Trade eleitoral: como os tubarões do mercado estão se posicionando para ganhar com as eleições — e limitar o prejuízo se a aposta der errado
Grandes investidores usam operações sofisticadas com opções para buscar ganhos com o cenário eleitoral; entenda como funciona a estratégia

A menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais, os grandes investidores voltaram a posicionar suas carteiras de olho no que pode acontecer depois nas urnas. Mas, para não ficarem expostos a um resultado imprevisível, os “tubarões” do mercado estão recorrendo a estratégias mais sofisticadas do que simplesmente investir na bolsa ou no dólar.
Uma das principais ferramentas da versão 2026 do trade eleitoral são as opções. A lógica é relativamente simples: com as opções, o investidor paga para se posicionar diante de um possível resultado das urnas, como uma espécie de seguro.
Se a tese se confirmar, o ganho pode ser expressivo. Se der errado, porém, o prejuízo fica limitado ao valor desembolsado na operação.
A mudança nas pesquisas, especialmente o avanço de Flávio Bolsonaro a partir de meados de agosto, ajudou a disparar a montagem de estruturas com opções.
A percepção entre os investidores é que uma eventual mudança de governo traria uma trajetória diferente para a economia a partir de 2027, principalmente na condução das contas públicas.
A própria Bloomberg encontrou uma relação entre os movimentos recentes do Ibovespa e do real e as mudanças nas apostas sobre a eleição em plataformas de previsão como Kalshi e Polymarket.
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A leitura de especialistas é que parte da alta da bolsa reflete justamente essa revisão das probabilidades sobre o resultado das urnas, acompanhando o avanço do candidato do PL.

Para entender como os grandes investidores estão se posicionando para as eleições — e por que as opções se tornaram uma ferramenta tão útil nesse cenário —, o Seu Dinheiro conversou com Ruy Hungria, analista da Empiricus Research; Pedro Vendramini, sócio da One; e Luciano França, gestor de renda variável da Paramis Avantgarde.
O trade da assimetria eleitoral voltou?
Como o mercado ainda não tem convicção sobre quem vencerá a eleição — nem sobre o tamanho da reação da bolsa a uma eventual vitória de Flávio —, a estratégia é encontrar maneiras de ganhar bem caso o cenário esperado se confirme, sem tomar um tombo tão grande se a aposta der errado.
“É uma questão de assimetria”, resume Pedro Vendramini, da One.
Na avaliação de Ruy Hungria, da Empiricus, o mercado vem “ganhando convicção” em uma possível alternância de poder e em uma melhora da trajetória fiscal. Se essa percepção continuar avançando nas próximas semanas, a tendência é que as posições montadas pelos grandes investidores ganhem ainda mais relevância.
As operações sofisticadas usadas no trade eleitoral em 2026
É nesse ponto que entram as opções. Uma das estratégias usadas pelos grandes investidores é a trava de alta com calls (call spread), uma espécie de aposta com freio.
Nessa operação, o investidor:
- Compra uma opção de compra com preço de exercício mais baixo;
- Vende outra opção de compra com preço de exercício mais alto.
A primeira opção permite que ele se beneficie da alta do ativo a partir de determinado preço. A segunda ajuda a financiar a operação, mas limita o ganho caso a bolsa suba muito além do esperado.
É como se fosse uma forma de dizer: “Acho que a bolsa vai subir, mas não preciso ganhar tudo caso ela exploda para cima — prefiro gastar menos para participar dessa alta”. O investidor abre mão de uma parte do potencial de lucro para tornar a operação mais barata e manter o risco mais controlado.
Já para quem está mais confiante em uma forte alta, existe a compra a seco de calls. Nesse caso, o investidor simplesmente compra uma opção de compra e paga um prêmio para ter o direito de se beneficiar de uma eventual valorização do ativo.
Se a alta vier com força, o potencial de ganho pode ser muito maior — e não há um teto pré-definido como na trava de alta.
