A nova aposta da JiveMauá: gestora troca o chapéu de credora pelo de controladora e assume Rota Verde Goiás — e já prepara novos passos
A aquisição da Rota Verde Goiás marca a estreia da JiveMauá como investidora em equity de infraestrutura. Em entrevista ao Seu Dinheiro, a gestora detalha a estratégia e revela as próximas apostas do portfólio

Depois de entrar na operação como credora, a JiveMauá assumiu de vez o controle da concessionária Rota Verde Goiás e estreou no mercado de equity de infraestrutura. O movimento amplia a atuação da gestora, conhecida por comprar ativos estressados, estruturar dívidas e financiar empresas em reestruturação.
A virada começou no fim do ano passado, quando a gestora decidiu financiar a Azevedo & Travassos (AZEV3) com R$ 454 milhões. À primeira vista, a operação parecia uma aposta arriscada até mesmo para uma casa especializada em ativos estressados, já que a empresa de engenharia atravessa uma longa crise financeira.
Mas o objetivo era maior: abrir caminho para uma ofensiva no mercado de infraestrutura. O alvo era justamente a concessionária, que administra trechos das BR-060 e BR-452, no Centro-Oeste.
Relevante para o escoamento de soja e milho e situada em um polo do agronegócio, com uma malha ferroviária que complementa a da própria Rumo (RAIL3), a concessionária tem faturamento da ordem de R$ 500 milhões por ano — à época, controlada pela construtora.
Após a aprovação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o ativo passou definitivamente para as mãos da gestora, que assumiu 80% do capital da concessionária. A Tecpav, empresa goiana especializada em infraestrutura rodoviária, permanece como sócia com os 20% restantes.
O investimento inicial na Azevedo & Travassos aconteceu porque o contrato de concessão impedia uma troca de controle naquele momento, então a JiveMauá entrou como credora para viabilizar os investimentos exigidos pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) no trecho, com os quais a companhia Azevedo & Travassos não conseguia arcar.
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Para entender a estratégia, o Seu Dinheiro conversou com Bernardo Guterres, sócio responsável pela área de Distressed & Special Situations, e Diego Fonseca, sócio e CFO da JiveMauá.
JiveMauá aposta firme em infraestrutura
"A tese nasceu como uma operação de crédito, mas terminou como um investimento de capital. Foi uma evolução natural conforme o projeto avançou", resumiu Guterres. Segundo o executivo, a gestora decidiu mudar de posição depois de concluir que a antiga estrutura societária dificilmente conseguiria levar adiante o projeto.
Para Fonseca, a experiência acumulada ao longo dos últimos anos financiando projetos de infraestrutura mostrou que havia espaço para ampliar a atuação. Segundo ele, a Rota Verde deve ser apenas o primeiro passo dessa estratégia.
A gestora já estuda novos ativos no Centro-Oeste, incluindo a chamada Rota do Pequi, corredor entre Brasília (DF) e Goiânia (GO) que deve passar por um processo de otimização.
Na avaliação de Guterres, o momento é especialmente favorável para esse tipo de investimento. Com os juros elevados, muitos investidores reduziram o apetite por projetos de infraestrutura, enquanto o Brasil mantém uma carteira robusta de concessões e um ambiente regulatório mais maduro do que em ciclos anteriores.
Além disso, os primeiros resultados da Rota Verde reforçam a confiança da JiveMauá na estratégia. Após a conclusão dos investimentos obrigatórios, a concessionária iniciou a cobrança de pedágio em sistema free flow, se tornando a primeira de Goiás a operar com o modelo eletrônico.
"Estamos apenas nos primeiros 40 dias de uma concessão de 30 anos e, até agora, tudo aconteceu acima das nossas expectativas. Conseguimos cumprir todos os marcos exigidos, colocar a operação de pé e iniciar a cobrança de pedágio. Esse começo nos dá bastante confiança no potencial da concessão", afirmou Fonseca.
Além das obras previstas de melhorias no contrato, a empresa implantou oito Serviços de Atendimento ao Usuário (SAUs), equipados com ambulâncias, guinchos e equipes de atendimento, lançou um aplicativo para pagamento das tarifas e instalou totens de cobrança ao longo da rodovia para facilitar a adaptação dos motoristas.
Embora ainda não divulgue indicadores operacionais, a gestora afirma que o fluxo de veículos ficou acima das projeções iniciais e que a adesão ao pagamento por tags, como Sem Parar e ConectCar, também superou as expectativas, reduzindo a inadimplência esperada para o início da operação.
"Uma preocupação que tínhamos era a inadimplência, por ser um sistema de free flow. Mas a adesão às tags ficou acima do que esperávamos, o que acabou reduzindo esse risco logo no início da operação", diz Fonseca.
As demais apostas e infraestrutura da JiveMauá
O plano da gestora que detém cerca de R$ 27 bilhões em ativos sob gestão vai além das estradas. A casa também avalia oportunidades em setores como energia, saneamento, data centers, portos e aeroportos, — principalmente em ativos que necessitem de uma reestruturação financeira ou de um novo sócio capaz de aportar capital.
"A gente enxerga um pipeline muito robusto. O Brasil deve investir cerca de R$ 1 trilhão em infraestrutura até 2030, mas ainda existe pouco capital disposto a assumir esse tipo de risco. É justamente nesse espaço que acreditamos conseguir gerar valor", afirmou.
Entre as novas frentes avaliadas pela gestora, os data centers aparecem como uma das apostas mais promissoras.
Na visão da JiveMauá, o avanço da inteligência artificial e da computação em nuvem deve impulsionar uma nova onda de investimentos em infraestrutura digital nos próximos anos, criando oportunidades para investidores de longo prazo.
Segundo Fonseca, o setor reúne características semelhantes às de concessões tradicionais: demanda crescente, contratos de longo prazo e necessidade de grandes aportes de capital. A diferença é que, em vez de rodovias ou aeroportos, o ativo é a capacidade de processamento e armazenamento de dados.
Para a gestora, o desafio será identificar projetos que precisem de um sócio financeiro para acelerar sua expansão ou destravar investimentos, repetindo a estratégia utilizada em outros segmentos de infraestrutura. Embora ainda não haja um alvo definido, Fonseca afirmou que os data centers estão entre as prioridades do pipeline da casa.
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