Investir ou não investir em ações em IPOs?
Vários IPOs estão previstos para este ano de 2020. Em princípio, não gosto de comprar ações em lançamentos, a não ser que conheça profundamente a empresa e saiba que suas perspectivas são ótimas

Nos Estados Unidos, a década de 1920, chamada de Roaring Twenties (Esfuziantes Anos Vinte), é vista até hoje como um dos períodos mais felizes e prósperos do país.
A Europa também vivia uma época de boom econômico. Terminada a Primeira Guerra Mundial (1914/1918), dissipadas a Gripe Espanhola e as hiperinflações alemã e austríaca, agora floresciam as artes, a música e o cinema.
Mesmo o messiânico Adolf Hitler, líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido por sua abreviação, “Nazista”, perdera a maior parte dos seus adeptos.
Nos dois lados do Atlântico Norte era comum alguém dizer que chegara o momento onde todos seriam ricos.
A Bolsa de Valores de Nova York refletia essa onda de otimismo. Bastava comprar ações, praticamente qualquer uma, e aguardar a valorização, que raramente deixava de acontecer.
Como era pouco papel para muito comprador, pipocavam os underwritings (o termo IPO ainda não era usado).
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Alguns lançamentos eram de empresas boas, outros de companhias sem grandes perspectivas de lucro, ou precificadas em níveis altos demais.
Finalmente, havia os trambiques: consórcios que compravam cotas de outros consórcios, que compravam cotas de outros consórcios e finalmente de consórcios que não compravam cotas de nada.
Como as cotações desses consórcios de araque, sem lastro algum, não faziam outra coisa a não ser subir, os investidores não questionavam as indicações dos brokers.
“What is the big tip for today? (Qual é a grande dica para hoje?)” – era só o que queriam saber.
Eis como narro essa face da febre especulativa em um parágrafo do capítulo 11 de meu livro “1929: quebra da bolsa de Nova York – a história real dos que viveram um dos eventos mais impactantes do século”, que os leitores Premium do Seu Dinheiro podem baixar no formato e-book:
“Evidentemente os investidores não faziam a menor ideia de onde o seu dinheiro fora parar. Muito menos se interessavam por esse detalhe. O que os deixava felizes era abrir o jornal todas as manhãs e ver que as cotas de seus consórcios de investimento haviam subido mais uma vez. Aqueles que resgatavam seus papéis, seja para garantir o lucro, seja por causa de uma necessidade inesperada, logo se arrependiam ao ver, nos dias e semanas seguintes, o quanto estavam deixando de ganhar.”
Como se sabe, logo após as férias de verão e do Labor Day, o mercado de ações fez uma máxima histórica e começou a cair.
A queda se acelerou em outubro, até que sobreveio o Grande Crash, ou Black Tuesday, que é como os americanos se referem ao dia 29 de outubro daquele ano, quando a NYSE (New York Stock Exchange) simplesmente evaporou.
Fortunas foram perdidas, milhares de bancos quebraram, iniciou-se a Grande Depressão dos Anos Trinta, que só teria fim com o advento da Segunda Guerra Mundial.
Ou seja, o mundo saiu da tragédia para a desgraça total, que resultou em mais de 50 milhões de mortos.
Mas, voltando ao Grande Crash, como sempre acontece puseram o cadeado depois da porta arrombada.
Foi criada a SEC (Securities and Exchange Commission), cujo princípio básico era “Full and Fair Disclosure (Transparência Justa e Completa)”. O novo órgão, entre outras atribuições de xerife do mercado, passou a fiscalizar os lançamentos de ações.
Sem a chancela da SEC, nenhum IPO pode ser levado a cabo.
Curiosamente, o primeiro chairman nomeado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt para a SEC foi Joseph Kennedy, pai de John Fitzgerald Kennedy e um dos maiores especuladores da Bolsa de Nova York. Por sinal, dos poucos que saiu lucrando na derrocada do mercado de ações.
Puseram a raposa para tomar conta do galinheiro e, como ela sabia de todos os truques, deu certo.
IPO na Prefeitura de BH
Meu primeiro contato profissional com IPOs, que ainda não eram conhecidos no Brasil por essa sigla (apenas “lançamentos”) aconteceu em 1961, quando tinha 21 anos de idade e já três de mercado.
Nessa ocasião, eu trabalhava na corretora H. Picchioni, em Belo Horizonte.
O prefeito da cidade, Amintas de Barros, decidiu criar uma empresa de economia mista, a qual deu o nome de Ferrobel – Ferro de Belo Horizonte S. A. O objetivo era explorar as jazidas de minério no parque das Mangabeiras, na periferia de BH.
Para o lançamento, não houve necessidade da autorização de nenhum órgão do governo federal. O Banco Central e a CVM ainda não existiam.
A H. Picchioni foi escolhida para vender ações ao público.
Puseram mesas e cadeiras no saguão da prefeitura.
Nós, os brokers, ficávamos sentados às mesas, atendendo os compradores.
