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Ricardo Gozzi

É jornalista e escritor. Passou quase 20 anos na editoria internacional da Agência Estado antes de se aventurar por outras paragens. Escreveu junto com Sócrates o livro 'Democracia Corintiana: a utopia em jogo'. Também é coautor da biografia de Kid Vinil.

INTERNACIONAL

Como uma visita de Putin à Mongólia pode se transformar em um problema para o Brasil no G-20

Pelo tratado do TPI, a Mongólia deveria ter cumprido um mandado de prisão expedido contra Putin por causa da guerra na Ucrânia

Ricardo Gozzi
4 de setembro de 2024
13:02 - atualizado às 12:29
Cerimônia oficial de boas-vindas realizada pelo Presidente da Mongólia Ukhnaagiin Khurelsukh para o Presidente da Rússia Vladimir Putin.
Cerimônia oficial de boas-vindas realizada pelo Presidente da Mongólia Ukhnaagiin Khurelsukh para o Presidente da Rússia Vladimir Putin. - Imagem: Sofya Sandurskaya, TASS

Esta é a primeira vez que a Mongólia protagoniza uma notícia no Seu Dinheiro. Salvo uma situação muito inusitada, é improvável que o distante país asiático volte a aparecer tão cedo em nosso noticiário. O que explica a aparição da Mongólia é uma visita oficial do presidente da Rússia, Vladimir Putin — e que pode virar um problema para o Brasil.

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Ao chegar a Ulan Bator, a capital da Mongólia, Putin foi recebido pelo presidente Ukhnagun Khurelsukh com tapete vermelho, ladeado pela imponente guarda montada mongol e homenageado com um banquete no início desta semana.

Os dois discutiram o comércio e as relações bilaterais antes de Putin embarcar de volta para a Rússia.

Numa situação normal, a breve visita de Putin à Mongólia valeria no máximo uma foto com legenda no caderno de notícias internacionais.

O que torna a passagem de Putin por Ulan Bator relevante é o fato de ele não ter sido preso.

Pesa contra Putin um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).

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Ele é acusado de promover a deportação ilegal de centenas de crianças da Ucrânia para a Rússia durante a guerra iniciada em fevereiro de 2022.

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O Kremlin rechaça a denúncia, qualificando-a como “politicamente motivada”.

Como signatária do TPI, a Mongólia deveria ter detido Putin e o encaminhado para Haia, Holanda, onde funciona a sede do tribunal. Nada disso aconteceu. Putin chegou e foi embora numa boa.

A Ucrânia protesta

"É um duro golpe para o Tribunal Penal Internacional e para o sistema de direito penal", disse Heorhiy Tykhyi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia.

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A visita ocorreu em um momento de recrudescimento da guerra na Ucrânia.

“A Mongólia permitiu que um criminoso acusado escapasse da justiça, compartilhando assim a responsabilidade pelos crimes de guerra”, prosseguiu Tykhyi.

Os Estados Unidos, que não são signatários do TPI justamente para evitar situações como a de Putin, também se queixaram.

"Não acreditamos que nenhum país deva dar a Putin uma plataforma para promover sua guerra de agressão contra a Ucrânia", disse o porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller.

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Putin dá de ombros

Se ucranianos e norte-americanos protestam, Putin dá de ombros.

Moscou considera “ilegítimo” o mandado do TPI.

“Toda essa história com o TPI não pode ser e não será uma limitação ao desenvolvimento das relações da Rússia com Estados parceiros interessados ​​em desenvolver relações bilaterais e manter contatos internacionais”, disse o secretário de imprensa do Kremlin, Dmitri Peskov.

“A maior parte do mundo tem uma visão muito mais ampla das perspectivas de cooperação internacional do que os iluminados do TPI”, afirmou.

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Por que a Mongólia não prendeu Putin

Se a Mongólia é signatária do TPI, o que explica a decisão do país de não cumprir o mandado pendente contra Putin?

O primeiro é o isolamento geográfico. Embora ocupe um território superior a 1,5 milhão de quilômetros quadrados, o país fica incrustado entre a Rússia (ao norte) e a China (ao sul), sem mais nenhum vizinho.

Mapa da Mongólia
Mapa da Mongólia.

Outro motivo é a dependência energética do país.

“A Mongólia importa 95% de seus produtos petrolíferos e mais de 20% de sua energia elétrica de nossos vizinhos”, disse um funcionário do governo mongol ao portal norte-americano Politico.com.

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O objetivo é evitar a repetição de episódios de interrupção no fornecimento de energia ocorridas no passo. “É fundamental para garantir nossa existência e a de nosso povo”, disse o funcionário.

Um problema para o Brasil?

A visita de Putin a um país signatário do TPI ganha contornos de balão de ensaio à medida que se aproxima a reunião de cúpula do G-20.

O evento está previsto para os dias 18 e 19 de novembro no Rio de Janeiro.

Como é da prática diplomática, o Brasil será obrigado a emitir um convite formal a todos os chefes de Estado dos países do G-20 — e isso inclui Putin.

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Como o Brasil é signatário do TPI, a reação mais provável de Moscou seria a de enviar algum funcionário de alto escalão, como o chanceler Serguei Lavrov.

No ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a afirmar que Putin não seria preso se viesse à cúpula do G-20. Dias depois, Lula recuou e disse que a decisão caberia ao Poder Judiciário.

Nos corredores do Itamaraty, a passagem de Putin pela Mongólia coloca a diplomacia brasileira em alerta diante do risco de um constrangimento internacional.

*Com informações de agências de notícias internacionais.

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