Mas essa liberdade também tem seu preço. Se o mercado não subir como esperado até o vencimento da opção, o investidor pode perder todo o valor desembolsado no prêmio.
É, portanto, uma aposta mais direta: paga-se para participar de uma possível disparada, aceitando o risco de que o dinheiro investido na operação vire pó se a tese não se confirmar.
Um exemplo de operação desse tipo é a compra a seco de BOVAJ215, opções com o fundo de índice (ETF) BOVA11. Foram 6,1 milhões de contratos, comprados por aproximadamente R$ 0,24 no dia 26 de agosto. Hoje, essa mesma opção está R$ 0,37. Isto é, um salto de 54% em pouco mais de duas semanas.
Dados da Bloomberg também mostram operações com algumas estruturas com EWZ, o principal ETF de Brasil listado em Nova York.
Entre as operações que chamam atenção estão posições com strikes — os preços de exercício das opções — equivalentes a 200 mil, 210 mil e 215 mil pontos. Ou seja, bem acima do nível atual do Ibovespa, que fechou a sexta-feira (11) na casa dos 187 mil pontos.
Por que não comprar bolsa, BOVA11 ou ações diretamente?
Para os grandes investidores, a preferência pelas opções tem uma vantagem importante: dá para apostar na alta sem deixar tanto dinheiro exposto ao sobe e desce da bolsa.
“Com a opção, você consegue de alguma forma capturar um eventual desenho de cenário que aconteça com menos capital em risco. Ou seja, eu estou comprando um seguro, porque, se a bolsa daqui a três meses estiver em 250 mil pontos, eu não fiquei fora do mercado. Eu fiz isso através de opções”, afirma Luciano França, da Paramis Avantgarde.
Quem compra BOVA11 ou uma ação diretamente fica totalmente sujeito à variação do ativo. Se a bolsa cair 10%, por exemplo, a posição tende a cair na mesma proporção.
Já com opções, é possível montar uma estratégia em que o investidor sabe de antemão quanto pode perder e ainda compromete uma parcela menor do patrimônio.
O mercado à vista acaba sendo uma alternativa para o investidor que aposta em um cenário de alta em um horizonte de longo prazo para a bolsa. “Mas, quando a gente fala de um cenário muito binário — ou seja, ‘sim ou não, ‘vai dar certo ou não vai dar certo’ — acaba que essas estruturas de derivativos têm a possibilidade de trazer algum nível de controle para o investidor", afirma Vendramini, da One.
Isso não significa, porém, que o investidor esteja menos convicto da tese. As opções permitem justamente apostar em uma alta sem assumir todo o risco de comprar o ativo no mercado à vista.
"É uma forma de investir sem precisar comprometer tanto capital, mas mantendo uma capacidade de apreciação relevante caso ele acerte esse trade", afirma Hungria, da Empiricus.
E há ainda um efeito de alavancagem: como é preciso desembolsar apenas o prêmio da opção, uma posição relativamente grande pode ser montada com menos dinheiro.
O risco é que esse valor também pode ser perdido integralmente se a aposta não der certo. Mas, quando a tese se confirma, o retorno sobre o capital colocado na operação pode ser bem maior — em algumas estruturas, chegando a três, quatro, cinco ou até seis vezes o valor investido.
É essa combinação que torna as opções especialmente interessantes em um evento como a eleição: o investidor consegue se posicionar para uma eventual alta da bolsa sem precisar colocar uma fatia grande da carteira em jogo antes de o cenário político estar definido.
O rumo das eleições ainda está em aberto
As pesquisas mostram que ainda há muita coisa para acontecer até a eleição. A pesquisa Datafolha divulgada na última sexta-feira (11) apontou Lula com 46% das intenções de voto, à frente de Flávio Bolsonaro em um cenário de segundo turno, com 44%.
A diferença está dentro da margem de erro de um ponto e configura empate técnico.
