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Nicholas McCarthy, do Itaú; Daniel Haddad, da Avenue; e Meera Pandit, do JP Morgan, indicam os caminhos para uma carteira de investimentos equilibrada em um momento de incertezas provocadas pelas tarifas de Trump, guerras na Europa e o DeepSeek da China
Pela primeira vez em três anos, o Itaú Unibanco reduziu exposição aos EUA e passou a comprar o resto do mundo. Quem conta sobre a tese é Nicholas McCarthy, estrategista-chefe de investimentos do banco. Mas, ao contrário do que possa parecer, para ele, o excepcionalismo americano não chegou ao fim.
Quando Donald Trump começou a anunciar uma série de tarifas sobre parceiros comerciais, sinalizar que não seria mais a polícia do mundo — forçando a Europa a gastar mais em defesa — e a China mostrou com o DeepSeek que é possível desenvolver inteligência artificial (IA) com poucos recursos, a exuberância do mercado norte-americano passou a ser questionada.
Figurões de Wall Street como o bilionário Ray Dalio e seu fundo de hedge Bridgewater Associates cravaram: não é mais possível confiar nos EUA como um parceiro consistente. Você pode conferir em detalhes essa história aqui.
Havia uma razão para isso: além da incerteza, o temor de recessão na maior economia do mundo tomava conta dos mercados, com juros em patamares elevados — entre 4,25% e 4,50% ao ano, onde ainda se encontram atualmente —, dólar perdendo força ante seus pares, déficit norte-americano crescente e inflação dando sinais de aceleração com as tarifas de Trump.
Mas como diz o ditado no mundo dos investimentos: never bet against America (nunca aposte contra os EUA) e McCarthy explica por que esse mantra atribuído a Warren Buffett segue valendo mesmo em um momento de incerteza como o atual.
“Depois de uma performance maravilhosa dos EUA, passamos a comprar o resto do mundo — algo que não ocorreu nos últimos três anos. Isso aconteceu porque Trump lançou incertezas para o mundo”, diz o estrategista do Itaú durante painel desta quinta-feira (17) no International Investment Summit, organizado pela Avenue.
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“Passamos a comprar países emergentes, ações de empresas de tecnologia fora dos EUA e vendemos 3% da nossa carteira global em dólar — esse é nosso olhar para o mundo nos próximos 12 meses”, acrescenta.
Mas McCarthy faz um alerta sobre a movimentação: isso não significa vender EUA. “O que está acontecendo agora é que o investidor está vendendo dólar, mas continua comprado na bolsa e na renda fixa norte-americana”, diz.
Para ele, a bolsa norte-americana continua atrativa e as chances de recessão por lá são baixas.
“Não acredito em recessão nos EUA. A inflação segue relativamente baixa, e o norte-americano está com poupança positiva. Todas as recessões nos EUA aconteceram quando norte-americano estava com poupança negativa, o que não é o caso agora”.
Meera Pandit, estrategista para mercados globais do JP Morgan Asset Management que também participou do evento da Avenue, reforça a tese de que o excepcionalismo americano não acabou e diz que ainda que o S&P 500 esteja renovando recordes, a hora é de comprar bolsa dos EUA.
“O que vemos são quatro anos de crescimento excepcional, gastos das empresas acontecendo mesmo com juros altos e o consumo, que é a espinha dorsal do PIB [Produto Interno Bruto] dos EUA, aumentando”, afirma.
“Isso não se parece em nada com o fim do excepcionalismo americano ainda que haja percalços no meio do caminho”, acrescenta Pandit.
Entre as pedras do caminho, ela cita a política de Trump, o enfraquecimento do dólar, os juros altos e o aumento da dívida norte-americana — atualmente na casa dos US$ 36 trilhões.
“Meu conselho é: não venda EUA tão rápido mesmo com todo esse cenário. Embora o Brasil tenha um legado de empresas robustas como Vale, Itaú, Petrobras, Weg e BRF, elas sempre ficaram para trás na comparação com empresas de grande capitalização norte-americanas”, afirma.
“Além disso, temos as Sete Magníficas, e a indústria apresenta a melhor performance na bolsa neste ano até aqui — o que mostra que o investidor tem opções fora de setores bem avaliados e concentrados e também a visão de futuro do mercado sobre a economia dos EUA”, acrescenta.
Pandit vai além e diz que os investidores não devem ter medo de investir em momento de recorde da bolsa norte-americana — esta semana, o S&P 500 superou pela primeira vez a marca dos 6.300 pontos. O Seu Dinheiro contou essa história.
“O all time high de hoje não será o all time high do futuro. O mercado já provou que investidores pacientes sempre são recompensados”, diz.
“Ninguém fica confortável com volatilidade. A gente sabe que vai acontecer, mas não como ou quando, por isso, o melhor é se preparar com uma carteira diversificada, que vai funcionar quando você menos esperar”, acrescenta Pandit.
Daniel Haddad, chief investment officer (CIO) da Avenue, completa o conselho dado pela estrategista do JP Morgan:
“Investir tem que ser chato. Se você está tendo emoção na hora de investir, algo está errado no seu portfólio. Não pode haver emoção; investir é como ver uma tinta secando na parede”
Se o consenso é não vender EUA mesmo com toda a incerteza que Trump provoca, também não é o momento de comprar apenas Brasil e de vender dólar.
“Trump e DeepSeek fizeram com que entrássemos em uma trajetória de queda do dólar este ano — que deve continuar, embora em velocidade menor — e motivaram o gringo a olhar de novo para a bolsa brasileira depois de três ou quatro anos fora daqui. Mas isso não quer dizer que o investidor deve comprar apenas Brasil agora”, diz McCarthy.
Além de reforçar a necessidade de diversificação do portfólio, o estrategista do Itaú demonstra cautela com a bolsa brasileira diante de juros em 15%.
“O PIB brasileiro tem vindo forte nos últimos três anos — no ano passado crescemos 3,4%. Mas a realidade é que dificilmente vamos crescer acima de 2% sem gerar inflação. Para mim, o Banco Central só corta os juros com a inflação abaixo de 4%. Nossa previsão é de inflação em 4,8% e 4,5% para 2025 e 2026, respectivamente, por isso o juros só devem cair no segundo semestre do próximo ano”, afirma.
Sobre o dólar, Haddad, da Avenue, é categórico ao dizer que não há ameaças ao status de moeda de reserva internacional mesmo com toda incerteza ligada à economia norte-americana.
“O dólar é um termômetro de risco, a válvula de escape em qualquer país. Não vejo hoje o dólar no Brasil subindo rapidamente, mas vale lembrar que tudo é possível quando se trata de um país emergente. A percepção de que existe um teto para o dólar é uma percepção falha”, diz.
Ele faz uma provocação para quem ainda tem dúvidas sobre ter a moeda norte-americana em carteira:
“Temos duas malas de dinheiro, uma com US$ 1 milhão e outra com R$ 7 milhões, e você só pode abrir uma delas daqui dez anos. Qual mala você escolhe?”, questiona, sinalizando que a resposta para essa pergunta diz muito sobre a força de uma moeda.
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