R$ 4,50 ou R$ 5,80? O gatilho que vai definir o preço do dólar depois das eleições
O Goldman Sachs traçou dois cenários bem distintos para o câmbio quando a corrida presidencial acabar; confira o fator decisivo para as cotações depois de outubro

Faltam poucos dias para o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, com um eventual segundo turno em 25 de outubro. O dólar segue como um dos assuntos mais comentados do momento, mas para onde vai a moeda norte-americana depois que a poeira da corrida presidencial baixar?
O Goldman Sachs tenta responder essa pergunta com números — e pode surpreender quem espera uma conta simples de "se ganhar o candidato X, dólar sobe; se ganhar o candidato Y, dólar cai".
A conclusão do banco norte-americano é que um desfecho percebido pelo mercado como favorável, ou seja, que sinalize o compromisso do governo com o ajuste das contas públicas, será o grande impulsionador do câmbio depois da eleição.
Nesta quarta-feira (23), o dólar à vista fechou cotado a R$ 5,1682, um alta de 1,28%. No mês, no entanto, a moeda norte-americana acumula queda de 0,23% e, no ano, baixa de 5,84%.
O dólar a R$ 4,50 é possível
Nas contas do Goldman, o compromisso fiscal de quem assumir o Palácio do Planalto nos próximos quatro anos pode levar o dólar para uma faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,80, o que o banco chama de cenário market-friendly (favorável ao mercado).
Para chegar a esses números, os analistas usam um modelo próprio que tenta explicar as variações do real por fatores como preços de commodities, juros e risco-país — separando o que é clima global do que é fator específico do Brasil.
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Segundo o banco, desde 2024, o real vem sendo negociado com um prêmio que reflete a desconfiança do mercado com o rumo fiscal do país. No auge, em dezembro de 2024, esse prêmio chegou a cerca de 19%. Atualmente, está em 5,3%.
Na prática, R$ 4,80 seria o valor consistente com esse prêmio de desconfiança sumindo por completo. Já R$ 4,50 é o piso da faixa considerada plausível pelo Goldman nesse cenário mais otimista.
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E se o mercado não gostar do resultado?
Aqui está o outro lado da moeda — literalmente.
Se o desfecho eleitoral for lido como um sinal de que o ajuste fiscal não vai andar, o Goldman projeta que o dólar pode voltar a R$ 5,80 — um patamar que reproduziria o mesmo nível de desconfiança visto em dezembro de 2024, quando houve o pico mais recente de estresse cambial.
O banco também considera um valor intermediário: se o prêmio embutido no real voltar ao nível de setembro de 2024, por volta de 10%, o dólar iria a cerca de R$ 5,40.
E um cenário muito otimista, baseado na comparação com a eleição colombiana deste ano, apontaria o dólar a R$ 4,35, um recuo de 15,7% em comparação com a cotação atual.
Vale uma nota importante: o próprio banco trata a projeção de R$ 4,35 como uma referência de limite superior pouco provável, já que a Colômbia tinha problemas fiscais mais graves do que os do Brasil antes da eleição.
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O detalhe do dólar (que muita gente ignora)
Aqui vai o ponto que talvez seja o mais útil para você guardar: o Goldman é bem direto ao dizer que não é a vitória de um ou outro candidato, isoladamente, que vai definir o preço do dólar — e sim as decisões de política econômica tomadas depois da eleição.
O banco reforça essa ideia analisando as últimas eleições brasileiras. Em 2014 e 2022, o dólar teve movimentos fortes logo após o primeiro turno — e depois essas mudanças de rumo se reverteram antes do segundo turno. Em 2018, o real chegou ao ponto mais forte na sexta-feira anterior ao segundo turno.
O motivo, segundo o banco, é que o mercado costuma reagir rápido ao resultado da urna, mas logo muda o foco para o que realmente importa: quem vai compor o ministério, se as reformas propostas vão andar no Congresso, se as metas fiscais vão ser cumpridas.
Um exemplo citado pelo Goldman é o que aconteceu em 2014. Mesmo após a reeleição da então presidente Dilma Rousseff — recebida com desvalorização do real —, a indicação de um time econômico mais ortodoxo fez a moeda brasileira se valorizar semanas depois.
Em 2018, o mercado só voltou a reagir de fato quando ficou claro que a reforma da Previdência avançaria mais devagar que o esperado.
O pano de fundo que mexe com o dólar
O Goldman também descreve o pano de fundo econômico atual: o Brasil vive uma combinação de política monetária apertada (juros altos) com política fiscal frouxa (gastos elevados).
Segundo os dados citados, o déficit fiscal nominal está acima de 9% do Produto Interno Bruto (PIB) — o maior nível em 25 anos —, ainda que o déficit primário, hoje perto de 0,7% do PIB, esteja distante do superávit que os economistas do banco estimam ser necessário para estabilizar a dívida pública (entre 2% e 3% do PIB).
Essa combinação — juros altos financiando um buraco fiscal que não fecha — é, segundo o Goldman, insustentável no longo prazo.
É justamente por isso que a eleição ganha peso: o pleito é visto como um ponto de virada em que o país pode (ou não) sinalizar um caminho mais responsável para as contas públicas.
E o investidor nisso tudo?
Se você tem dólares guardados, pretende viajar para fora, importa produtos ou simplesmente acompanha o câmbio porque ele mexe com a inflação e o preço das coisas no Brasil, o recado do Goldman é: não olhe só para quem vence a eleição — olhe para o que vem depois dela.
E, segundo o histórico das últimas eleições, é bem possível que o dólar faça um movimento de vai e volta nas semanas entre o primeiro e o segundo turno — antes de acomodar de vez com base nas medidas concretas que forem anunciadas.
Vale lembrar: o próprio banco pondera que o cenário externo — como o comportamento do dólar no mundo e os preços de commodities — também vai pesar nessa conta.
Ou seja, mesmo o resultado interno mais favorável não garante, sozinho, um real mais forte se o ambiente lá fora piorar.
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