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Taxa básica de juros deve subir mais ao longo do ano. Veja como fica o retorno das aplicações conservadoras de renda fixa com a nova alta da Selic
Na sua segunda reunião de 2022, já sob a pressão da guerra na Ucrânia e a primeira alta de juros nos Estados Unidos desde 2018, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) elevou a taxa básica de juros, a Selic, em mais 1,0 ponto percentual nesta quarta-feira (16).
O ajuste veio dentro das expectativas do mercado e do que já havia sido sinalizado pela autoridade monetária na reunião passada, elevando a meta da Selic de 10,75% para 11,75% ao ano.
O atual ciclo de alta de juros visa a controlar a inflação, que fechou 2021 em 10,06%, bem acima do teto da meta do Banco Central, que era de 5,25%.
No entanto, desde o fim de fevereiro o país começou a conviver com um novo fator de pressão inflacionária, a guerra entre Ucrânia e Rússia, que vem pesando sobre os preços de commodities energéticas e alimentícias.
Porém, mesmo o IPCA de fevereiro, que ainda não sofreu propriamente os efeitos da guerra, foi o maior para o mês desde 2015, totalizando 1,01% e acumulando 10,54% em 12 meses.
A inflação já vem sofrendo o efeito do aperto monetário, ainda que modestamente, mas as pressões sobre os preços vindas do exterior preocupam o mercado e o BC.
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As expectativas para a inflação oficial neste ano vêm sendo elevadas semana a semana, e segundo o último Boletim Focus do Banco Central, o IPCA pode fechar 2022 em alta de 6,45%, bem acima do teto da meta, que é de 5,00%.
Já a projeção para a meta da taxa Selic no fim do ano, que vinha sendo mantida em 12,25%, subiu recentemente para 12,75%.
Segundo o comunicado do Copom que acompanhou a decisão de juros de hoje, porém, a taxa básica de juros pode ir acima de 12,75% em 2022, e o IPCA pode superar os 7%.
"É apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista", diz o documento, que já adianta um novo ajuste de 1,0 ponto percentual em maio.
O custo do aperto monetário será o sacrifício no crescimento econômico: a expectativa do mercado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 é de apenas 0,49%. A alta projetada para o PIB até aumentou, dado que o Brasil é um dos países beneficiados pelo aumento dos preços das commodities, mas ainda se mantém pífia.
Seja como for, do ponto de vista do investidor, uma Selic de dois dígitos e ainda com perspectiva de novas altas deixa a renda fixa conservadora cada vez mais atrativa.
A caderneta de poupança agora rende a sua taxa máxima de 0,5% ao mês mais Taxa Referencial (TR), a qual voltou a remunerar alguma coisa depois de passar cerca de quatro anos zerada.
Já os investimentos de renda fixa pós-fixada - atrelados à Selic ou ao CDI - voltaram a pagar retornos atrativos acima da inflação, alguns até perto do tão sonhado 1% ao mês de todo brasileiro. É o caso do Tesouro Selic (LFT), dos fundos DI e dos títulos bancários mais rentáveis, como os CDB, LCI e LCA pós-fixados.
Assim, é um bom momento para investir nesses papéis para além da reserva de emergência, pois a rentabilidade dessas aplicações tende a aumentar com a elevação da taxa básica. Além disso, com a nova alta da Selic, aumenta a diferença entre a remuneração desses papéis e a da caderneta de poupança.
No vídeo a seguir, eu explico o que é a reunião do Copom e como a definição da Selic afeta a sua vida. Assista:
No patamar de 11,75% ao ano, a Selic já não perde para a inflação oficial projetada para os próximos 12 meses (de 5,67%, segundo o último Focus), como vinha acontecendo há algum tempo.
As aplicações financeiras cuja remuneração é atrelada à Selic ou à taxa DI - taxa de juros que costuma acompanhar a taxa básica - também já começam a vencer o dragão.
Com a perspectiva de que a Selic continue em alta, o que tende também a controlar a inflação, essas aplicações devem encontrar cada vez menos dificuldades de preservar o poder de compra do investidor.
Por sinal, a alta brutal dos juros no Brasil, bem acima da inflação projetada, alçou o país de volta à posição de juros reais mais altos do mundo, mesmo em tempos de guerra - ao menos entre os países viáveis para o investidor.
Para você ter uma ideia de como o retorno da renda fixa conservadora está neste momento, eu fiz uma simulação de rentabilidade com quatro aplicações pós-fixadas no novo cenário de juros: caderneta de poupança, Tesouro Selic (LFT), fundo de renda fixa/CDB e Letra de Crédito Imobiliário (LCI). Considerei Selic constante de 11,75% ao ano e o CDI constante de 11,65%, um pouco abaixo, como costuma acontecer.
Escolhi quatro prazos de forma a contemplar as quatro alíquotas de IR possíveis, no caso das aplicações tributadas (Tesouro Selic e fundos/CDB).
