre a rentabilidade, Alexandre Birman defende que parte da piora foi provocada pela própria Azzas para corrigir estoques e preparar a companhia para uma retomada no segundo semestre

O segundo trimestre da Azzas 2154 (AZZA3) não é exatamente uma fotografia que o CEO Alexandre Birman gostaria de colocar em um porta-retratos.
A gigante da moda viu o lucro líquido recorrente cair 62,5% o ano, enquanto o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) recorrente diminuiu quase 30% — e esses foram apenas alguns dos números que desagradaram o mercado. Com isso, a ação fechou o dia em queda de 3,90%, negociada a R$ 15,26.
O próprio Birman não tentou esconder a insatisfação. Durante a teleconferência de resultados nesta quinta-feira (13), ele conduziu a conversa em um agudo tom de desânimo e reconheceu que o desempenho operacional “não reflete a força das marcas”, além de admitir que a companhia tem desafios de receita, Ebitda e rentabilidade pela frente.
"É óbvio que esse número nos deixa desconfortáveis, mas nós temos controle sobre ele. Essa é uma empresa feita para o longo prazo e o resultado pontual de um trimestre nos deixa, obviamente, muito insatisfeitos, mas com ainda mais garra e disposição para lutar em busca de performance", disse o executivo, que lidera a empresa dona de marcas como Arezzo, Schutz, Farm, Animale e Hering.
Mas, se a fotografia do trimestre é ruim, o CEO argumenta que parte dela foi tirada assim por decisão da própria Azzas. A companhia optou deliberadamente por pisar no freio das vendas para franqueados, mesmo sabendo que a medida teria impacto sobre a receita e a rentabilidade no curto prazo.
A estratégia teve como objetivo atacar um problema que vinha se acumulando desde o fim de 2024: o excesso de estoques na rede de franquias.
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Em vez de continuar enviando novas coleções no mesmo ritmo, a Azzas reduziu o chamado sell-in — as vendas da companhia para os franqueados e multimarcas — para dar espaço para que os lojistas vendessem os produtos que já estavam nas prateleiras.
O resultado disso foi uma queda de 13,6% nos canais sell-in em comparação com o mesmo período do ano passado.
O problema, na visão do mercado, é que mesmo sendo em parte um ajuste dos canais de distribuição, a queda do sell-in atingiu diretamente a receita da Azzas e, com menos vendas para diluir os custos fixos da operação, também contribuiu para pressionar a rentabilidade no trimestre.
Do outro lado, porém, as vendas ao consumidor final (sell-out) recuaram 1,9% — praticamente estáveis, com alta de 0,3% quando desconsiderada a divisão Basic, onde está a Hering, hoje um dos principais pontos de atenção do grupo. As lojas próprias da Azzas, inclusive, ainda registraram crescimento de 0,9% no período.
O contraste fica ainda mais evidente em Shoes & Bags. Enquanto o sell-in da divisão despencou 21%, o sell-out recuou apenas 1,9%. Nas lojas próprias, as vendas cresceram 4,1%, puxadas principalmente pela Arezzo e pela Schutz, que avançaram 12,3% e 7,7%, respectivamente.
“Por mais que afete o nosso resultado de curto prazo, os números mostram como estamos apoiando nossos franqueados devido, obviamente, a uma correção de curso de sobras de coleções passadas, que não é positiva”, afirmou Birman.
A aposta agora é que o sacrifício feito no primeiro semestre comece a dar retorno. Birman afirmou que “a maior correção” necessária para recuperar o sell-in já foi feita e prevê uma equalização no desempenho já no terceiro trimestre.
"A gente entra no segundo semestre buscando um salto de performance, seja em crescimento, que obviamente não será estratosférico, mas principalmente em rentabilidade e continuando focado na geração de caixa", disse Birman.
O CEO sustenta que a parte mais dolorosa do ajuste ficou para trás. Com os estoques dos franqueados mais equilibrados, a expectativa é que a retomada do sell-in ajude não apenas as vendas, mas também a rentabilidade — já que franquias e multimarcas têm custos relativamente baixos para a companhia.
Para os analistas de mercado, arrumar os estoques pode fazer sentido para o futuro, mas a conta chegou no presente. Na visão do BTG Pactual, a queda mais forte do sell-in pressionou a receita e provocou uma desalavancagem operacional que mais do que compensou a melhora da margem bruta.
Embora o time de análise reconheça que parte desse movimento tenha sido deliberada e que o sell-out mais resistente seja um sinal positivo, o banco ainda quer "pagar para ver".
A cautela é compartilhada pelas demais casas. A XP avalia que os muitos ajustes em andamento devem manter os investidores à margem até surgirem sinais mais claros de inflexão, enquanto o Citi afirma que a melhora do caixa não apaga a deterioração operacional e reforça a urgência do turnaround.
O banco também chama atenção para a fraqueza de Fashion Women, historicamente um dos motores de crescimento da Azzas, como você pode entender com mais detalhes nesta reportagem do Seu Dinheiro.
Já o JP Morgan reconhece que a queda forte do sell-in, ante a modesta desaceleração do sell-out, é compatível com a estratégia de normalização dos estoques, mas alerta que a contração das vendas provocou forte desalavancagem operacional. A casa vê ainda um segundo semestre mais desafiador do que esperava para o setor de vestuário.
