Do céu ao inferno: Ibovespa tem a maior queda desde 2021; dólar e juros disparam sob “efeito Flávio Bolsonaro”
Até então, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, era cotado como o mais provável candidato da direita, na avaliação do mercado, embora ele ainda não tivesse anunciado a intenção de concorrer à presidência

Tudo levava a crer que o Ibovespa terminaria a sexta-feira (5) em novo recorde — o principal índice da bolsa brasileira rompia a marca inédita de 165 mil pontos e operava em forte alta. Mas a notícia de que o candidato à presidência escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro será o seu filho Flávio Bolsonaro (PL) derrubou os mercados.
O Ibovespa perdeu quase 8 mil pontos de um único dia, fechando a sessão com queda de 4,31%, aos 157.369,36 pontos. Essa é a maior queda desde 22 de fevereiro de 2021, ainda período da pandemia. Mesmo assim, o principal índice da bolsa brasileira manteve o ganho acumulado no ano em 30%. O dólar à vista, por sua vez, ganhou força e avançou 2,29%, cotado a R$ 5,4318.
O portal Metrópoles foi quem publicou a notícia sobre Flávio Bolsonaro em primeira mão. De acordo com o colunista Paulo Cappelli, a escolha foi comunicada a interlocutores próximos à família nesta semana.
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Esta foi a primeira vez que Bolsonaro, que está cumprindo pena em carceragem da Polícia Federal em Brasília e é considerado o líder da direita no Brasil, manifestou tal intenção.
Horas depois, a escolha de Flávio Bolsonaro foi confirmada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto. “Confirmado. Flávio me disse que o nosso Capitão ratificou sua candidatura. Bolsonaro falou, está falado. Estamos juntos”, disse Costa Neto, ao jornal O Globo.
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Por volta de 15h30 (horário de Brasília), Flávio Bolsonaro, por sua vez, se pronunciou sobre a decisão de seu pai de apoiá-lo na corrida pela presidência em 2026.
“É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação”, disse ele, em publicação na rede social X.
É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação.
Por que o Ibovespa passou a cair?
Até então, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), era cotado como o mais provável candidato da direita, na avaliação do mercado, embora ele ainda não tivesse anunciado a intenção de concorrer à presidência.
Na pesquisa mais recente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) liderava em todos os cenários de primeiro turno para as eleições presidenciais de 2026. O atual presidente, porém, teria empate técnico com Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Michelle Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno, segundo a pesquisa AtlasIntel, divulgada na última terça-feira (2).
Flávio Bolsonaro não havia sido avaliado como um dos possíveis candidatos nas pesquisas eleitorais.
“O apoio de Bolsonaro a um candidato que não seja Tarcísio cria uma pulverização, divisão de forças em vez de uma união“, avaliou o analista Victor Benndorf. “A percepção de risco em torno de uma direita mais dividida e pulverizada é negativa, mas ainda [a precificação do cenário eleitoral] é muito incipiente”.
“O mercado já está bastante esticado, então qualquer ‘pretexto’ reflete em uma realização de lucros, especialmente quando o assunto é eleição”, acrescentou. Para ele, a movimentação de hoje não impacta a tendência positiva do Ibovespa.
Na mesma linha, o economista André Perfeito, do Garantia Capital, avalia que decisão de “lançar” Flávio Bolsonaro como candidato “implode” possíveis alianças entre os partidos de centro e de direita para as eleições. “O mercado apostava em Tarcísio para construir essas alianças e pavimentar a vitória da direita em 2026, mas agora cabe avaliar se Flávio Bolsonaro consegue reunir esse amplo espectro político”, avaliou o economista.
Já Ricardo Pompermaier, estrategista-chefe da Davos Investimentos, observa que “a percepção predominante entre analistas é que ele enfrenta um nível de rejeição elevado e tem dificuldade para ampliar sua base para além do eleitorado já alinhado à direita”.
“Esse aspecto importa porque reduz a competitividade da centro-direita e aumenta a chance de um segundo turno menos favorável para esse grupo. Quando o mercado identifica um candidato com baixa capacidade de crescimento, costuma aumentar a cautela, não necessariamente por preferência política, mas porque isso reduz a previsibilidade sobre qual agenda econômica pode prevalecer no próximo governo”, disse Pompermaier.
Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, afirmou que o mercado esperava um “apoio forte” de Bolsonaro para o atual governador de São Paulo. “Tarcísio era mais agradável para o mercado pela austeridade fiscal e capacidade gerencial administrativa durante o governo em São Paulo”, destacou.
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Teste de fogo?
Na avaliação de Erich Decat, head de análise política da Warren Investimentos, a eventual candidatura de Flávio Bolsonaro é um “balão de ensaio: uma tentativa de recolocar Bolsonaro no centro do processo decisório da direita e forçar os dirigentes do centrão a considerarem que o ‘jogo’ ainda não está resolvido”.
“Do ponto de vista analítico, uma decisão dessa magnitude não seria anunciada via off a um único veículo [de imprensa]. É pequeno demais para o modus operandi da família Bolsonaro, e para o peso simbólico que tal escolha teria dentro da direita”, disse Decat.
O analista também afirmou que “a simples circulação dessa informação já cumpre o papel de tensionar o ambiente e reposicionar atores”. Para ele, a candidatura de Flávio ainda precisa decantar antes de ser tratada como um movimento concreto e “há muita água para passar debaixo da ponte” até o início oficial do ciclo eleitoral.
Flávio Conde, analista da Levante Investimentos, também compartilha da mesma visão. “Acredito que o desejo de Jair [Bolsonaro] de lançar o filho Flávio seria mais para testar o nome dele nas pesquisas de intenção de voto e, a partir de agora, ver o quanto ele [Jair] conseguiria ‘transferir’ votos para o filho.”
Ibovespa derrete, dólar e DIs disparam
Em apenas três horas de negociação, o Ibovespa perdeu quase 6 mil pontos, depois de ter renovado a máxima histórica no nível dos 165 mil pontos. Após a confirmação de Flávio Bolsonaro, o principal índice da bolsa brasileira passou a cair mais de 3%, aos 158 mil pontos.
Com a escalada da cautela, com a percepção de uma direita “enfraquecida”, o dólar à vista superou a casa de R$ 5,40. Por volta de 16h30, a divisa norte-americana bateu a máxima intrada a R$ 5,4840.
A curva de juros futuros também acelerou os ganhos, com abertura de mais de 20 pontos-base no curto prazo. A taxa de depósito interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 fechou em 13,79%, de 13,544% no ajuste anterior.
O DI para janeiro de 2029 subiu a 13,195%, de 12,643%, e o para janeiro de 2031 saltou para 13,445%, de 12,872% ontem no ajuste.
*Com informações do Money Times
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