Multimercados não morreram, mas o jogo mudou: XP Asset aposta em nova estratégia e até mudança nas taxas para voltar a dar retorno
Ao Seu Dinheiro, Bruno Marques revela como a gestora está mudando a estratégia para enfrentar um mercado mais volátil e recuperar a performance dos multimercados após três anos difíceis para a indústria

Capturou a tendência, sai fora e espera. Essa é a nova lógica da XP Asset para navegar em um mercado que, na visão da gestora, ficou mais rápido e volátil. Depois de três anos difíceis para a indústria de multimercados, a casa decidiu rever a forma de gerir seus fundos.
Segundo Bruno Marques, gestor de multimercado macro da XP Asset, que possui mais de R$ 290 bilhões em ativos sob gestão (AUM), a estratégia agora dá mais peso à macroeconomia, principalmente aos juros e seus derivativos, ao mesmo tempo em que reforça o controle de risco e admite períodos maiores sem posições relevantes.
“Antes, as tendências permaneciam por mais tempo. Agora, você tem que entrar, capturar o alfa e sair. Por isso queremos ficar mais tempo zerados”, afirmou Marques, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro.
O objetivo, diz o gestor, é deixar de lado a obrigação de estar sempre posicionado e esperar por momentos em que a relação entre risco e retorno seja mais favorável.
“A graça do multimercado é poder escolher a melhor prova para fazer. Quando vemos uma assimetria, tentamos capturá-la.”
Na avaliação de Marques, porém, a mudança não é apenas uma resposta aos resultados ruins da indústria dos últimos anos. O próprio funcionamento dos mercados se transformou — e, para voltar a entregar resultados consistentes, a indústria terá de se adaptar.
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“A indústria multimercado continua viva e vai voltar a performar”, disse.
As mudanças na indústria de multimercados
Marques define os últimos três anos como uma “tempestade perfeita” para os multimercados.
A mudança nas regras de tributação dos fundos exclusivos — que reduziu drasticamente a atratividade desses veículos — alterou a dinâmica de alocação de recursos, enquanto os juros elevados tornaram a renda fixa muito mais competitiva.
Ao mesmo tempo, a oferta de produtos isentos aumentou as alternativas disponíveis ao investidor. Assim, o dinheiro acabou migrando para outras classes.
Além disso, a própria indústria também entregou resultados decepcionantes em diversos casos. “Isso [saída de dinheiro dos multimercados] também se deve à performance, que não foi boa”, reconhece.
Por isso, na visão do gestor, a eventual queda dos juros no Brasil não será suficiente para devolver automaticamente o investidor aos multimercados.
“Precisamos voltar a mostrar consistência para o investidor retornar.”
Durante muito tempo, o gestor macro podia encontrar uma tese, montar uma posição e esperar que o mercado convergisse para a sua visão. Mas esse ambiente ficou mais difícil, e uma das razões está na transformação dos mercados globais, avalia o gestor da XP Asset.
Nos últimos anos, os fundos multi-strategy — grandes plataformas que reúnem diferentes estratégias e mercados — ganharam espaço rapidamente. Segundo Marques, essa indústria saiu de cerca de US$ 90 bilhões em 2019 para mais de US$ 1 trilhão atualmente.
Não à toa, esses fundos passaram a ter peso relevante na formação de preços em mercados de renda fixa ao redor do mundo. E o modo como operam ajuda a explicar por que os mercados ficaram mais nervosos.
São grandes posições, muitas vezes semelhantes entre diferentes gestores, combinadas a mecanismos de proteção que podem obrigar esses fundos a sair rapidamente de uma operação quando o mercado anda na direção contrária.
“Às vezes, todos estão na mesma direção, comprimindo a volatilidade, e de repente ocorre um movimento forte na direção oposta e todos estopam ao mesmo tempo”, afirma Marques.
É o chamado degrossing: quando vários fundos reduzem exposição simultaneamente, ampliando o movimento dos preços.
A nova estratégia da XP Asset — e o que muda para o cotista
A resposta da XP Asset para lidar com o novo ambiente para os multimercados foi reforçar a equipe dedicada a juros no Brasil e na América Latina, além das áreas econômica e de inteligência artificial.
A gestora também mudou a maneira de lidar com os momentos de estresse.
Em vez de usar o teste de estresse apenas como uma proteção contra perdas extremas, ela passou a incorporá-lo ao processo de gestão para entender onde o fundo poderia ser atingido caso houvesse um movimento generalizado de redução de posições.
A mudança também chega ao bolso do cotista. O fundo, que antes seguia a estrutura de cobrança de 2% de taxa de administração mais 20% de performance, o famoso “2 com 20”, passou para 1% de administração mais 30% sobre o que exceder o benchmark.
A lógica está ligada justamente à decisão da gestora de ficar mais tempo fora do mercado. Se o fundo pretende esperar por oportunidades mais claras, a XP entende que não faria sentido cobrar uma taxa de administração tão alta durante esses períodos.
“Achamos que, dada essa proposta de não estar presente o tempo todo, de correr menos riscos assimétricos e de buscar hedge, cabia muito mais uma taxa de administração mais baixa e uma performance mais alta”, afirma Marques.
Segundo ele, não se trata simplesmente de deixar o produto mais barato, mas de adequar a remuneração ao novo modelo de gestão.
E se o Brasil sair da ‘mediocridade’?
Na avaliação de Marques, o Brasil passou os últimos anos em uma espécie de “zona de mediocridade”. Os fundamentos se deterioraram de forma recorrente, mas sem uma ruptura suficientemente forte para produzir um movimento comparável ao de grandes crises anteriores.
Esse equilíbrio, porém, não seria sustentável por muito mais tempo.
“Isso não é sustentável: ou faremos um ajuste positivo ou a conta chegará e o país explodirá.”
É justamente nesse tipo de bifurcação que o gestor vê uma vantagem nos multimercados.
Como podem mudar rapidamente de posição, os fundos macro teriam condições de capturar uma melhora do cenário ou se proteger — e eventualmente ganhar — caso a deterioração se aprofunde.
“Nesses dois cenários, é importante ter fundos multimercados, pois eles têm velocidade para estar à frente desses movimentos”, afirma.
Crise dos multimercados: menos gestoras, mais adaptação
A transformação também pode redesenhar a própria indústria de fundos multimercados, avalia Marques.
“Está mais difícil. Talvez houvesse um excesso de assets [gestoras] no passado. Estamos passando por um momento de consolidação, com certeza.”
Segundo ele, gestoras menores enfrentam uma combinação difícil de baixa performance, resgates e um investidor mais exigente, enquanto grandes casas também precisam rever seus modelos.
Mas isso não significa que tamanho seja automaticamente uma vantagem. O crescimento exagerado pode até atrapalhar a gestão ao reduzir a capacidade de executar determinadas posições.
Por isso, Marques não acredita em uma fórmula única para sobreviver à nova fase. Cada casa terá de encontrar o modelo que melhor se encaixa em seu mandato e estilo de investimento.
“Cabe a nós, da indústria, ter a humildade de esperar a performance voltar”, diz.
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