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Um estudo feito pelo banco ING foi direto: para conseguir superar o dólar, a moeda precisa dominar o mercado internacional de dívidas
O reino animal não costuma gerar encontros improváveis. As diferenças de habitats preveem o leão encontrar a zebra e a onça trombar com a capivara. Mas um embate muito inesperado seria o da águia careca com o urso panda — refiro-me à disputa entre o dólar e a moeda da China, o renminbi, também chamado de yuan.
Mas este início que mais parece uma chamada no Animal Planet tem um motivo.
Não é de hoje que países emergentes pensam em deixar de usar o dólar como principal moeda para transações internacionais. O movimento começou com a Rússia e contagiou os BRICS, bloco que inclui Brasil, a própria Rússia, Índia, China e a África do Sul (o “S” vem do inglês South Africa).
As tentativas de substituir o dólar vão das moedas virtuais nacionais, também chamadas de CBDCs (Central Bank Digital Currencies) até a criação de uma unidade de troca do próprio bloco.
Muitos pensam que dominar o mercado de transações internacionais é o que torna uma moeda forte ou importante. O pensamento é correto, mas não é apenas isso que faria qualquer alternativa ao dólar se tornar o principal veículo de trocas entre países.
Um estudo feito pelo banco ING foi direto: para conseguir superar o dólar, a moeda precisa dominar o mercado internacional de dívidas.
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E é aí que a águia careca dos Estados Unidos encontra o panda chinês — afinal, os Panda Bonds, como é chamado o mercado de dívida emitida em renminbi, é o principal adversário dos norte-americanos nesse segmento.
O estudo do ING analisou a evolução de quais moedas dominavam o setor dos títulos de dívida pública pelo mundo. “Outras moedas”, fora dos tradicionais dólar e euro, representam 6% do total circulante desse tipo de ativo, o equivalente a US$ 1,8 trilhão.
O grupo “outras moedas” inclui o renminbi (yuan) da China. A participação do dinheiro chinês no mercado internacional de dívida saiu de valores inexpressivos para pouco menos de US$ 200 bilhões em 2023.
Além disso, de acordo com o Deutsche Bank, foram emitidos o equivalente a US$ 10 bilhões em Panda Bonds só no primeiro semestre de 2023.
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Mas mesmo com todo o seu tamanho, o urso panda precisa ganhar força antes de enfrentar a poderosa ave de rapina norte-americana. O ING destaca que o mercado de dívida chinesa em yuan ainda é pequeno.
“Uma relativa falta de liquidez e as preocupações persistentes dos investidores sobre potenciais controles sobre o capital podem inibir o crescimento do mercado”, destaca o relatório. Em resumo, o renminbi ainda não conseguiu conquistar os investidores.
Apesar de a “desdolarização” ainda não ser algo presente entre nós, existe um fator potencializador desse fenômeno — e agora estamos falando de uma verdadeira selva com os BRICS.
A moeda norte-americana não tem um concorrente à altura. Mesmo o yuan chinês precisa ganhar força, não apenas no mercado de dívida, mas também no volume de transações internacionais, para ter uma chance contra o dólar.
Essa força pode vir do próprio BRICS. Isso porque o yuan já é usado nas transações com a Rússia e a entrada de novos membros abre espaço para a penetração da moeda chinesa no mercado de petróleo — e este cenário pode fazer o dólar estremecer.
Recentemente, o BRICS aceitou a entrada da Arábia Saudita, Argentina, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. O acréscimo de membros fará com que o BRICS tenha uma produção diária de 36,7 milhões de barris de petróleo por dia (bpd), o que corresponde a 45% da extração mundial.
Os dados são de uma pesquisa do Poder360 com o Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP).
O dólar nem sempre foi a moeda mais utilizada no planeta. No século XIX, a britânica libra esterlina dominava o comércio internacional, o mercado de títulos de dívida etc.
E o que aconteceu no passado? Foi no período entre a Primeira Guerra Mundial (1914-1917) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que houve um aumento da emissão das dívidas nacionais na Europa em dólar, não mais em libras, segundo um estudo do Banco Central Europeu (BCE) de 2012.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o dólar passou a ser usado como moeda-padrão do comércio internacional.
Vale reforçar que o ING entende que o dólar ainda não tem um concorrente à altura e que a substituição da moeda por outro padrão internacional será custosa — e provavelmente demorada. O banco, no entanto, deu o caminho das pedras para quem quiser se tornar o rei da selva.
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