Segundo a pesquisa, Lula também empata tecnicamente com Augusto Cury, com placar de 45% a 43%. Esta é a primeira vez em que o escritor foi testado em um cenário de segundo turno pelo levantamento.
Em outros cenários de segundo turno, o presidente supera Ronaldo Caiado (46% a 41%), Romeu Zema (48% a 39%) e Renan Santos (48% a 37%).
É justamente essa disputa mais acirrada que começa a mexer positivamente com os mercados, afirma Ruy Hungria, da Empiricus.
“O mercado começou a ganhar muito fluxo e força quando começamos a ver as pesquisas mais apertadas. O investidor está começando a colocar na conta essa possibilidade de uma alternância de poder. Mas ainda tem muito espaço para continuar subindo se isso se concretizar”, diz o analista.
O movimento atual também lembra outros ciclos eleitorais, especialmente o de 2018, quando a mudança nas pesquisas provocou fortes reações nos preços dos ativos brasileiros.
Um dos sinais de que o mercado está mais inclinado a apostar em uma alta aparece no Put-Call Ratio, indicador que compara a procura por opções de venda (puts) e de compra (calls). Hoje, a predominância das calls sugere que há mais investidores buscando se beneficiar de uma eventual valorização da bolsa do que se protegendo de uma queda.
Mas isso não significa que todo mundo esteja fazendo a mesma aposta. Para quem já tem uma carteira relevante, as opções também podem funcionar como um seguro contra o cenário contrário.
Nesse caso, o investidor pode comprar opções de venda (puts) —que ganham valor quando o mercado cai — ou montar uma trava de baixa (put spread). A estratégia é pagar agora para limitar o tamanho do prejuízo caso o resultado eleitoral piore as expectativas sobre a economia e provoque uma queda da Bolsa.
Trade eleitoral já mexe com a trajetória da bolsa
As apostas podem até começar no mercado de opções, mas seus efeitos não ficam necessariamente por lá.
Quando grandes investidores compram muitas opções de compra, os bancos e as tesourarias que estão do outro lado da operação precisam se proteger. E uma das formas de fazer isso é comprar, no mercado à vista, os ativos correspondentes às opções que venderam.
Esse movimento pode aumentar a demanda e ajudar a empurrar o Ibovespa para cima, criando uma espécie de efeito dominó: a procura por opções acaba, indiretamente, alimentando compras de ações. Quase como uma profecia autorrealizável.
“A decisão de comprar esse seguro, esse ‘tíquete de loteria’ caso aconteça algum evento, também gera uma pressão de compra no índice, porque esse recurso passa a fazer parte dessa estrutura de hedge. Então, diretamente ele não está comprando [bolsa à vista], mas tem alguém na outra ponta que está comprando por ele para não ter um sinistro tão alto se aquele evento acontecer”, diz França, da Paramis Avantgarde.
Ao mesmo tempo, há estrangeiros montando posições diretamente na bolsa.
Segundo Hungria, entre os alvos estão empresas estatais mais sensíveis à tese eleitoral, como Banco do Brasil (BBAS3) e Petrobras (PETR4), além de companhias grandes e líquidas, como a B3 (B3SA3). São papéis que permitem movimentar volumes maiores de dinheiro com mais facilidade, algo importante em um cenário de incerteza.
O investidor brasileiro, por outro lado, ainda pisa no freio. Além da incerteza sobre o resultado das urnas, pesam as preferências políticas e o viés de proximidade — a tendência de reagir mais diretamente às incertezas locais.
E há um concorrente de peso pela atenção desse dinheiro: a renda fixa. Com a Selic elevada e títulos públicos atrelados à inflação oferecendo retornos atrativos, o investidor local tem uma alternativa para remunerar o capital sem precisar encarar toda a volatilidade de uma aposta na bolsa em meio à disputa eleitoral.
Veja também: Eleições 2026: Hora de comprar DÓLAR e fugir da BOLSA? | Rogério Freitas (ASA) | T&U #285
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