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A reação do mercado à possível candidatura de Flávio Bolsonaro reacende memórias do Joesley Day, mas há oportunidade
Os paralelos entre o evento de sexta-feira e o Joesley Day são inevitáveis. Uma grande reação negativa súbita, catalisada por um evento de ordem política, potencialmente capaz de tirar o Brasil do caminho das reformas estruturantes e de uma trajetória fiscal menos perdulária. De alguma forma, ambas situações suscitavam dúvidas e incertezas sobre o comando do poder Executivo.
O Brasil é uma revoada de cisnes negros. Ou, na expressão consagrada de um grande banqueiro: é muito cisne pra pouco lago.
Embora a comparação entre os eventos engendre sentimentos e expressões negativas a priori, há um outro espectro do paralelo, mais construtivo. Em maio de 2017, escrevi essa mesma newsletter respondendo às indagações sobre o que fazer com as posições em ativos de risco no Brasil naquele momento, em reação à divulgação da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer. A prescrição defendia “não fazer nada”.
O Brasil voltaria vivo do flerte com o precipício mais uma vez e os ativos acabariam se recuperando, ainda que a incerteza institucional à época fosse enorme, sem que soubéssemos quem seria o presidente da República semanas depois.
Os boatos eram de toda sorte. Temer renunciaria. Seriam potencialmente convocadas novas eleições, o próximo da linha sucessória assumiria, teríamos um consenso formado em torno de Tasso Jereissati, Nelson Jobim ou algum outro moderado capaz de devolver alguma institucionalidade ao processo.
Com efeito, aqueles que se mantiveram comprados viram seu capital recuperado e apreciado no tempo.
O rali iniciado com a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer foi estendido até janeiro de 2020, para ser interrompido somente pela pandemia.
O Ibovespa saiu da mínima de 39 mil pontos da era Dilma para os 120 mil pontos, continuamos uma trajetória de reformas até o começo do governo Bolsonaro, os juros caíram, o real se apreciou e Joesley… bem… como o país nunca foi para amadores… deixa pra lá.
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Dessa vez, me permito ir um passo além da sugestão de “sentar na mão” e não vender seus ativos de risco brasileiros.
Entendo a reação de sexta-feira como uma oportunidade de compra clássica.
A reação negativa dos mercados me parece desproporcional à real incerteza associada ao evento.
De outra forma, não vislumbro significativa mudança da distribuição de probabilidade para a eleição de 2026 a partir da indicação de Flávio Bolsonaro como candidato à presidência neste momento.
O movimento soa muito mais uma tentativa de recuperar algum protagonismo narrativo e material da família Bolsonaro como liderança na direita, esvaziado com o fracasso das iniciativas de Eduardo no entorno do tarifaço e com a prisão do patriarca, e de ganhar alavancagem negocial, envolvendo, possivelmente, uma vice-candidatura na chapa presidencial (o que enfrenta resistência de partidos mais ao centro, preocupados com a alta rejeição ao sobrenome), a anistia para os envolvidos no 8 de janeiro e/ou adoçamento para a pena de Jair Bolsonaro.
Não significa, necessariamente, que a candidatura seja um blefe. Ela é real no sentido de que, se ganhar tração e apoio popular, será levada ao fim e ao cabo. No entanto, essa probabilidade parece baixa.
A reação dos mercados na sexta-feira, o DataFolha do final de semana, a reação do establishment nos veículos de imprensa e nas mídias sociais, além da conhecida simpatia do STF ao sobrenome Bolsonaro, são exemplos sintomáticos da rejeição ao anúncio.
O “sistema" não agasalha Flávio.
O próprio suposto candidato já assume ter um preço para não levar sua candidatura até o final.
Da outra vez que a família tentou chantagear o país (“a liberdade para o meu pai em troca do fim das tarifas nos EUA”) não deu certo. E é bastante improvável um resultado diferente agora.
A opinião pública percebe a chantagem e simplesmente pula fora. Poucas coisas tiram mais apoio popular do que a generalizada percepção de que os interesses particulares e familiares estão à frente das motivações republicanas.
Se a família quer mesmo a liberdade de seu patriarca, as chances maiores se concentram em eleger um presidente capaz de lhe conceder indulto; não com a chantagem de “uma candidatura por uma anistia que contemple o ex-presidente”.
Se insistir no candidato da família tentando preservar seu legado e sua liderança na direita, o bolsonarismo pode acabar sem os dois e com o patriarca sem o perdão presidencial.
Ao lançar Flávio, menos competitivo e sem adesão popular fora do bolsonarismo raiz (lembre-se: segundo pesquisa da Quaest, apenas 13% da população se diz bolsonarista, enquanto 22% afirma pertencer à direita não bolsonarista), terá como antagonistas o centrão, a imprensa, o “sistema” e o voto útil.
Nesse contexto, Tarcísio de Freitas tenta uma reeleição em São Paulo e Ratinho Junior sai como candidato da centro-direita, com apoio de Gilberto Kassab e de tudo que isso representa, ancorado nos excelentes dados conquistados como governador do Paraná e com a ajuda da popularidade do pai no Nordeste.
Num eventual segundo turno, capturaria mais votos ao centro e herdaria naturalmente os votos bolsonaristas, avessos a Lula, preterido até contra o Macaco Simão, segundo Eduardo.
Flávio tem apenas os votos bolsonaristas, sem avançar sobre o centro por conta da elevada rejeição ao sobrenome.
Então, entra em cena o voto útil. Se a eleição de 2026 é uma espécie de plebiscito em torno do nome de Lula ou, em outras palavras, se o objetivo primordial dos eleitores da centro-direita e da direita é desbancar o incumbente, ao ver uma candidatura de Ratinho Jr muito mais competitiva contra Lula do que aquela de Flávio Bolsonaro, muitos podem optar pelo candidato do PSD já no primeiro turno.
Não é desprezível a chance de um segundo turno sem a presença do bolsonarismo, o que aceleraria seu ostracismo.
Curiosamente, dada a reação da sociedade e os riscos associados para o clã, a candidatura de Flávio Bolsonaro pode significar, na verdade, a convergência tácita em torno de Tarcísio.
Antes de terminarmos, uma ponderação: a esperada recuperação dos ativos brasileiros pode não acontecer a curtíssimo prazo.
Os próximos dias ainda devem ser permeados por muito ruído e volatilidade.
Aliás, essa deve ser a tônica de todo ano de 2026. O investidor precisa estar preparado para isso.
O ponto aqui é que volatilidade não é risco e havemos de separar o ruído do verdadeiro sinal. Risco aqui deve ser entendido como perda permanente do capital.
Nesse contexto estrito, o evento de sexta parece superestimado. A verdadeira definição eleitoral só deve acontecer entre março e abril.
Até lá, estaremos protegidos pelo fluxo de recursos em favor dos mercados emergentes, agora com maior atenção norte-americana à América Latina, formalizada na sexta-feira no National Security Strategy, pela queda das taxas de juro nos EUA e também no Brasil e pelo fluxo cavalar advindo dos dividendos (Localiza é o nome do dia!).
O rio corre para o mar.
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