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Não podemos nos esquecer que o Brasil e os Estados Unidos são os epicentros da covid-19. Mesmo assim, tem gente jogando roleta-russa em Wall Street e na B3. Não estou me referindo àqueles que investem com discernimento, mas aos que compram papéis apenas porque caíram muito
No início dos anos 1970, eu tinha um revólver Smith & Wesson, calibre .32. Como meus dois filhos eram pequenos, ele ficava guardado na última prateleira de um armário de meu quarto, local praticamente inalcançável.
Muito raramente, quando ia passar um fim de semana no sítio de algum amigo, levava a arma. Nessas ocasiões, praticava tiro ao alvo em latas e garrafas.
Em 1972, houve um assalto à oficina de um ourives, que trabalhava com ouro, prata e platina, no segundo andar do prédio – Edifício Martinelli, Av. Rio Branco, Centro do Rio de Janeiro – onde ficavam, mais acima, os dois andares de escritórios da Fator Corretora de Títulos S. A., empresa da qual eu era diretor de operações e sócio majoritário.
Me vali do pretexto para trocar o revólver de lugar. Levei-o de casa para a Fator, onde ficou numa das gavetas de minha mesa de trabalho.
Determinada tarde, peguei a arma, retirei as seis balas e mirei o S & W em diversas direções. Inclusive no meu ouvido direito. Em todas essas ocasiões, puxei o gatilho.
Detalhe: ao ler o rascunho deste texto, minha mulher me chamou de babaca. Pronto! Já fui rotulado. Não há necessidade do leitor me escrever, repetindo o adjetivo.
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Voltando à narrativa, há um ditado do interior de Minas que adverte que não se deve brincar com armas, mesmo desarmadas.
“O diabo atenta e põe bala”, é assim que o pessoal da roça diz.
Se foi o demo ou não, jamais terei a oportunidade de saber. O certo é que parei o tiro ao alvo de mentirinha para atender alguns telefonemas. Depois voltei a brincar com o .32, sem antes fazer um double check para conferir se, por algum tipo de distração, não tinha posto a munição de volta nos tambores, que foi justamente o que aconteceu.
Apontei em direção à porta, trouxe o cão para trás com o polegar direito e puxei o gatilho com o indicador.
“Pooom!”, o tiro me atordoou. Só que o furo obsceno arreganhado na porta me tonteou ainda mais.
Fiquei conjeturando se a bala não poderia ter acertado uma de minhas secretárias, Beth e Miriam, ou algum azarado que estivesse passando pelo corredor naquele momento. Mas, apavorado, não tive coragem de ir lá conferir.
Do lado de fora, aconteceu a mesma coisa. As duas moças, e outros funcionários que foram chegando, atraídos pelo barulho, certos de que eu havia me suicidado, não se animaram em abrir a porta e entrar na sala.
Passaram-se uns cinco ou dez minutos, que me pareceram uma eternidade, até que o Chicão, uruguaio e sambista da Mangueira, que era um dos meus operadores de pregão, desassombradamente, foi ver o que tinha acontecido.
Pálido feito um defunto sueco, eu olhava abestalhado para o cano da arma. Disse para ele:
“Disparou”, como se não fosse o óbvio.
Pensando bem, “babaca” é pouco para adjetivar o que fiz naquela tarde.
Tenho absoluta certeza de que se tivesse acontecido com um dos funcionários, ele teria sido despedido. Por justa causa, diga-se de passagem. Mas como foi o dono da empresa, o incidente foi relevado.
Isso não impediu que, de vez em quando, ao passar por uma das salas, ouvisse alguém comentar baixinho, mas não tão baixo que eu não ouvisse, com um colega:
“Lá vai o John Wayne”, ou coisa parecida.
Uma coisa não saía de minha cabeça. Fiquei imaginando se, na segunda leva, após as ligações, e com o revólver municiado, eu tivesse dado um tiro no ouvido e morrido na hora.
Devaneei sobre os comentários de amigos, conhecidos e colegas de Bolsa:
“Bem que achei que o Ivan andava meio deprimido. Tava magro demais. Nem comemorou direito a última vitória do Fluminense.”
“A Fator deve estar com um rombo deste tamanho”, nos recônditos de minha imaginação o cara abria os braços na maior amplitude possível.
“O Ivan não podia ter feito isso comigo e com os meninos”, teria dito a Marilia, minha mulher à época.
O laudo do IML assinalaria “suicídio com arma de fogo”. Meu esqueleto estaria há quase meio século no jazido de mármore negro da família, no cemitério São João Batista. Na lápide, a fria inscrição:
“Ivan Andrade Sant’Anna e Silva – 1940/1972.”
Depois daquele episódio, nunca mais brinquei com armas de fogo. Entortei com uma marreta o cano do Smith & Wesson, tornando-o imprestável para sempre, e me livrei dele numa caçamba de lixo.
Entre as centenas de livros que li, e filmes que assisti, tanto os ficcionais como os de não-ficção, a brincadeira, ou o desafio, ou a fanfarrice (deixo para o leitor a classificação) da roleta-russa aparece.
