Sangria na bolsa: Ibovespa perde mais de 3 mil pontos e dólar sobe; Treasury passa de 5%
Entenda os desdobramentos do salto do petróleo no mercado externo, o rali da renda fixa nos EUA e o trade eleitoral no Brasil

Nem o café mais forte ajuda o investidor, que viu o Ibovespa perder mais de 3.200 pontos logo na abertura dos negócios nesta segunda-feira (14) e renovar uma sequência de mínimas. Por aqui, só não ficou com o estômago embrulhado quem tem a carteira pesada em petroleiras — ou buscou alívio de um gole de Ambev (ABEV3) no meio do caos na bolsa.
O grande vilão do dia vem do exterior, com a escalada dos preços do petróleo. Diante do impasse diplomático entre EUA e Irã, do adiamento da reunião sobre a livre navegação no Estreito de Ormuz e da confirmação de que o oleoduto saudita atingido ficará semanas fora de operação, o barril do Brent saltou mais de 4%, superando os US$ 109.
Na B3, quase todos os ativos operam no vermelho. Na contramão, petroleiras — Petrobras (PETR4), Prio (PRIO3), Brava (BRAV3) e PetroReconcavo (RECV3) — surfavam a alta da commodity durante a manhã. A Ambev (ABEV3) também se destacava, avançando sustentada por um relatório favorável do Citi.
Segundo o banco norte-americano, os dados de agosto de inflação de cerveja no Brasil sugerem manutenção de um ambiente competitivo racional, sem sinais de retomada de uma disputa agressiva de preços.
No caso da Ambev, o Citi diz ver o dado como um sinal reconfortante do ponto de vista competitivo e de apoio à lucratividade da indústria, embora siga monitorando a tendência mais fraca de preços fora de casa e eventuais sinais de pressão adicional.
Por volta de 12h30, o Ibovespa recuperava parte das perdas da manhã, mas ainda operava no vermelho. O principal índice da bolsa brasileira caía 1%, aos 185.373,13 pontos, depois de mergulhar nos 183.813,36 pontos na mínima da sessão.
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O trade eleitoral
No plano doméstico, o trade eleitoral joga mais lenha na fogueira. O dólar à vista avançou para R$ 5,18 com o aumento das projeções de inflação e a cautela política. Por volta de 12h30, a moeda norte-americana subia 0,66%, a R$ 5,1586.
A sequência de pesquisas divulgadas por Quaest, BTG/Nexus e Datafolha mostra uma disputa acirrada e em empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O mercado também se prepara para a Superterça no Supremo Tribunal Federal (STF) — que analisa casos de grande repercussão política, desdobramentos do Banco Master e investigações da Polícia Federal (PF) envolvendo parlamentares — antecipando a Superquarta de decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos.
O mundo rico enfrenta hoje um problema típico dos emergentes
As bolsas lá fora
Em Nova York, as bolsas operam em queda na esteira da escalada dos preços do petróleo.
Em semana de expectativas com a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) na quarta-feira (16), o mercado também é pressionado negativamente pela inteligência artificial (IA).
As ações relacionadas ao setor operam em queda após o CEO da Anthropic, Dario Amodei, pedir uma desaceleração no desenvolvimento das capacidades de IA, com outras grandes figuras de tecnologia apoiando a proposta.
Amodei disse em um ensaio no sábado (12) que as empresas de IA precisam desacelerar o ritmo da inovação para seus melhores modelos devido aos riscos de segurança, e disse à CBS News no domingo (13) que o dilema mais difícil sobre tal proposta é o que aconteceria se a China não fizesse o mesmo.
O chefe da OpenAI, Sam Altman, Se juntou a Amodei, alertando sobre formas pelas quais o progresso da IA poderia acabar "muito mal", incluindo perder "o controle do futuro para a IA" e o poder excessivo concentrado em uma única pessoa ou empresa.
Os alertas derrubam as ações das empresas do setor. Os papéis da Nvidia operam em queda de mais de 3%, mas há que recue mais: Broadcom, AMD e Intel caem mais de 5% cada uma.
Tudo isso ocorre enquanto Anthropic e OpenAI se preparam para o que se espera ser ofertas públicas iniciais históricas. Altman descartou a possibilidade de abrir capital em 2026 em uma entrevista à Fortune publicada no sábado (12).
Treasurys nas alturas
O mercado de renda fixa norte-americano deu o golpe de misericórdia nas bolsas globais.
No fim da manhã de hoje (14), o yield (rendimento) do Treasury de 10 anos, a referência do mercado, superou a marca simbólica de 5%, atingindo a maior taxa registrada desde outubro de 2023.
Se o yield ultrapassar 5,02%, atingiria o nível mais alto desde julho de 2007, antes da crise financeira de 2008. Se isso acontecer, o problema para os investidores será a causa da disparada.
A disparada reflete os temores de uma inflação persistente, o peso do déficit fiscal dos EUA e as apostas massivas — superiores a 88% — de que o Fed precisará manter ou ajustar os juros em patamares elevados na reunião desta semana. A taxa referencial está sendo mantida na faixa entre 3,50% e 3,75% desde o início do ano.
Além disso, a alta mais recente dos yields decorre também de um desequilíbrio entre oferta e demanda, já que a enorme dívida do governo dos EUA e das empresas compete por capital dos investidores.
Vale lembrar, no entanto, que os analistas não esperam que os mercados quebrem simplesmente porque a dívida de 10 anos dos EUA ultrapassou 5%.
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