Como a propaganda foi bem feita, e as opções de investimento na época eram poucas, milhares de pessoas acorreram ao local.
Não tenho certeza do preço unitário das ações, mas acho que foi Cr$ 1,00 (um cruzeiro). O candidato a acionista dizia quantas queria e preenchia um cheque no valor. Alguns pagavam em dinheiro. E levavam um recibo, que mais tarde seria trocado pelas cautelas.
Nós, os corretores, ganhamos nossa comissão. Já os investidores, nunca viram um centavo de lucro. A Ferrobel (o nome até que foi sugestivo) chegou a ensaiar as primeiras escavações, mas jamais conseguiu produzir com preço competitivo.
Em 1965, quando fui estudar mercado de capitais na NYU, é que passei a conhecer a mecânica dos IPOs.
As duas grandes vedetes daquela época eram as ações da Xerox e da Polaroid, ambas listadas na New York Stock Exchange.
Testemunhei, sem me dar muita conta de sua importância, o lançamento público das ações da cadeia de lanchonetes McDonald’s.
Se tivesse posto uns trocados nesse papel, e mantido o investimento até hoje, meu lucro teria sido de 2.700%, um ótimo retorno mesmo considerando a inflação americana no período: 715%.
[captacao]
Scotch garantido
De volta ao Brasil, e agora sócio da corretora Fator, além de operador de pregão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, testemunhei e participei de diversos lançamentos públicos.
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) ainda não fora criada e a fiscalização dos IPOs era praticamente nenhuma.
Nessa época, a Fator lançou ações da Norte Gás Butano, empresa com sede em Fortaleza mas que tinha praticamente monopólio de venda de gás em botijão de Sergipe até o Pará.
O dono da companhia, altamente lucrativa, era o empresário Edson Queiroz. O preço de venda, meio salgado: Cr$ 7,00. Mas valia a pena.
Fretei um Electra da Varig e levei, para Fortaleza, uma comitiva de profissionais de mercado, gente que tomava decisão nos fundos e grandes carteiras.
Não eram ações novas. Queiroz queria apenas ter as vantagens fiscais de ser uma companhia aberta e, para isso, diminuía sua participação na empresa, sem perder o controle.
Todas as pessoas que foram comigo sabiam disso. Mas não gostaram quando, na apresentação da Gás Butano, feita pelo próprio Edson Queiroz, alguém lhe perguntou o que faria com o dinheiro do lançamento.
Ele respondeu:
“Tomar scotch”, e levantou o copo de uísque que tinha em mãos.
Como se tudo isso não bastasse, numa reunião à noite na mansão do empresário, o governador do Ceará, César Cals, para cartear uma marra, disse que se os investidores não comprassem as ações que estavam sendo lançadas, o governo do Estado o faria.
O lançamento só não foi um fracasso total porque consegui fazer uma troca com o Joãozinho do Nascimento, dono e presidente do Banco Mineiro do Oeste, cuja instituição, por sinal, não ia lá muito bem das pernas. Tanto é assim que a chamavam de Banco Mineiro do Faroeste.
Entreguei as ações da Gás Butano para eles. Em troca, recebi CDBs de sua emissão, com vencimento em seis meses.
Foram 180 dias sofridos, até que os títulos venceram e pude resgatá-los. Mais tarde o Faroeste foi comprado pelo Bradesco por um valor simbólico.
"A grande enrabada"
Portanto underwritings e lançamentos não me trazem boas lembranças. A exceção fica por conta da BM&F. Não que eu tenha participado do IPO, mas eles me contrataram, pagando uma grana de respeito, para escrever um livro sobre a operação e o road show que a precedeu. O título é Projeto Maratona.
Se me dei bem neste episódio, o mesmo não aconteceu com os compradores dos papéis. Lançados a RS 20,00, em pouco tempo caíram mais de 50%, em parte por causa da crise do subprime.
Depois a BM&F se fundiu com a Bovespa.
O livro Projeto Maratona foi lançado meio que na moita, durante um almoço reunindo umas dez pessoas. Foram impressos mil exemplares.
Certa ocasião, cochichei no ouvido de um dirigente da bolsa:
“Poxa, bastava a gente ter mudado o título do livro para ‘A grande enrabada’.”
Acho que ele não gostou muito de meu deboche.
Felizmente, para os investidores brasileiros, a quase totalidade dos compradores das ações da BM&F no IPO era composta de grandes fundos estrangeiros. O dinheiro entrou aqui e aqui ficou.
Como e quando investir
Vários IPOs estão previstos para este ano de 2020. Em princípio, não gosto de comprar ações em lançamentos, a não ser que conheça profundamente a empresa e saiba que suas perspectivas são ótimas.
Prefiro esperar o comportamento dos papéis nas primeiras semanas, para então adquiri-los, mesmo que pague mais caro.
Honestamente, acho que aquelas histórias do “scotch” e a Ferrobel me deixaram meio traumatizado.
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