Nos romances de Tolstoi, Dostoievski e Gogol, por exemplo, o jogo mortífero é lugar comum.
Para os não iniciados, a bravata (ou estupidez, como queiram) consiste em pôr apenas uma bala no revólver, girar e fechar o tambor, sem ver onde o projétil foi parar, encostar a ponta do cano no ouvido ou no céu da boca e puxar o gatilho.
Se for um Smith & Wesson, daquele modelo que eu tinha na Fator, de seis balas, a chance do jogador morrer é de 16,6666...%. No caso de uma arma de cinco disparos, a possibilidade sobe para 20%.
Não podemos nos esquecer que o Brasil e os Estados Unidos são os epicentros da covid-19. Mesmo assim, tem gente jogando roleta-russa em Wall Street e na B3.
Claro que não estou me referindo àqueles que investem em renda variável com discernimento. Mas sim aos que compram papéis apenas porque caíram muito.
Companhias aéreas, fabricantes de aviões, empresas de turismo, cadeias de restaurantes, redes hoteleiras... Muitas dessas sociedades poderão entrar (como algumas já fizeram) com pedidos de recuperação judicial e até mesmo de falência.
Claro que certos setores de atividade vão sair da crise pandêmica mais fortes do que entraram. Num ambiente de taxas de juros reais próximas de zero, ou até mesmo negativas, esses papéis deverão se revelar ótimos investimentos a curto, médio e longo prazo.
Para desnudar melhor o admirável (será?) mundo novo, exemplifico com minha pessoa.
Mudei completamente meu perfil de consumidor. Como há mais de três meses não ponho os pés fora de casa (com 80 anos de idade, diabético e cardiopata, sou um prato feito para o vírus chinês), estou fazendo daqui, através do laptop ou do celular, compras que antes fazia na rua. Pegava minha bicicleta e ia na loja.
Entre as coisas que passei a adquirir por delivery, estão bebedouro de beija-flor, repelente de pombos, papel A4, cartucho de impressora, equipamento de jardinagem e comida de restaurantes gastronômicos.
Embora já trabalhe em regime de home office desde abril de 1995, conheço muita gente (como minha filha e meu genro, por exemplo, que agora estão fazendo isso por determinação de seus empregadores em Londres) que está passando pela experiência pela primeira vez.
No caso dela, que é executiva de marketing de uma cadeia de supermercados espalhada por toda a Grã-Bretanha, talvez o novo método de trabalho se estenda por mais tempo do que o exigido pela pandemia. Simplesmente porque está sendo muito lucrativo para a empresa.
Ou seja, o mundo dos negócios e, por conseguinte, o dos investimentos, mudou. É preciso mudar com ele. Nada de comprar papéis só porque estão historicamente “de graça”.
Isso pode ser um investimento suicida ou um novo método, não sangrento (só sangra o bolso), de roleta-russa.
Logo após o grande crash da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, muitas ações, antes negociadas a 20 ou 30 dólares, passaram a trocar de mãos por apenas alguns centavos per share.
Inúmeros especuladores, do tipo que lá são conhecidos como bargain hunters (caçadores de barganhas), entraram nessa gelada e perderam o pouco que ainda tinham para perder. Simplesmente porque os papéis que compraram eram de companhias de fachada: não tinham ativos, não tinham empregados, não tinham escritórios, não fabricavam nada.
Eram apenas nomes, inventados e lançados, com estardalhaço, em IPOs por espertalhões.
Isso está bem explicado em meu livro 1929: quebra da bolsa de Nova York, publicado pela Objetiva e mais tarde pela Inversa.
Em 1971, um ano antes do episódio do Smith & Wesson, quando eu era operador de pregão da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, fui testemunha de diversas dessas falsas pechinchas. É verdade. Aqui no Brasil aconteceu também.
Quando o mercado começou a cair (a queda duraria uma década), alguns desses papéis fajutos passaram a ser negociados por poucos centavos de cruzeiro. Só que as empresas emissoras, tal como acontecera em Wall Street em outubro de 1929, não tinham valor algum.
Por outro lado, e isso é o que mais importa nesta história, algumas ações cujos preços vieram abaixo no desmoronamento de 1971, são negociadas até hoje.
Elas sobreviveram aos dois choques do petróleo, aos tempos de hiperinflação, de reformas monetárias heterodoxas, com suas tablitas, ao confisco do Plano Collor e às diversas crises que o Brasil viveu desde então.
Caramba! Estou falando de Vale, Petrobras, Banco do Brasil, Brahma (Ambev), etc.
Nos dias atuais, o mercado de renda fixa, por mais que alguns bancos esperneiem, perdeu seu atrativo.
Como o Brasil irá sobreviver à Covid-19, a renda variável é o melhor destino para o seu dinheiro. Em seu vasto cardápio, você encontrará as melhores e mais tradicionais empresas, fora as que desabrocharam com a pandemia, seja aprendendo a conviver com ela, seja crescendo por causa dela.
O momento é de grandes oportunidades. Isso para quem não é chegado ao joguinho da roleta-russa nem a investimentos suicidas.
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