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Da margarina, da Carolina, da gasolina
Você precisa saber de mim
Baby, baby, eu sei que é assim
Você precisa tomar um sorvete na lanchonete
Andar com a gente, me ver de perto
Ouvir aquela canção do Roberto
Baby, baby, há quanto tempo
Você precisa aprender inglês
Precisa aprender o que eu sei
E o que eu não sei mais”
Baby — Caetano Veloso
É curioso que o livro Princípios do Estrategista tenha chegado à Amazon para a pré-venda às vésperas do Dia das Crianças. Escrevemos, primeiramente, para dar uma pequena contribuição à educação financeira no Brasil e levar ao investidor pessoa física o que se discute na fronteira das finanças, de forma leve e descontraída. Queríamos formar investidores melhores.
Esse era o objetivo principal. Mas admito haver uma meta maior, subjacente à primeira. Os princípios que me norteiam como investidor são também referências para a vida toda. É uma forma de ver o mundo e, a partir deles, de encontrar um jeito de ser e estar por aqui. Mais até do que bons investidores, sonharia em encontrar bons pais e boas mães. No final do dia, eu acho que é rigorosamente a mesma coisa.
Quando conversamos com a turma da editora Intrínseca para ajustarmos os detalhes finais do livro, ouvi deles a intenção de criarmos um verdadeiro clássico sobre investimentos no Brasil. Essa era a expectativa deles. “Felipe, este precisa ser ‘o livro de investimentos’ do país...”
Admito ter achado um pouco pretensioso. Não me vejo com capacidade para escrever um clássico. Se pudermos ajudar algumas poucas pessoas, sem a necessidade de transpor gerações, já estaria feliz. Sei meu lugar no mundo. Insisti para que o nome fosse “Princípios de Um Estrategista”, mas fui voto vencido. E confesso ter me surpreendido muito com o resultado final.
Se vai ser um clássico ou não, só o tempo vai dizer. O que já posso afirmar é minha felicidade e meu orgulho com a qualidade da obra. Não por mim, fique claro. O mérito é integralmente do Mioto, com seu brilhantismo na escrita, e da Intrínseca, que fez um trabalho impecável, lindo do ponto de vista estético e rigoroso na revisão da literatura. Também preciso agradecer os maravilhosos prefácios de André Esteves, sócio-sênior do BTG Pactual, e Gilson Finkelsztain, presidente da B3, que muito me honraram com palavras elogiosas, talvez até imerecidas, para o livro.
Não poderia ser diferente. A essência do livro circunda nosso ceticismo sobre métodos capazes de explicar o mundo e prever o futuro. O peso da aleatoriedade, no mercado, mas também na vida cotidiana, é muito maior do que nosso desejo de controle gostaria de supor. Reduzir a volatilidade dos portfólios, por exemplo, uma das grandes missões dos financistas tradicionais, não é diminuir o risco da carteira, embora assim seja tratado, mas, apenas, conferir um conforto mental para acharmos que as coisas estão bem comportadas e sob controle, já que não variam muito.
Os riscos que os olhos não veem o coração não sente, embora o bolso possa sentir muito no futuro. Noutro dia, faz pouco tempo, conversei com um investidor bastante rico. Patrimônio próximo a R$ 200 milhões, cerca de 60% alocado em imóveis. Quando conversávamos sobre sua alocação, fui alertado de que a volatilidade das ações o incomodava muito, de modo que deveríamos ser cautelosos ao falar da renda variável. “Ok, entendido.” Perguntei, então, se o mesmo princípio não valia para os imóveis, cujos preços também são voláteis e nós apenas não enxergamos suas variações diárias marcadas a mercado numa tela de computador. “Não, não. Isso aí não tem erro. Imóvel só sobe.” Então tá…
Os dois leitores mais assíduos talvez apontem se tratar de uma ideia talebiana. De fato, “Iludidos pelo Acaso”, a confusão entre mérito próprio e conquistas derivadas da mera aleatoriedade, é uma grande referência. Passamos pelo arcabouço de Nassim Taleb, sem dúvida alguma. Propomos a antifragilidade como uma possível resposta, embora alertemos também para as dificuldades de sua implementação na prática. Os filhos, em algum momento, precisam superar os pais.
Embora a teoria talebiana seja formidável, a verdade é que conseguir materializá-la na prática, sobretudo no Brasil, onde o mercado de opções é pouco líquido e sofisticado, sem prazo e sem muitas alternativas, é bastante difícil.
A solução pode estar em ligar Taleb a outros grandes autores e investidores. Quando adotamos a postura clássica de Benjamin Graham e Warren Buffett mais em seu começo de carreira, perseguindo compras de grandes barganhas, estamos tentando ter certeza de que as cotações já estão tão depreciadas que surpresas só podem acontecer do lado positivo. Os cisnes negros seriam só favoráveis, já que o mercado já contemplaria um cenário muito adverso àquele ativo.
De forma análoga, quando perseguimos empresas de crescimento ou com grandes vantagens competitivas, nos apoiando sobre as ideias de Philip Fisher ou Charlie Munger, estamos em busca de companhias, no mínimo, robustas, que conseguem crescer sequencialmente em vários cenários, tolerando choques negativos pelo caminho e sabendo se adaptar.
Ao mesmo tempo em que sabemos se tratar de um ambiente complexo e de grande interação entre os atores. Ou seja, não pode haver um valor intrínseco para a empresa, no sentido de que ele está inapartável, indissociável da companhia, sem depender de nada externo. Ao contrário, realidade objetiva e expectativa dos agentes se influenciam reciprocamente e acabam se confundindo. Por exemplo, uma empresa só faz um grande IPO para poder usar o capital novo para seu projeto de expansão se o mercado acreditar na sua capacidade de execução. É a própria expectativa no plano de expansão que viabiliza a materialidade do plano de expansão. Então, o que seria “valor intrínseco” vai mudando no tempo a partir de uma variável extrínseca, que é a expectativa dos agentes. Tão diferentes entre si, Warren Buffett pode estar conectado à teoria da reflexividade de George Soros. É tão surpreendente que, muitas vezes, a própria entrada de Warren Buffett, talvez o grande defensor da noção de valor intrínseco, no capital de uma companhia muda seu valor intrínseco, porque há materialidade na nova capacidade de levantar capital daquela firma.
Capturamos vários conceitos da psicologia para o bom investidor, passando por Daniel Kahneman, claro, mas também por coisas menos óbvias como Carol Dweck e até mesmo Bernardinho — disciplina e mentalidade de crescimento são essenciais para quem quer estar entre os mais aptos nesta atividade.
Ligamos as construções buffettianas clássicas às visões de ciclos de mercado de Howard Marks, Ray Dalio e do próprio George Soros, além de conectá-las à fronteira de gestão de recursos em nível mundial. Se os cisnes negros estão por toda a parte e são os grandes responsáveis por determinar o destino das coisas, a resposta pode estar em diversificar entre vários fatores de risco diferentes, onde os prêmios são grandes e de forma descorrelacionada entre si. Visto de outro jeito, falando uma linguagem técnica (não se preocupe com esses termos bobos), é isso que estão fazendo os fundos de smart beta. Essa talvez seja a única forma de, consistentemente, apresentar retornos acima da média mesmo sob mercados altamente competitivos e eficientes.
Não é uma tarefa fácil, certamente. Mas, com bons princípios, é possível, sim. Leia o livro com os olhos de uma criança. Se os três leitores comprarem o livro, para mim, já terá sido um clássico.
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