Usei datas reais para poder usar o simulador do Tesouro Direto para calcular o retorno do Tesouro Selic, de modo a incluir a taxa de custódia e o spread nos cálculos no caso de uma venda antes do vencimento.
Para calcular o retorno da poupança utilizei os prazos em meses e anos. Já para simular os retornos do fundo/CDB e da LCI, levei em conta o número de dias úteis entre as duas datas reais consideradas em cada prazo.
Todas as rentabilidades estão líquidas de taxas, spread e imposto de renda, quando for o caso.
| Prazo | Poupança | Tesouro Selic | Fundo de renda fixa | LCI 100% do CDI |
| 3 meses | 1,80% | 2,12% | 2,16% | 2,79% |
| 8 meses | 4,88% | 6,02% | 6,10% | 7,62% |
| 1 ano | 7,41% | 9,51% | 9,61% | 11,65% |
| 2 anos | 15,36% | 18,83% | 20,77% | 24,44% |
Com o aumento da Selic para um valor superior a 8,50% ao ano, foi acionado o gatilho de altera o cálculo de rentabilidade da poupança.
Anteriormente, a caderneta pagava 70% da taxa Selic mais Taxa Referencial (TR), mas com a taxa básica neste novo patamar, a remuneração passou para 0,5% ao mês + TR, a mesma rentabilidade da poupança antiga e retorno máximo para esse tipo de aplicação.
Lembrando que a caderneta de poupança não tem taxas nem imposto de renda, e sua rentabilidade é mensal, apenas no dia do aniversário.
A TR, que desde 2017 vinha se mantendo zerada, voltou a subir recentemente, então eu considerei a taxa média de março até agora (0,0971%) na simulação. Assim, a rentabilidade da poupança mostrada na tabela é de cerca de 0,60% ao mês, supondo uma TR constante de 0,0971% ao mês, mas essa taxa tende a subir ainda mais com novas altas na Selic.
Já o Tesouro Selic é um título público que paga, no vencimento, a Selic mais um ágio ou deságio. Se vendido antes do vencimento, o retorno é levemente sacrificado em função de uma diferença entre as taxas de compra e venda do papel (spread), o que pode deixar a rentabilidade inferior à Selic do período.
O rendimento do Tesouro Selic é diário, e há cobrança de IR e de uma taxa de custódia obrigatória de 0,20% ao ano, paga à B3, apenas sobre o que exceder o saldo investido de R$ 10 mil.
É possível, porém, que a rentabilidade do título seja um pouco maior do que a que aparece na tabela. Isso porque, nos casos de venda antes do vencimento, a calculadora do Tesouro Direto não confere a isenção de taxa de custódia para o valor investido inferior a R$ 10 mil.
Levei em conta, ainda, que a corretora utilizada para operar no Tesouro Direto não cobra taxa de agente de custódia, que é aquela taxa de administração que as corretoras podem cobrar para oferecer acesso à plataforma do Tesouro - mas que a maioria já não cobra.
Considerei também os fundos de renda fixa que só investem em Tesouro Selic e não cobram taxa de administração, supondo que seu retorno represente a variação do CDI no período menos o imposto de renda. Assim, esses fundos se equiparam, por exemplo, aos CDBs, RDBs ou contas de pagamentos que remuneram 100% do CDI.
Vale aqui uma observação: os fundos Tesouro Selic não costumam pagar exatamente 100% do CDI. Sua remuneração tem ficado um pouco abaixo disso, e eles também estão sujeitos a eventuais quedas nos preços dos títulos, que são raras, mas podem acontecer. A simulação é apenas ilustrativa.
Por fim, simulei o retorno da LCI porque se trata de um título isento de taxas e de IR. Considerei um papel que pague 100% do CDI (às vezes surge uma dessas por aí), apenas para você ver como seria receber uma rentabilidade líquida de 100% do CDI.
Com a Selic em 11,75% ao ano, já dá para dizer que os investimentos de renda fixa atrelados à taxa básica de juros, mesmo os mais conservadores, "voltaram para o jogo".
Repare que, no prazo de um ano e considerando uma Selic constante, as rentabilidades líquidas projetadas para o Tesouro Selic (9,51%), os fundos Tesouro Selic ou CDBs que rendem 100% do CDI (9,61%) e as LCIs que rendem 100% do CDI (11,65%) vencem com tranquilidade a inflação projetada para 12 meses, de 5,67%.
Ou seja, voltou a ser possível enriquecer na renda fixa, pois a pré-condição para um investimento te deixar mais rico é justamente render acima da inflação.
Repare ainda que a poupança se mantém desvantajosa frente aos demais investimentos conservadores, e deve ficar cada vez mais. Mas agora, mesmo a poupança já se mostra capaz de repor a inflação projetada em 12 meses.
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