Mas nem tudo desagradou. A geração de caixa foi apontada pelo BTG como o principal destaque positivo do balanço. O fluxo de caixa operacional chegou a R$ 357 milhões, mais de três vezes os R$ 106 milhões registrados um ano antes.
O ciclo financeiro também melhorou em 31 dias, puxado justamente pela normalização dos estoques, enquanto os investimentos recuaram 18,9%. Esses são sinais de que a arrumação da casa começa a aparecer no caixa — resta saber quando ela também chegará às vendas e à rentabilidade.
Se a limpeza de estoques é uma das apostas da Azzas para deixar os problemas do primeiro semestre para trás, a Hering talvez seja o exemplo mais emblemático desse processo.
A marca é o grande gargalo da companhia há anos, sendo justamente os estoques um dos seus grandes problemas.
Birman reconheceu que a Hering não enfrenta apenas uma questão operacional: nos últimos anos, ela também se afastou de parte do público que historicamente ajudou a construir seu tamanho no Brasil.
“Nós tivemos um problema de branding na Hering, pois ela teve um desvio do seu público core. A marca se tornou muito premium e estava perdendo share nas classes B e C”, afirmou Birman.
A estratégia agora passa justamente por fazer o caminho de volta. Segundo o CEO, a companhia quer manter a qualidade dos produtos e da comunicação, mas tornar a marca novamente mais acessível e democrática, inclusive com preços de entrada menores.
Um dos exemplos é a nova camiseta Brasil, com lançamento previsto para setembro por R$ 49,90, valor 38% menor que o produto anterior, segundo a companhia.
Antes de voltar a acelerar, porém, a Azzas também precisou atacar os estoques da Hering. A cobertura caiu de 214 dias de receita entre abril e junho do ano passado para 149 dias no segundo trimestre deste ano, chegando perto da meta de cerca de 130 dias.
Birman falou, inclusive, que a companhia pode ter pesado a mão: alguns produtos de inverno, como moletons e puffers, chegaram a faltar depois de uma redução deliberada das compras.
A contrapartida apareceu no caixa. A unidade gerou R$ 166 milhões no primeiro semestre, depois de consumir R$ 163 milhões no mesmo período de 2025.
Para o CEO de Azzas, os ajustes de posicionamento e estoques colocam a Hering em condições de voltar a crescer, embora a recuperação ainda seja um trabalho em andamento.
"Nós temos hoje um trabalho de precificação muito assertivo, então não haverá grandes saltos no crescimento de margem no segundo semestre. Ela vai continuar em um patamar positivo, de crescimento, mas sem grandes alavancas. Não tem uma bala de prata. É um trabalho constante, de evolução gradual, mas com controle absoluto do time em relação a esse ponto", afirmou Birman.
Para 2027, a Azzas já enxerga novas frentes de crescimento, entre elas a Hering Sports, que, segundo a administração, vem apresentando bons níveis de giro e sell-out e já começou a chegar a um número maior de lojas.
Em meio aos ajustes na operação, o futuro da Farm também entrou no radar. A Azzas já havia contratado o Morgan Stanley para avaliar alternativas estratégicas para a marca, em um movimento que pode resultar na entrada de um sócio ou até em uma eventual venda — ou mesmo abrir espaço para uma cisão de Azzas 2154, como explico no vídeo abaixo, do quadro Seu Dinheiro Explica.
Birman reforçou que o processo ainda está em fase de preparação e que nenhuma decisão foi tomada. Segundo o CEO, a avaliação está ligada justamente à necessidade de encontrar uma maneira de financiar e sustentar um novo ciclo de crescimento global da Farm, depois de anos de investimentos pesados na expansão da marca.
“A gente está no momento dessa transição entre um ciclo muito virtuoso, que foi um investimento muito forte feito entre os dois anos da marca, e um certo platô desse crescimento, devido a realmente já serem valores muito altos”, afirmou o executivo.
De acordo com Birman, a Farm praticamente dobrou de tamanho entre 2024 e 2026 e deve alcançar cerca de R$ 3,5 bilhões em faturamento global neste ano. Depois dessa arrancada, o crescimento tende a se estabilizar antes de um novo ciclo de investimentos.
Apesar da desaceleração, Birman afirmou que a saúde da operação continua boa. O nível de estoques da Farm é, segundo ele, “extremamente sadio”, com giro rápido, enquanto a operação internacional cresceu 4,3% em dólares no trimestre.
No exterior, a companhia também aposta em ações para ampliar o alcance da marca. Os pop-ups europeus têm superado as expectativas da gestão, enquanto a Farm prepara novas iniciativas para o segundo semestre, incluindo uma colaboração envolvendo Adidas e Real Madrid.
“O que vocês vão ter da Farm no segundo semestre é uma collab internacional fortíssima, que a gente lança ainda no segundo semestre de 2026, da Farm com a Adidas, com o Real Madrid, então vai ser muito forte", disse Birman.
No entanto, a divisão Fashion Women, que abriga a Farm, registrou queda de 2,8% na receita bruta no segundo trimestre, depois de avançar cerca de 20% um ano antes.
A desaceleração chamou a atenção do Citi justamente porque a unidade tem sido historicamente um dos principais motores de crescimento da Azzas. Além da base de comparação mais difícil, o desempenho foi pressionado pelos ajustes de sell-in e por um consumidor mais cauteloso no canal multimarcas.
Ainda assim, as vendas ao consumidor final mostraram maior resistência, com destaque para o crescimento de Cris Barros e NV.
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