El Niño pode virar conta salgada para as seguradoras, mas há uma “proteção” que poucos investidores estão olhando
Fitch alerta para maior vulnerabilidade do campo, mas revela por que não vê risco sistêmico para as seguradoras

Para quem investe em seguradoras na bolsa, o El Niño pode trazer uma variável incômoda para os próximos balanços: um clima mais extremo significa mais sinistros — e potencialmente mais pressão sobre o balanço.
Enchentes, tempestades, secas e ondas de calor tendem a ganhar força e frequência com o fenômeno, aumentando a conta das indenizações e pressionando a sinistralidade das companhias.
Mas, segundo a Fitch Ratings, isso não significa que o setor esteja diante de uma tempestade financeira.
A agência de classificação de risco avalia que o El Niño deve pesar sobre o desempenho técnico de algumas seguradoras, mas que ele não tem força, sozinho, para colocar a indústria em xeque.
Além disso, a conta do evento climático não será igual para todo mundo. O impacto deve variar bastante conforme a região do país e o tipo de seguro — o que pode fazer com que algumas companhias sintam mais no bolso do que outras.
O mapa de riscos do El Niño
O Brasil tem uma espécie de mapa de riscos próprio. Pela dimensão continental e pela diversidade climática, os efeitos do El Niño mudam bastante de uma região para outra.
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No Sul, o maior perigo está em enchentes, tempestades, vendavais e granizo, com potencial para aumentar os sinistros em seguros patrimoniais e de automóveis.
No Norte e no Nordeste, a combinação de seca e calor extremo pode atingir atividades econômicas e carteiras ligadas ao agronegócio, além de provocar perdas indiretas, segundo a Fitch.
Já no Centro-Oeste, o seguro rural aparece entre os segmentos mais vulneráveis, diante do risco de irregularidade hídrica, quebra de produtividade e maior volatilidade climática.
É justamente no campo que aparece um dos principais pontos de atenção da Fitch.
Seguro rural é o ponto mais sensível, diz Fitch
Entre os diferentes segmentos, o seguro rural está entre os mais expostos ao El Niño. O motivo é que o fenômeno pode produzir efeitos opostos dependendo da região: seca em algumas áreas e excesso de chuva em outras.
Acontece que essa exposição ao risco acontece justamente em um momento em que a proteção financeira dos produtores no campo diminuiu.
A área agrícola segurada no Brasil chegou ao pico de aproximadamente 14 milhões de hectares em 2021, equivalente a cerca de 15% da área cultivada no país. Em 2025, porém, havia recuado para cerca de 3,2 milhões de hectares, ou aproximadamente 3% da área plantada.
Isso representa uma queda de cerca de 75% na área agrícola protegida por seguros.
Segundo a Fitch, a redução da área segurada, somada ao menor alcance do programa de subvenção do governo, aumenta a vulnerabilidade dos produtores aos efeitos do clima e eleva a parcela de perdas no setor que permanece sem cobertura.
Menos seguros também limitam o impacto nas seguradoras
A baixa penetração dos seguros é ruim para quem sofre uma enchente ou uma tempestade sem ter uma apólice para dividir o prejuízo. Mas ela também limita o tamanho da conta que chega diretamente às seguradoras.
Isso porque uma parcela relevante das perdas provocadas por eventos extremos simplesmente não está coberta pelo mercado formal de seguros.
Atualmente, apenas cerca de 30% da frota nacional de veículos e 17% das residências brasileiras possuem seguro.
Ou seja, diante de uma enchente ou tempestade de grandes proporções, boa parte dos prejuízos permanece com o próprio consumidor, empresas ou poder público — e não com as seguradoras.
É um fator que ajuda a explicar por que a Fitch não considera o El Niño, isoladamente, uma ameaça sistêmica para o setor.
A conta pode aparecer nas margens — e nas apólices
Isso não significa, porém, que as seguradoras possam simplesmente esperar o clima decidir o tamanho do próximo cheque.
A Fitch avalia que os fundamentos do setor continuam sólidos, com geração robusta de lucros e companhias que já vêm adotando medidas para lidar com a maior frequência e intensidade dos eventos climáticos.
O principal impacto deve aparecer nas margens técnicas, especialmente entre as empresas com maior concentração geográfica ou exposição a produtos mais sensíveis a catástrofes naturais.
E é aí que o risco climático pode começar a chegar mais perto do bolso do investidor.
Segundo os analistas, a tendência é que as seguradoras respondam com uma combinação de preços mais altos e maior seletividade.
A Fitch espera reprecificação de produtos, revisão das condições de cobertura, ajustes de franquias, critérios de subscrição mais rígidos e maior utilização de resseguro.
Em outras palavras, onde o risco ficar caro demais, a seguradora pode cobrar mais para assumi-lo — ou simplesmente reduzir sua exposição.
A agência também prevê maior seletividade em regiões e produtos cuja relação entre risco e retorno tenha piorado.
Para os analistas, outra frente deve ganhar importância dentro das seguradoras: a prevenção.
A Fitch espera aumento dos investimentos em modelagem de catástrofes e prevenção de perdas, à medida que as seguradoras tentam antecipar melhor os riscos em vez de apenas reagir quando o sinistro já aconteceu.
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