Lula turbina Bolsa Família em 15% e faz o Ibovespa perder 3 mil pontos. Por que o mercado torceu o nariz?
Entenda a reação dos investidores e a resposta de Lula a poucas semanas do 1º turno das eleições

O efeito positivo de Wall Street sobre o Ibovespa durou pouco nesta quinta-feira (17). O principal índice da bolsa brasileira abriu em alta, mas perdeu quase 3 mil pontos logo depois, na esteira do anúncio de um reajuste de 15% no programa Bolsa Família feito pelo governo federal. A medida foi confirmada a apenas 17 dias do primeiro turno da eleição presidencial.
Com o reajuste, o benefício mínimo sobe de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio pago às famílias passa de R$ 675 para R$ 777. O impacto fiscal previsto pelo Ministério do Planejamento e Orçamento é de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 (a partir de outubro) e de R$ 22 bilhões em 2027.
Em um cenário de atenção com a trajetória da relação dívida/PIB, o aumento nos gastos acentuou a desconfiança do mercado quanto ao rigor fiscal do país, impactando diretamente as ações na B3, o câmbio e a curva de juros.
“Sem dúvidas, temos um impacto fiscal. O governo vai ter que ajustar o orçamento para o ano que vem. E isso mexe com os mercados. A gente vê a bolsa, que estava subindo, cair e a curva de juros e o dólar reagindo, seja pela questão fiscal, seja porque isso pode ser interpretado como algo que pode aumentar as chances do Lula nas eleições, sobretudo no segundo turno”, disse Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Bolsa, dólar e juros em xeque
O Ibovespa abriu o dia estável e rapidamente renovou a máxima intradia. No entanto, na esteira do anúncio aumento do Bolsa Família, o principal índice da bolsa brasileira virou para o campo negativo e renovou mínimas, despencando quase 3 mil pontos, ou 1,24%.
Dos 76 papéis da carteira teórica, apenas oito operam em alta, e a maioria das blue chips do setor financeiro recua, lideradas por Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3). As exceções eram Itaú (ITUB4) e BTG Pactual (BPAC11).
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Além do fator fiscal interno, o mercado acionário se ajustou às decisões de política monetária no Brasil e no exterior.
Nos EUA, o Federal Reserve (Fed) elevou a taxa de juros em 0,25 ponto percentual pela primeira vez em três anos, para a faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano. Confira aqui os detalhes da decisão.
Por aqui, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, como esperado. Confira aqui os detalhes da decisão.
No mercado de câmbio, o dólar à vista subiu, chegando a atingir a casa de R$ 5,17 na máxima do dia. Já a curva de juros futuros teve uma reação forte: as taxas renovaram máximas e avançaram em todos os vértices, revertendo o alívio que registravam mais cedo.
Neste início de tarde, o Ibovespa recuperava parte das perdas e operava em alta, enquanto a moeda norte-americana mantinha o ritmo de ganhos em relação ao real.
Após reação na bolsa, Lula vai ao X
Sem realizar discursos ou cerimônias abertas no Palácio do Planalto, o anúncio do reajuste foi conduzido tecnicamente pelo ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti.
No entanto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou sua conta oficial na rede social X para defender a medida e explicar as motivações do governo.
Na publicação, Lula afirmou que o reajuste visa recompor as perdas inflacionárias acumuladas desde o relançamento do programa, em março de 2023.
Segundo Moretti, o reajuste tem amparo na lei do programa, que prevê a reposição para garantir o poder de compra.
O ministro informou que os R$ 5,8 bilhões necessários em 2026 e os R$ 22 bilhões previstos para 2027 serão absorvidos pelo espaço fiscal existente em ambos os exercícios.
Bolsonaro também reajustou em ano eleitoral
A concessão de aumentos expressivos em programas sociais às vésperas de uma eleição não é uma novidade na política recente do país. Há pouco mais de quatro anos, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) adotou uma postura semelhante durante a campanha de 2022.
Em 24 de junho de 2022, exatos 100 dias antes do primeiro turno daquele pleito, Bolsonaro anunciou um reajuste de 50% no valor do Auxílio Brasil (nome dado ao Bolsa Família em sua gestão), elevando a parcela de R$ 400 para R$ 600, além de incluir 2,2 milhões de novas famílias.
A medida começou a ser paga em agosto daquele ano e gerou um custo anual de R$ 14 bilhões que não estava previsto no Orçamento do ano seguinte.
Apesar da medida, Lula venceu Bolsonaro no segundo turno de 2022 e retomou a marca Bolsa Família. Agora, a 17 dias do primeiro turno de 2026, o petista adota uma tática parecida em meio a um cenário eleitoral acirrado contra o filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro (PL).
Pesquisas divulgadas nesta quinta mostram empate técnico entre os dois no segundo turno. Na Atlas/Bloomberg, Flávio Bolsonaro aparece com 47,2% e Lula com 46,8%, enquanto na Futura/100% Cidades, o senador tem 48,1% e contra 43,7% do petista.
A semelhança entre as gestões também reaparece na gestão das contas públicas: a proposta orçamentária para 2027 enviada pelo governo ao Congresso em agosto não continha qualquer previsão de reajuste para o Bolsa Família, que agora demandará um custo adicional de R$ 22 bilhões no próximo ano.
“O reajuste de 15% do Bolsa Família não é pouca coisa. Isso vai ter um efeito sobre a demanda, sem dúvidas. O argumento do governo é que eles vêm corrigindo pela inflação acumulada. Não é que não deva haver um reajuste, mas esse reajuste deveria ser um reajuste anual programado”, afirma Perri.
O economista-chefe da Forum também chama atenção para o momento em que o reajuste é anunciado. “O pagamento do Bolsa Família é feito nos últimos 10 dias do mês, e isso, em uma grande coincidência, vai acontecer nos mesmos dias em que acontece o segundo turno das eleições”, diz.
*Com informações do Money Times
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